Acidentes na montanha : Por que esconder um acidente da comunidade é um tiro no pé ?

Imagine a seguinte situação : você está escalando normalmente em seu local preferido, quando visualiza uma pessoa realizar um procedimento errado. Você, para não ficar de antipático perante todos, fica calado se omitindo de dizer algo e apenas torce o nariz. O escalador, por estar realizando um procedimento incorreto, consequentemente sofre um acidente. Não é grave, felizmente, mas há, claro, toda uma movimentação de levá-lo ao hospital mais próximo e fazer todo o possível para que ele volte para casa.

Com o passar dos dias não há sequer uma discussão sobre o tema em redes sociais e academias de escalada. Os “abafadores” já instituíram a lei do silêncio e, como acontece sempre em uma situação destas, o problema foi varrido para debaixo do tapete. Frases equivocadas são repetidas à exaustão pelos envolvidos como “acidentes acontecem sempre”, “tudo é aprendizado”, “logo logo estou de volta”, e outros pensamentos semelhantes à personagem Pollyanna (que sempre via o lado positivo das coisas com seu “jogo do contente”) são repetidas pelo acidentado que, obviamente, quer ficar “na moita”, pois não aprendeu nada com o ocorrido.

Ilustração : Koran Shadmi | http://www.sierraclub.org/

Ilustração : Koran Shadmi | http://www.sierraclub.org/

Com o passar do tempo esta mesma pessoa volta a escalar e, como é típico de quem não refletiu sobre o tema, novamente executa outro procedimento errado. Mas desta vez com alguém próximo a você. Por proximidade entenda como sendo seu filho(a), esposo(a), namorado(a), amiga(a), etc. Mas desta vez o destino não foi tão camarada como no caso anterior, e a gravidade do acidente é maior ocasionando uma lesão séria ou até mesmo morte.

De quem é a culpa ?

Rapidamente responde-se que a culpa é do escalador que, por conta da paternalidade e covardia dos “abafadores”, nunca aprendeu nada corretamente nem nunca foi corrigido. Mas será mesmo ?Lembrando que quando há um acidente grave (quando há óbito ou resgate complicado) não somente um veículo oficial, como o registro de acidentes mantido pela CMBE, ou alguma mídia específica, como é a Revista Blog de Escalada (hoje o site outdoor mais visitado do Brasil). Quando há um acidente grave, que necessita resgate do corpo de bombeiros ou óbito, quem estará cobrindo a notícias serão as mídias tradicionais e de massa, o que inevitavelmente trará mais repercussão.

Assim o assunto que foi varrido para debaixo do tapete pelos “abafadores” é agora tratado sem nenhum critério por jornalistas leigos no assunto e comentaristas sensacionalistas. Um clássico caso de que problemas que vão embora sozinhos voltam acompanhados. Assim seguramente serão feitas várias afirmações e, como sempre acontece, será levantada a preguiçosa solução da “proibição do esporte”, ou fechamento do local.

Foto : http://www.thetoc.gr/

Foto : http://www.thetoc.gr/

Parece uma hipótese absurda ?

Nem tanto. O abafamento de acidentes de escalada, ou o descaso de não reportar em sites ou páginas de entidades de classe, é a criação de uma bola de neve que contém os erros que criminosamente são escondidos e que poderiam ser discutidos com a comunidade para, desta maneira, fazê-la refletir sobre o constante aprendizado. Qualquer pessoa que ache que noticiar um acidente, seja ele fatal ou não, seja demérito do lugar onde aconteceu, mostra o quanto ela tem uma visão torpe do mundo e do esporte que pratica.

Qual a pior notícia ? Uma pessoa se acidentar e discutir o tema ou reportar a morte de uma pessoa querida ?

O que dói mais : reportar um acidente ou ficar sabendo do fechamento de uma área por algo que poderia ser evitado ?

Foto : Eric Hengesbaugh | http://www.rockandice.com/

Foto : Eric Hengesbaugh | http://www.rockandice.com/

O ano de 2016 ficará conhecido como aquele que mais discutimos políticas, e políticos, de maneira passional. A timeline das redes sociais refletiu bastante a dicotomia que tomou conta das pessoas de pensamento binário. Mas como protestar contra um político, que desvia verbas públicas por exemplo, se a própria comunidade de montanha não é capaz de discutir e divulgar um simples acidente de escalada ? Se as pessoas que poderiam trazer à tona um assunto para que todos discutirem optam por ter o mesmo comportamento asqueroso que os políticos que reclamam.

Acidentes de escalada quando acontecem atingem a todos, seja em menor ou maior grau. Acidentes podem fechar áreas de escalada (algumas das quais podem ser das poucas que existam em uma região), e, por conta da vaidade e “nanismo moral” de quem quer abafar um acidente toda a comunidade é afetada. Somente trazendo à luz da discussão, desde que seja civilizada obviamente, é o que permite que cada um possa refletir adequadamente sobre seu conhecimento em técnicas básicas de segurança. Quando o acidentado, quando questionado pela comunidade, fizer uma análise admitindo o erro e, posteriormente, procurar aprender os procedimentos corretos, é que o esporte de montanha (seja ele escalada, trekking, hiking, canoagem, corrida de montanha, etc) ficará mais seguro.

Foto : Luis Macedo | http://noticias.r7.com/

Foto : Luis Macedo | http://noticias.r7.com/

Aqueles que procuram sempre esconder os acidentes ocorridos em locais de escalada cumprem o mesmo papel para a comunidade de montanha que políticos. Os mesmos políticos, diga-se, que frequentemente estas mesmas pessoas que “abafam” acidentes vociferam contra. Querer viver em um mundo melhor passa pela atitude de não ficar se escondendo como criminosos (ou mesmo um ladrão de galinha), ou covardes, mas sim procurar disseminar o conhecimento a todos, mesmo que o acidentado seja um amigo próximo. Quem tem maturidade (e inteligência) sabe que um acidentado que hoje machuca-se, mas não aprende, seguramente irá ferir, ou até mesmo matar alguém no futuro.

Quanto mais existirem pessoas com “nanismo moral” e com pequenez intelectual praticando a escalada com os mesmos procedimentos do coronelismo político que existe no Brasil, mais seremos vistos como loucos e idiotas.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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