[EXCLUSIVO] Entrevista com Francisco Taranto Júnior

76588_420382988022192_1244883807_n[1]Muitos almejam ter o status de fotógrafo de escalada ou outdoor, porém somente querer não é poder.

Além de ter o talento necessário é preciso ter persistência, força de vontade e principalmente humildade.

Qualidades estas que o fluminense Francisco Taranto Júnior parece ter de sobra.

Taranto mora no sul da França, e mesmo sendo pai de dois filhos, trabalha profissionalmente como fotógrafo de escaladores.

Com seu talento reconhecido e valorizado por muitas publicações de respeito na Europa, procurei Francisco para uma entrevista a Blog de Escalada.grimper

Fomos prontamente recebidos por Francisco Taranto Junior, que se inspirou em muitas respostas e seguramente irá inspirar a todos que as ler.

Leia abaixo a entrevista exclusiva :

 Olá Taranto, você é reconhecidamente um fotógrafo outdoor. Como foi que conseguiu chegar a esta categoria?

DSC_4972 Olá Luciano e leitores do Blog da Escalada!

Meu contato com as montanhas começou em 1989, quando eu tinha 12 anos.

Eu acompanhei um grupo de amigos mais velhos, na caminhada da Pedra do Açu, no Parque Nacional da Serra dos Órgãos.

Depois foi a pedra do Sino também no PNSO e por ai em diante.

Aos 18 anos eu comecei a me interessar pela escalada, fiz um curso básico e me afiliei ao CEC (Clube Excursionista Carioca).ceuse-1

 A fotografia sempre esteve presente durante estas caminhadas e viagens.

O meu desejo começou a se manifestar mesmo aos 15 anos, quando eu ganhei uma câmera fotográfica ZENIT 12XP com uma lente 58 mm.

Nossa! Ter ganho esse brinquedo foi o máximo! 

A coisa evoluiu e procurei um curso básico de fotografia aos 19. 

IMG_0053Durante este curso eu percebi que a fotografia iria tomar um espaço enorme em minha vida.

A vontade de me tornar fotógrafo era tanta que eu saí ligando para todos os jornais da cidade.

Arranjei um estágio como repórter fotográfico no jornal O Fluminense, em Niterói.

Depois de dois meses trabalhando como estagiário, eu recebi uma proposta do meu editor para integrar a equipe de profissionais. IMG_0654

Essa foi minha grande escola, durante cinco anos, seis dias por semana, entre 8 e 12 horas por dia.

Nessa época não existia ainda a fotografia digital! Trabalhava em película negativa de 35mm. 

Era incrível!

red_river_gorges-1Eu me sinto uma pessoa de sorte de ter vivido essa mudança, não só no ramo da fotografia. 

Na primeira vez que pisei na redação do jornal ouvi o barulho das máquinas de escrever.

Lembrança inesquecível!

 Meu primeiro contato com a fotografia de escalada aconteceu em 2002, quando meu grande amigo e escalador Daniel Bonnella me convidou para fazer parte de sua equipe, a fim de repetir a via Franco-brasileira na Pedra do Sino. topo

A escalda foi um sucesso, e depois de ter passado seis dias na parede, eu voltei para casa com uma sensação indescritível.

Quando a gente passa vários dias pendurados numa parede, ainda mais pela primeira vez, a reintegração à vida normal é difícil.

Mas eu vivi uma sensação incrível e percebi que, daquele momento em diante, eu ia precisar daquela sensação para continuar vivendo.

Voltar para a vida normal seria uma tortura. 

No mês seguinte eu pedi demissão do jornal O Fluminense para fazer aquilo que sonhava, joguei tudo para o alto e fui viver as incertezas de uma paixão.

Fui tentar a sorte numa atividade em que mal conhecia.

602438_501745526572217_182346297_n[1] Foram dois anos escalando, surfando e fotografando.

Tempo suficiente para minha reserva financeira desaparecer. Estava cansado…

A realidade e as perspectivas não eram animadoras. Cansado do Brasil, queria viajar, conhecer outros lugares no mundo, daí surgiu uma oportunidade de vir para França.

 Em Paris, cidade onde passei dois anos (onde nasceu minha primeira filha Maria Rosa), eu tive meu segundo choque cultural, depois da Bolívia e do Peru, e também uma inversão de valores. 943204_10151667039931350_115080586_n[1]

Enfim, ainda estava muito longe de meus ideais e daquela sensação mágica que me fez tomar algumas decisões.

Foram dois anos de muita tortura mental.

Eu percebi que para viver o meu sonho eu tinha que acordar e me entregar de corpo e alma.

 Comecei a enxergar uma luz.

Deixei Paris para trás e parti para uma viagem de bicicleta com meu cachorro, o Fellipo.

Esta viagem durou seis meses e terminou na cidade de Grenoble, onde eu conheci a Sandra, uma jovem francesa com quem hoje formo uma família (o primeiro fruto dessa união foi a Anna que hoje esta com três anos). 

Quando a Anna nasceu eu assumi as responsabilidades domésticas por um ano – tempo que a Sandra precisava para terminar seus estudos.

 971234_496509773762459_1763489331_n[1]Em 2011 Sandra e eu resolvemos formar uma equipe.

Sandra já estava grávida do Tomas, que hoje esta com 1 ano e nove meses.

