O conceito de escalada livre e seus detalhes que fazem grande diferença

Frequentemente é visto por veículos que não tem familiaridade com a escalada confundir escalada livre com escalada em solo.

Ambas as modalidades são extremamente diferentes mas, por algum motivo, quem não tem familiaridade com o esporte e, consequentemente, sua história acaba cometendo erros grosseiros.

Para identificar quem não tem intimidade nenhuma com o esporte e deseja vender a falsa imagem de “entendido”, basta verificar que usa o conceito de escalada livre (Do inglês “free climbing”) para descrever a escalada em solo (do inglês “free solo”).

Este é o erro típico de quem usa o Google translator para traduzir o termo, às vezes por não ter intimidade nenhuma ou também ter de conhecimento nulo a respeito do tema. Quem confunde os dois termos presta um desserviço à sociedade como um todo, pois propaga conceitos errados vendidos como se fossem certos e o nome disso é mentira.

Antes de explicar o que é cada um é necessário explicar, historicamente falando, como era praticada a escalada até meados do século XX. Até esta época a escalada era praticada utilizando muitos poucos conceitos de ética.

O que interessava prioritariamente era chegar ao cume. A filosofia de Maquiavel de que “os fins justificam os meios” era usada sem o menor pudor pelos escaladores. Importante lembrar que este tipo de postura não quer dizer que tinham falha de caráter ou algo assim. O que acontecia era que o esporte conhecia este tipo de ética e esta era a cultura da época. Com o passar dos anos a cultura da escalada em rocha foi amadurecendo e chegou aos conjunto de termos técnicos, nomenclaturas, técnicas e estilos que temos hoje. Confundir os dois termos é o equivalente a alguém escrever que futebol e futebol americano são parecidos ou, demonstrando conhecimento raso, que Argentina e Brasil é a mesma coisa.

Apenas tratando de escalada em rocha (ou seja, não abrangendo alpinismo e alta montanha) existem dois estilos: escalada artificial e escalada livre. A partir destes dois estilos foram criadas as modalidades, que é ou outro assunto. 

Escalada Artificial

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A escalada artificial é um tipo de escalada na qual se utilizam algumas proteções artificiais (ganchos, degraus, fitas) para a progressão do escalador. Utilizando uma linguagem menos técnica é dizer que o escalador pode agarrar nas fitas, pitons, pregos e outro tipo de equipamento que não seja a rocha propriamente dita. Para esta progressão são utilizados equipamentos de segurança típicos deste estilo: Pitons, Cooperhead, cliff, etc.

Originalmente, falando-se de escalada esportiva, muitas vias foram abertas mediante o uso da escalada artificial(a famosa abertura “de baixo para cima”). Alguns locais de escalada tradicional, como a Pedra do Baú por exemplo, ficou convencionado com a comunidade local de escaladores que as vias aí somente seriam abertas de “baixo para cima” e nunca “de cima para baixo” (utilizando rapel). Este tipo de escolha quem estabelece são só escaladores locais de cada localidade e mesmo que alguém não concorde, nada o autoriza a quebrar estas regras. Como não há uma lei formal (homologada pela justiça e etc) pode ser que o responsável por quebrar a ética local tenha de responder à própria comunidade de escalada. Os escaladores que fizeram isso na Argentina foram banidos do local e considerados persona non grata.

Engana-se quem acredite que a escalada artificial é algo fácil e de quem não está preparado para o esporte. Alguns lugares possuem parede extremamente lisa e somente é escalável neste estilo. A própria “Dawn Wall”, que foi escalada em estilo livre recentemente, era escalada em artificial. Alguns tetos também são escaláveis somente neste estilo.

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A graduação das dificuldades da escalda artificial é também diferente da escalada livre. Ela se baseia muito mais na exposição do que propriamente na dificuldade da via. Desse modo é imprescindível ter serenidade e controle mental muito alto. Por não ser um estilo de escalada praticado largamente, se comparado à escalada em livre, algumas proteções são precárias ou somente aguentam o peso próprio do escalador. Potencialmente as quedas são muito maiores, e consequentemente perigosas.

Todo praticante de escalada deve, impreterivelmente, fazer um curso. Tratando-se de escalada artificial a realização de um curso é mais que obrigatório. Por ser um tema delicado, e que poucos escaladores praticam, é um conteúdo não dominado por professores. Por isso é recomendavel que, ao procurar um curso de escalada artificial, verificar quais lugares o instrutor já foi praticar o estilo além, é claro, da experiência que possui.

Escalada Livre

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A partir da década de 1960, mas com mais força na década de 1970, nasceu um movimento cultural dentro da escalada que pretendia “livrar” a prática de uso de equipamentos de segurança. No conceito desta filosofia de prática era de que o escalador deveria utilizar somente a força de seus dedos, com uma movimentação e posicionamento corporal, como se estivesse flutuando sobre a rocha. O nome deste estilo foi batizado de “free climbing”, ou escalada livre em português. O escalador, entretanto, continuaria a utilizar cordas e costuras para a sua segurança.

O conceito básico da escalada livre era que o escalador tivesse um preparo físico mais atlético e utilizando somente a superfície da rocha e evitar o uso de pontos de apoio artificiais. A consequência deste estilo foi a “proclamação” da independência do escalador de vários equipamentos de segurança que são considerados indispensáveis na escalada artificial. Como era uma quebra de paradigma para os praticantes do esporte à época o termo “libertar” vinha a ser uma espécie de ato de rebeldia dos novos praticantes ao velhos praticantes.

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Por isso a escalada livre nada mais é que uma releitura filosófica e ética da escalada em rocha. Mas que fique claro: na escalada em livre o praticante não abdica do uso da corda e de equipamentos de segurança.

A partir do conceito de escalada livre houve evoluções e ramificações do estilo como indoor (praticada somente em ginásios), esportiva (praticada em vias com altura abaixo de 30 metros) e tradicional (escalada livre, mas praticada em vias acima de 30 metros e que necessita várias cordadas).

Mas e a escalada solo?

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Como acontece com toda e qualquer teoria filosófica a respeito de qualquer tema, o conceito de escalada livre foi levado ao extremo por alguns praticantes. Pois já que a ideia inicial era livrar-se dos equipamentos de escalada, porque não utilizar nenhum? A prática de escalada em boulder já era difundida, mas era vista em seu início como um recurso de treinamento e não um estilo propriamente dito. Assim alguns resolveram fazer a prática de escalada livre sem o uso de nenhum equipamento. Este tipo de estilo, que pode gerar óbito, chama-se escalada solo (free solo em inglês). Este estilo, por ser muito perigoso, é praticado por uma parcela ínfima de escaladores no mundo inteiro.

O escalador mais famoso por praticar este estilo (e não morrer) é Alex Honnold, que já solou (escalou em estilo solo) o El Capitan em Yosemite e Potrero Chico no México. Outro escalador americano, Dean Potter, também ficou conhecido por adotar o estilo em várias ocasiões.

Conclusão

Após a elucidação dos conceitos acima fica evidente (pelo menos para quem escala) que escalada livre (não utilizar recursos artificiais) e escalada solo (não utilizar nenhum equipamento) são duas coisas totalmente distintas.

Fosse a mesma coisa as notificas a respeito de mortes na escalada ocasionada por quedas seriam muito mais frequentes do que são.

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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