Socorro em esportes de aventura – A descaso com atletas pela ausência de socorrista

Cada vez mais vemos no Brasil provas como Trail Run, Haka race, etc, acontecendo. Muito bacana a iniciativa de levar pessoas para fora de casa e do mundo virtual que hoje em dia é tão presente em nossas vidas (TV, computador, etc). Mas sempre me questiono de como essas provas são estruturadas, do ponto de vista logístico.
Sei que muitas vezes questões ambientais são deixadas de lado, e cuidados como trilhas bem delimitadas nas provas de trail run acabam ficando de lado. O resultado é que as pessoas acabam passando fora das trilhas, pisoteando a vegetação e erodindo o trecho em subidas ou descidas íngremes.

Outra questão que em algumas provas fica de lado é o socorro. Numa prova de downhill de mountain bike, organizada pela Confederação Brasileira de Mountain Bike (CBMTB), um amigo sofreu um acidente antes do início da prova. Ele desceu uma das trilhas e acabou caindo. O descaso foi enorme… Pelo que ele narrou, ninguém da organização foi ver como ele estava ou foi ajuda-lo a sair dali. Não teve um socorrista, maca, colar cervical, nada. Ele teve que ir caminhando do jeito que dava até uma estradinha onde chegava uma ambulância.

Nesta, também, não havia um socorrista, médico, nada. Só um motorista. Nem sabiam para qual hospital leva-lo. Não havia gelo para que ele colocasse na região machucada…

Foto : http://extremesportsonline.org/

Foto : http://extremesportsonline.org/

Qualquer pessoa que faz esporte de aventura sabe dos riscos intrínsecos da atividade e por isso mesmo toma os devidos cuidados. Numa “balada” pessoal, quem tem um mínimo de conhecimento leva um kit de primeiros socorros, com faixas, ataduras tipo band-aid, canivete, esparadrapo, algum remédio que esteja acostumado a usar como analgésicos, anti alérgicos, entre outras coisas. Aqueles que já passaram por um perrengue forte fazem um curso de primeiros socorros em áreas remotas, que indico fortemente a todos os amantes desse tipo de esporte.
Mas numa competição, isso não deveria ser obrigação dos organizadores ? Afinal, os participantes pagam inscrição, filiação (no caso desse amigo do mountain bike) que deveria ser usado para esse fim: logística da prova e que contempla socorro no caso de acidente.

Trabalho como guia de expedições e como instrutora de programas de educação experiencial com adolescentes. Fazemos travessias de até 4 dias com os estudantes. Em todas as viagens que faço a trabalho temos a ficha médica de cada participante e dos outros guias que vão participar, assim sabemos se alguém tem alguma alergia, por exemplo, e sabemos o que fazer no caso de algum problema. Fazemos rotas de evacuação, caso alguém tenha um problema e não consiga mais andar. Dessa forma, não precisamos caminhar até a saída da trilha (que as vezes está a alguns dias de distância) para ter socorro.

Foto : http://www.bikehub.co.za/

Foto : http://www.bikehub.co.za/

Todos os guias e instrutores têm curso de primeiros socorros em áreas remotas e sabemos como fazer uma maca com corda, improvisar um colar cervical, avaliar se houve uma lesão na coluna de um acidentado, imobilizar uma fratura, entre outras coisas. Fazemos um levantamento de todos os hospitais da região onde vai ser o trabalho e o que cada hospital tem de estrutura. Temos telefone satelital para regiões onde sabemos que não conseguimos sinal de celular e sempre temos uma pessoa que fica na cidade e que podemos acionar em caso de emergência.

Numa competição de downhill desse calibre, como do CBMTB, o mínimo era ter um socorrista. Este, com certeza, saberia o que fazer em um caso de acidente como o que ocorreu. Fazer uma logística de evacuação, ter pessoal capacitado para ajudar um acidentado (que poderiam auxiliar um socorrista) também faz parte de uma boa prova. Com certeza já existe um padrão em outros países onde esse tipo de atividade acontece a mais tempo. Por que não usar essas informações como base para as provas que acontecem aqui ?

Foto : http://www.bikehub.co.za/

Foto : http://www.bikehub.co.za/

A camaradagem faz parte das atividades de risco, sabemos que podemos contar com os parceiros assim como eles sabem que podem contar conosco. Espero que esse tipo de atitude venha a ser presente também nas competições, para que os atletas sejam tratados com mais respeito e atenção.

Abraços a todos !

Sobre o Autor

Lisete Florenzano

Lisete Florenzano

Lisete Florenzano é escaladora a mais de 10 anos, e uma das brasileiras de maior destaque na prática de alta montanha

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