[EXCLUSIVO] Entrevista com Lisete Florenzano

trek campo base everestQuem observa ao longe Lisete Florenzano vê uma loirinha de estatura mediana e magrinha e seguramente não sabe da força mental e física que possui.

Florenzano é uma das poucas montanhistas do Brasil a perseguir com paixão e fúria os principais picos de alta montanha do planeta.

Lisete , entretanto, adota um estilo mais discreto e evita badalações sobre seus feitos.

Neste ano de 2013, Lisete Florenzano estará perseguindo sua primeira montanha acima de 8000 metros, o “Cho Oyu” , que é a sexta montanha mais alta do mundo com 8.201 m acima do nível do mar.

Uma montanha de respeito e que seguramente não haverá escadas para ajudar.cho oyu-climb

O Blog de Escalada procurou Lisete para um conversa em que a escaladora e montanhista desfilou simpatia e personalidade em suas respostas

Lisete, porque você escolheu praticar escalada em Alta Montanha?

Para mim foi uma sucessão de passos.

Comecei escalando em rocha, em 97.

Depois, em 98, tive oportunidade de passar 3 meses no Nepal onde fiz 2 trekkings nas regiões do Annapurna e Everest, e adorei!

Fiquei com aquela vontade de fazer montanha, mas isso acabou acontecendo bem mais tarde.

ataque cume Mt BlancQuando experimentei, gostei logo de cara…

E daí é aquela história, da vontade de fazer mais.

Às vezes nem precisa ser algo difícil ou diferente…

O fato de estar na montanha já me deixa feliz.

Escolhi escalar alta montanha porque adorei essa atividade…

Gosto dos lugares, acho lindíssimos.

Gosto do desafio, da rotina na montanha, de estar com pessoas que curtem o mesmo que eu…

Gosto até da aclimatação! Rsrsrsrsrs…

Se fosse para você aconselhar alguém que se interessa pela modalidade qual conselho daria?

cume Khuiten Mongolia 2Aconselho a ir com alguém experiente, nas primeiras vezes que for até ter vivência suficiente para ir sozinho ou com amigos.

Montanha é um lugar onde, se as coisas dão erradas, é complicadíssimo conseguir resgate, ajuda.

Assim como em outros esportes outdoor, é bom fazer um curso e ir nas primeiras vezes com um guia.

Depois que amadurecer no esporte, aí sim da para encarar algumas coisas sem um guia.

A popularização de escaladas em locais conhecidos como o Everest cresceu muito nos últimos anos. Qual a sua opinião sobre o assunto?

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO que se questiona muito é o número de pessoas que vão escalar, principalmente o Everest e outras montanhas dos “7 Cumes” (como Aconcágua, por exemplo).

Para mim, a grande questão não é ter empresas que vendem as expedições (que são super criticadas, de modo geral) nem os governos que emitem os “permits” (ou o preço deles).

O que é questionável é a razão das pessoas irem para a montanha.

Se alguém vai apenas para poder dizer ao vizinho que escalou o Everest, realmente não faz sentido algum e mostra que essa pessoa só escalou para satisfazer o ego.

Muitas vezes essas pessoas nem gostam de montanhismo, vão realmente por egocentrismo. cume Kilimanjaro 1

E isso eu realmente não acho legal, fica sendo uma escalada um tanto vazia de significado.

Principalmente a escalada, por ser uma atividade de risco, tem sentido quando se faz por amor.

Você está lá pois ama estar lá, fazendo exatamente o que está fazendo.

E não para aparecer no jornal.

PatagoniaAs empresas existem, pois existe demanda… não adianta taparmos os olhos, vivemos num mundo capitalista.

Se existe alguém querendo comprar, vai aparecer alguém vendendo.

Essas empresas, de modo geral são sérias e assumem uma responsabilidade altíssima sobre a vida de seus clientes e guias, tanto locais quanto estrangeiros.

Sim, muita gente vai hoje em dia por ter a estrutura de uma empresa fazendo tudo, mas acho que isso seria inevitável de acontecer.

Mais uma vez, o que se deve questionar é o ser humano, a pessoa que vai apenas para satisfazer seu ego, e não a empresa que está lá prestando um serviço.

Quanto aos países que emitem esses “permits”, eles estão em seu direito de fazer isso.

Às vezes ouço críticas, por exemplo, sobre o governo nepalês por não limitarem o número de escaladores.

Mas não podemos nos esquecer que o Nepal é o 14º país mais pobre do mundo, e uma das poucas entradas de renda nesse país são permits e turismo.

Assim, fica difícil numa realidade dessas argumentar algo como limitar o número de permits.

Se fosse em um país rico, talvez isso pudesse ser feito.

Você está se preparando para o Cho Oyu. Como está sendo a sua preparação?

cho oyu-vista escaladoresNuma escalada é claro que conta muito o preparo físico, mas o emocional também é algo que faz a diferença.

Como disse um amigo, depois dos 7.000m a cabeça manda mais que as pernas… rs.

Minha rotina de treinos envolve yoga praticamente todos os dias, academia 2 vezes por semana, onde faço musculação específica para a escalada (apenas exercícios funcionais, usando bola), caminho em esteira inclinada e com mochila pesada e elíptico.

lisete_florenzanoNos outros dois dias da semana pedalo, subo e desço escadas de prédio com a mesma mochila pesada, mais musculação, faço alongamentos.

No final de semana, faço alguma atividade outdoor.

Já para o lado emocional da escalada, o que me ajuda é ter passado praticamente os últimos dois anos e meio na montanha.

Essa vivência vai me dar o foco que preciso.

Caso alguém se interesse em acompanhar a sua aventura na montanha Cho Oyu como deve proceder?

Vou ativar meu blog pessoal e também postar notícias nos principais blogs de montanha.

Para esta aventura de entrar para o seleto grupo de mulheres que escalaram acima de 8000m você está contando com algum patrocínio ou apoio de alguma marca ou empresa?

Por enquanto não, mas estou atrás disso.

Na sua opinião, qual a maior dificuldade hoje que um atleta enfrenta de encontrar patrocínio, ou apoio para um projeto como o seu?

539595_509775329071446_1122039567_n[1]A maioria das empresas não vê o montanhismo como um esporte que possa dar algum retorno de mídia, como é o caso do futebol e outros mais populares aqui no Brasil.

Aliás, acho que a maioria dos empresários não tem vivência em atividade outdoor e não tem noção do quanto esse tipo de atividade (trekking, escalada em rocha, escalada em montanha, etc) pode ser importante na formação de CIDADÃOS.

Cidadãos esses que tenham mais respeito uns pelos outros, cooperação com o parceiro, acreditar em um objetivo e conquista-lo, respeito ao ambiente, etc…

Assim, na cabeça deles deve passar o seguinte: para quê vou dar dinheiro para esses malucos?

Sem perceber que é através do exemplo de pessoas que se destacam nessas atividades que pode-se começar a difundir esportes que têm a capacidade de mudar a vida das pessoas.

Das suas conquistas pessoais, quais você enumeraria como as mais significantes?

521626_241025362708951_233270245_n[1]Significado é uma coisa um tanto pessoal…

Às vezes, uma escalada onde não se chega ao cume é mais importante do que uma em que se fez cume.

Para mim, as duas vezes que fui ao Aconcágua foram assim.

Não fiz cume em nenhuma das duas, mas foram as mais significativas pois foi onde mais aprendi, tanto sobre montanha, como sobre pessoas, como sobre mim mesma.

Caso alguma marca, ou empresa, deseje patrocinar ou apoiar você nesta aventura como deve proceder?

Deve entrar em contato comigo pelo email:

[email protected]

 

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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