Grandes nomes do esporte: Fred Beckey – “A lenda”

Sempre à margem das mídias e discreto com sua vida, o montanhista americano Fred Beckey é, sem dúvida, uma das grandes lendas da história do esporte mundial. Nascido Friedrich Wolfgang Beckey na cidade alemã de Düsseldorf em 1923, Fred migrou para os EUA ainda muito pequeno com seus pais. Seu pai era médico e a mãe cantora lírica e optaram em mudar aos EUA após o fim da I Guerra Mundial e se estabeleceram na cidade de Seattle em 1925. Logo na adolescência, Beckey começou a rejeitar a vida na cidade e, desde então, nascia um dos maiores montanhistas da história. No próprio estado de Washington, Beckey realizou várias ascensões em uma época que sequer existia equipamentos de escalada apropriados.

Logo na sua adolescência, se dedicou ao montanhismo junto do irmão, enquanto praticava escotismo. No ano de 1939, com apenas 16 anos de idade, realizou a primeira ascensão do Mount Despair (2,224 m). Um ano mais tarde, com 17 anos também foi o primeiro a subir o Forbidden Peak (2.687 m). Disposto a mostrar que não era um montanhista somente do estado de Washington, fez a segunda ascensão do Mount Waddington (4.019 m), no estado canadense de British Columbia em 1942, com apenas 19 anos de idade.

Poucos sabem, mas Beckey foi à faculdade University of Washington para estudar Administração de Empresas, formando-se no ano de 1949. Na faculdade passou a maior parte do tempo com seu irmão e amigos escalando nos estados norte-americanos de Washington, Wyoming, Califórnia e Oregon, nos Bitterroots em Montana e nos Bugaboos no Canadá, além de formações rochosas desérticas no sudoeste norte-americano.

Depois de se formar em administração de empresas em 1949, Fred trabalhava vendendo anúncios para o The Seattle Post-Intelligencer e foi representante de vendas na parte gráfica do finado jornal. Fred concluiu nos primeiros depois de formado, que a vida de trabalho formal atrapalharia sua atividade de escalada. Por isso largou o emprego, relativamente estável, para ser motorista de caminhão, pois nesta atividade teria mais tempo para se dedicar ao montanhismo.

Com o tempo, Beckey foi dando mais prioridade à escalada, deixando de lado os aspectos profissionais e pessoais. Mesmo sem nunca ter casado, apesar de ser reconhecido pelos amigos um namorador inveterado, Beckey também abdicou de ter uma carreira profissional na escalada. Sua meta, segundo descreve os amigos, era somente a escalada. Fazer com que a atividade tornar-se um trabalho, sendo patrocinado, lhe tiraria o prazer e independência de exercê-la.

Fred Beckey escreveu aproximadamente 12 livros sobre montanhismo, que são fundamentais até hoje para a comunidade de escalada. Junto do escalador havia um pequeno livrinho de capa preta, no qual anotava dados das vias e informações que eram essenciais para a prática do montanhismo. Eram informações preciosas que mais tardem Fred as colocou em livros. Além de ser meticuloso a ponto de anotar todos os detalhes de uma escalada, o montanhista possuía um conhecimento quase enciclopédico da geografia das montanhas do noroeste dos EUA. Tecnicamente excelente, teve a oportunidade de subir ao cume do Lhotse (8.516 m) no ano de 1955. Quando seus parceiros foram feridos ou mortos em expedições, incluindo Charles Shiverick na Coast Range of British Columbia (parte mais ocidental da Cordilheira do Pacífico) em 1947 e Bruno Spirig no Himalaia em 1955, Beckey foi criticado pela comunidade e colegas de escalada.

As críticas, entretanto, não abalaram o escalador que foi sendo reconhecido também pela sua personalidade forte, criando fama por suas maneiras rudes, reputação discrepante e acentuada intransigência. Por conta desta atitude que, em teoria, não iria colaborar em equipe, Fred Beckey foi preterido pelo conterrâneo Jim Whittaker, o primeiro norte-americano a pisar no Monte Everest (8.848 m), a fazer parte da expedição americana.

Enquanto outros montanhistas experientes repetiam as ascensões dos picos dos Himalaias e dos Andes, buscando alimentar o ego e a sua fama diante da mídia não especializada, sempre anunciando a quebra de recordes de velocidade, Beckey viajava pela América do Norte em busca de cumes e rotas virgens e inéditas, considerados difíceis demais para escalar. De acordo com registros, Fred todos os anos escalou 40 ou 50 picos diferentes. Uma prática frequente ao longo dos anos. Fred beckey não ficava restrito em áreas dentro da sua zona de conforto, o seu objetivo era sempre ir a um lugar mais difícil, mais desconhecido e mais virgem.

