História e dicas do Psicobloc

Foto : Arquivo Pessoal Felipe Dallorto

Foto : Arquivo Pessoal Felipe Dallorto

O “Deep Water Soloing”, também conhecido como Psicobloc, é uma modalidade da escalada praticada em falésias a beira mar, rio ou lago, onde o escalador usa a água como forma de proteção em caso de queda.

Nesta modalidade não usamos cordas ou proteções fixas apenas sapatilhas e magnésio.

Embora a modalidade seja visto como um estilo relativamente novo de escalada, ela provavelmente se originou na década de 1960 na ilha de Maiorca na Espanha.

Na época escaladores boulderistas começaram como brincadeira de verão e os mesmos não subiam mais de 5 metros e depois se jogavam na água.

A modalidade só tomou forma nos anos 70, quando o escalador espanhol Miquel Rieira, realmente traçou um objetivo de chegar ao topo da falésia que possuía 20 metros de altura e foi daí que surgiu o nome “Psicobloc” batizado pelo próprio Miquel.

A palavra “PSICO” significa Psicológico, pois você escala muitos metros sem qualquer tipo de segurança e a palavra “BLOC” de Bloco ou falésia.

A modalidade virou febre na Europa e países como Grécia, Itália, Irlanda e Inglaterra, adotaram o estilo de escalada de Maiorca.

Foto : Arquivo Pessoal Felipe Dallorto

Foto : Arquivo Pessoal Felipe Dallorto

No Brasil, há indícios que a modalidade começou parecido com Maiorca, muitos escaladores da década de 80 e 90, já frequentavam points de escalada que hoje são clássicos, como cânions de Furnas e serra do Cipó em Minas Gerais e na pedra do Urubu / Urca no Rio de Janeiro e após as escaladas, os mesmos se refrescavam e brincavam nas cachoeiras, rios e mares destes lugares.

Mas assim como no princípio da modalidade em Maiorca, os escaladores brasileiros desta época, faziam apenas uma brincadeira. Somente após a exibição do filme Psicobloc de Klem Loskot, o Brasil passou a conhecer a modalidade e suas regras.

ÉTICA DA MODALIDADE E DICAS PARA ESCALADORES EXPERIÊNTES.

Após seis anos estudando e praticando psicobloc vi e vivenciei a beleza dessa modalidade.

Nela os projetos são trabalhados da maneira mais pura possível.

Não se pode rapelar para ver a linha da via, muito menos fazer top rope.

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Foto : Arquivo Pessoal Felipe Dallorto

Cada queda no crux significa repetir tudo de novo para tentar novamente; e cada vez que se vence um crux, o restante é novidade, pois é uma escalada á vista.

Para ser realmente psicobloc, devemos subir no mínimo 10 metros de altura, onde afeta o psicológico do escalador, abaixo disso, é apenas um boulder com colchão de água e arriscar um movimento requer mais que coragem, não basta livrar-se do medo da queda como acontece nas falésias, devemos sim nos livrar deste medo, mas também, principalmente, dominar o corpo para o posicionamento adequado no caso de uma queda na água.

A leveza da inexistência de equipamento e a não necessidade de costurar também nos permite uma conexão maior com a escalada em si. É um prazer de poder solar, cair e se levantar de novo.

Foto : Arquivo Pessoal Felipe Dallorto

Foto : Arquivo Pessoal Felipe Dallorto

Aqueles que tiverem a oportunidade de conhecer o psicobloc recomendam começar devagar, estudando seus limites e respeitando a ética da modalidade. Sempre verifique o fundo antes de entrar e observe as condições da maré se está baixa ou alta, pois faz diferença na hora da queda.

DICAS PARA OS INCIANTES

Para aqueles que estão começando na escalada e queiram experimentar a modalidade existe uma maneira de provar o psicobloc sem afetar o psicológico, escalando de lado na horizontal e não para cima, uma maneira mais segura e divertida no qual esta variante do Psicobloc se chama “Aquabloc”

Mesmo praticando o Aquabloc, devemos tomar alguns cuidados;

  1. Tenha certeza que você sabe nadar e bem;
  2. Sempre verifique o fundo e a condição do mar;
  3. Nunca pratique sozinho;
  4. Ao cair, feche braços e pernas como se fosse uma agulha para perfurar a água sem impacto;
  5. Em caso de queda na maré baixa, devemos cair encolhendo as pernas para não tocar o fundo;
  6. Caso caia de mau jeito ou torto devemos ficar em posição fetal para minimizar o impacto na água, não tente se consertar durante a queda, pois além de ser impossível, você pode se machucar no impacto com a água;
  7. Caso tenha medo ao cair na água, peça um amigo para ajudar dentro d’água ficando atento caso você caia de mal jeito, esta maneira ameniza o medo.

Equipamentos

Foto : Arquivo Pessoal Felipe Dallorto

Foto : Arquivo Pessoal Felipe Dallorto

A maioria dos escaladores me pergunta sobre o saco de magnésio em caso de queda se não molha e desperdiça o magnésio.

A alguns anos na Europa escaladores fanáticos por psicobloc desenvolveram um saco de magnésio impermeável e de secagem rápida, permitindo que o saquinho seque em segundos.

O magnésio em pó não tem jeito, ao cair ele vai se espalhar na água, o que fazemos é colocar uma quantidade mínima de magnésio para cada via ou tentativa, desta maneira o desperdício é muito pouco.

Alguns escaladores preferem o magnésio líquido, mas fica muito pouco tempo nas mãos, particularmente não gosto muito de usar somente o magnésio líquido, gosto de usar antes de entrar na via, pois o magnésio líquido contém álcool e tira toda a gordura das mãos.

Sobre a sapatilha ao molhar, não se preocupe, o que usamos na escalada é o solado de borracha e ele seca em segundos também, mas o tecido fica molhado, mesmo assim não atrapalha.

Acredito que o psicobloc, tanto no mundo, como no Brasil, ainda vai se desenvolver muito mais.

No nosso país temos milhares de quilômetros de costas e rios esperando serem explorados e meu sonho é desbravar cada centímetro.

Bons voos!

Sobre o Autor

Felipe Dallorto

Felipe Dallorto

O carioca Felipe Dallorto é escalador completo, se dedica a todas as modalidades de escalada desde boulder a big wall. Começou a escalar em 1999, aprendeu e aprimorou sua técnica no maior centro de escalada de aventura do País na região dos “Três Picos de Salinas”, RJ. Sua formação na escalada foi com um dos maiores e importantes escaladores do Brasil, Sérgio Tartari. Felipe dedicou 14 dos seus 30 anos ao montanhismo.

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