A partir desse momento a dedicação era 100% ao nosso objetivo, começamos a entrar em contato com os melhores escaladores franceses para conseguir um projeto. 

E foi assim que, por acaso, eu conheci o escalador Enzo Oddo, duas semanas antes da sua segunda mais importante realização, a via “Aubade direct” um 9a+ na falésia da Sainte Victoire no sul da França. Eu tive o privilégio de ser convidado pelo seu pai para documentar essa realização.

E aí  começa nossa historia.

 Uma relação de amizade foi se construindo e os projetos foram fluindo. A partir desse momento eu o acompanhei em tudo, viajamos juntos para a Espanha, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Romênia e também várias outras viagens pela França.

Todas estas viagens me deram a chance de conhecer outros escaladores de renome mundial, que me permitiu de realizar outros projetos. Com tudo isso meu trabalho foi evoluindo, a qualidade técnica também. 

A cada novo projeto eu aprendo a me posicionar, a instalar as cordas de uma forma diferente, a encontrar novos e melhores ângulos. A fotografia de escalada é complicada, pois somos limitados a certos ângulos, uma vez instalado numa posição é complicado de mudar.

Ainda estou construindo minha história dentro do mundo da fotografia de escalada, estou bem no início, tenho muito para aprender e muitos objetivos. 

 Como diz aquela música do Rappa, “Lei da sobrevivência”, eu não quero ficar aqui parado esperando o tempo passar.

Hoje eu me considero um fotógrafo que está se especializando em fotos de escalada. O caminho é longo, pelo menos o meu esta sendo, mais ainda bem!

O que quero dizer é que acredito que ainda vou ter muito tempo de vida e que também estou aproveitando o meu momento presente.

O mais importante é o caminho a ser percorrido.

 Na área de fotografia há dois times grupos distintos : Nike e Canon. Você e de qual time, e porque?

Sou do time da Canon.

Acho que foi por influência dos colegas que trabalhavam comigo no jornal O Fluminense, na época que encomendei minha primeira câmera.

Uma vez Canon sempre Canon.

O que é necessário para um fotógrafo se especializar em fotos de esportes outdoor?

 A coisa mais importante é ser um apaixonado. Conhecer sobre aquilo que você quer fotografar. 

Cada um constrói sua história de uma forma bem pessoal, acho que temos que ter personalidade e determinação naquilo que fazemos.

Na fotografia de escalada, que é o que eu faço hoje, sinto a necessidade de viajar, de descobrir novos lugares e de estar em companhia dos melhores escaladores.

 Não me considero um fotógrafo talentoso, acredito que faço aquilo que gosto, e por isso tento fazer bem feito.

Mas nem sempre consigo, fotografo muito, pesquiso sempre que posso, estou sempre aprendendo e assim vou evoluindo.

 Você está organizando uma excursão pelo Brasil, como surgiu esta idéia?

 A ideia surgiu em parceria com o Enzo Oddo.

Eu sempre conversei com ele sobre o Brasil e ele sempre se mostrou entusiasmado em conhecer. 

Quais foram os critérios escolhidos para os locais a visitar no Brasil?

 Nenhum, a ideia é fazer uma viagem, nos divertir. 943434_490843657662404_29469880_n[1]

Temos algumas coisas programadas, mas estamos abertos para os grandes encontros e também para as surpresas.

Estamos sempre à procura de belas falésias com uma boa rocha e com uma variedade de vias.

 Das pessoas que irão fazer parte desta excursão, qual está sendo a expectativa deles?

 O Enzo Oddo e o Gabriel Moroni.

Acredito que conhecer o Brasil.

 Como o Brasil é visualizado pelas pessoas na Europa com relação à prática de esportes de aventura como Escalada, Trekking e assim por diante?

249186_491587980921305_695155703_n[1]  Os europeus conhecem pouco sobre o Brasil.

Não dá para ter uma opinião formada sobre algo que você conhece pouco.

 A escalada esteve próxima de ser esporte olímpico, como você visualizou esta possibilidade?

 Este é um assunto que está sendo debatido no mundo inteiro.

Na verdade eu não me interesso pela escalada de competição.

Eu vejo a escalada como um esporte outdoor. 602438_501745526572217_182346297_n[1]

Mais é claro que, se a escalada de competição se tornar um esporte olímpico, a prática outdoor sofrerá consequências – tanto positivas quanto negativas.

Enfim, o assunto é delicado e tem muitos detalhes para debater.

 Caso alguém queira acompanhar, ou até mesmo contratar seu trabalho fotográfico como deve proceder?

 Temos um site: http://www.fotovertical.org, um blog de news: http://www.news.fotovertical.org, nosso canal vimeo : vimeo.com/channels/fotoverticalescalade.

970858_493789764034460_1316579303_n[1]Também estamos no Facebook.

Não deixem de curtir nossa página: https://www.facebook.com/pages/Foto-Vertical-Francisco-Taranto-Jr/109095782503862?ref=hl

Qual seria a sua mensagem para quem tem vontade a se dedicar a fotos de esportes de natureza?

 Viaje bastante, fotografe muito e nunca desista de seus sonhos.

Gostaria também de fazer um agradecimento especial ao Leandro Chen, dono da loja Le Lechen.

Ele foi um grande parceiro no início de minha trajetória como fotógrafo de escalada.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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