Nos anos 1960, Fred Beckey fez uma parceria com o então adolescente Yvon Chouinard, o fundador da marca Patagônia. Chouinard que afirma que foi o montanhista que ensinou os grandes nomes do esporte em Yosemite a ser um “Dirtbag”. Todos os escaladores dos anos 1960 e 1970, que frequentavam Yosemite e fizeram história (documentada nos filmes “Valley Uprising” e “Brave new Wild”), escalaram e aprenderam com Beckey a “arte” e filosofia de ser um “dirtbag”. Todo este espírito de “desapego” e “viver o sonho” que existe na escalada e montanhismo em todo o mundo, foi Fred Beckey que o criou e, obviamente, viveu intensamente.

Por mais de 70 anos, Fred Beckey viveu em uma austeridade que poucas pessoas do mundo suportariam. O montanhista era um ermitão mais genuíno e fiel ao termo, além de ser um viajante incansável. Fred ficou praticou o esporte em alto nível, tanto em escalada, quanto em montanhismo, por muito tempo. Até os 80 anos, o montanhista dividia a corda com pessoas. Diferentemente de muitos montanhistas contemporâneos, Beckey trilhou seu próprio caminho, conquistando façanhas que, até então, eram consideradas impossíveis para o ser humano. Consta, segundo um levantamento não oficial, mais de 5.000 ascensões de montanhas e vias de escalada.

Fred era um arrojado excêntrico. Era apaixonado por subir a picos de montanhas nunca escaladas. Mesmo que não tenha sido a primeira pessoa a escalar o Denali (6.190 m), no estado norte-americano do Alasca e o pico mais alto da América do Norte. O montanhista pertenceu à equipe que em 1954, conseguiu a Tríplice Coroa do alpinismo norte-americano ao alcançar os cumes mais altos do Alasca: Mounts Hunter (4,442 m), Deborah (3,761 m) e Denali. As duas primeiras eram virgens até então.

Pelos amigos e conhecidos, Fred Beckey foi conhecido como um “Dirtbag” por excelência. O termo é uma gíria norte-americana, que designa uma pessoa que não possui trabalho, vive em estado de quase mendicância, mas que dedica todo o seu tempo à escalada. O próprio montanhista tinha uma definição própria sobre o termo “dirtbag”:

Dirtbag é uma pessoa que abandona toda norma social para dedicar sua vida a escalar as montanhas, e em algumas ocasiões, converter-se em lenda.

Viver de acordo com seus ideais, arriscando o tão falado “futuro seguro”, indo contra as normas estabelecidas pela civilização, negando o que a sociedade considera como “normal” ou “correto”, era o lema de Fred Backey. Sempre com determinação, nunca por capricho ou impulso, nem mesmo irreverência, mas porque sua verdadeira paixão que o comandava, era o sentido da vida do montanhista.

Fred Beckey nunca aceitou patrocínios, nem tampouco sair em comerciais, rechaçando a vida pública, nunca se interessou pela fama e reconhecimento. Em sua homenagem, uma montanha na cadeia montanhosa do Alasca foi batizada de Mount Beckey.

Beckey escreveu uma vez que a escalada deu a ele uma sensação única de controle sobre seu destino. “A exaltação que se pode obter na presença de montanhas pode ser uma lição memorável de humildade e uma ajuda para a auto-realização”, escreveu Beckey. “Fred era um verdadeiro ícone americano. Seu legado é profundo e inspirou inúmeras pessoas a explorar esse planeta incrível”, disse Dave O’Leske, que dirigiu o documentário “Dirtbag: A Lenda de Fred Beckey” e passou a última década filmando Beckey.

Mesmo em seus 90 anos, Beckey ainda estava planejando viagens e escalando – embora mais devagar e com a ajuda de uma equipe protetora. O montanhista faleceu em 30 de outubro de 2017 aos 94 anos de insuficiência cardíaca congestiva e, segundo ele mesmo descreve, sequer fez tudo o que tinha vontade.

Pela importância para o esporte, o falecimento de Beckey foi noticiado nos principais jornais de seu país como o Los Angeles Times, The New York Times, Seattle Times, além de veículos relevantes como as revistas Snews (EUA), Climbing (EUA), Grimpped (Canadá), Alpinist (EUA), UK Climbing (Inglaterra), Gear Junkie (EUA) e Revista Blog de Escalada (Brasil). Até mesmo o canal de esportes ESPN emitiu uma nota de pesar pela morte do monanhista.

O filme “Dirtbag – The Legend of Fred Beckey” será exibido na cidade de São Paulo no próximo 27 de setembro no cinema Cine Sala, Saiba mais aqui

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