Entrevista com Dimitri Wou Pereira

Considerado por muitos como o maior difusor da escalada esportiva nas escolas na cidade de São Paulo, Dimitri Wou Pereira já trouxe para a escalada talentos como Cesinha, Rafinha e Felipinho Ho para citar apenas os mais conhecidos.

Apresentou a escalada a uma multidão de pessoas mais que não caberia aqui a lista.

Dimitri faz para a escalada algo fundamental: difusão do esporte e apresentação a todas as crianças em escolas.

Para saber mais desta verdadeira lenda da escalada paulista, a Revista Blog de Escalada procurou Wou Dimitri Wou Pereira para uma conversa franca, que resultou em uma das melhores entrevistas realizadas até hoje.

Confira a entrevista abaixo

Dimitri, você é considerado um dos grandes descobridores de talentos para a escalada do Brasil. Como é isso para você?

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Foto: Acervo Pessoal Dimitri Wou

Na verdade oportunizei alguns jovens a começar a escalar, alguns que começaram comigo foram Cesar Grosso, Gabriel Barbosa, João Marcelo Maschião, Rafael Takahace, Felipe Ho Faganello, entre outros.

Eram bem pequenos quando escalaram a primeira vez nas escolas em que eu trabalhava.

Mas acho que isso é muito pouco, gostaria de ter feito mais.

Fico feliz por eles, porque acabaram mudando um pouco o foco de suas vidas e acredito que são felizes com as experiências que viveram.

Acredito que nos cerca de 15 anos que atuei nas escolas foram algumas centenas de crianças e adolescentes que aprenderam um pouco sobre escalada, todavia queria que fossem milhares.

A escalada de competições tem definhado nos últimos tempos no Brasil, e em especial em São Paulo. Quais motivos você creditaria esta retração?

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Foto: Dimitri Wou
Atleta: Cesar Grosso

Não é fácil organizar o esporte no país, isto em qualquer modalidade, o apoio é pouco, quando o governo faz sua parte é em geral voltado ao futebol ou a modalidades olímpicas, ficando a escalada sem verba.

Isso é um aspecto, mas não o único.

Acredito que o formato da competição de escalada é pouco atrativo para a divulgação da modalidade.

Competições de dificuldade demoram muito, e apesar de serem as que os atletas mais gostam não conseguem mídia e patrocínio.

Por outro lado, há falta de estrutura dos ginásios e academias para as competições e poucos lugares de treinamento, dificultando a prática competitiva no país.

São muitas variáveis que podem ser analisadas, vejo muito boa intenção dos organizadores, mas não vejo muita perspectiva de melhora, e fico preocupado com soluções mágicas, que por ventura surjam por parte do governo, pois sempre vejo no esporte políticos se aproveitando das modalidades para desviar dinheiro com competições.

Até prefiro ver menos competição do que saber que estão usando a escalada e escaladores honestos para roubar dinheiro

Na sua opinião quais seriam as principais ações que deveriam ser realizadas para “ressuscitar” a escalada de competição no Brasil?

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Foto: Dimitri Wuo Pereira

Festivais de boulder atraem muita gente e são mais democráticos na participação, em geral as pessoas gostam muito de praticar e incentivam os iniciantes.

Eles podem ser feitos em diversos locais, com muros móveis.

Atraem o público leigo, são mais rápidos e divertidos, misturam a com petição com o prazer de escalar com os amigos, acredito que investir nisso é uma boa.

Claro que qualquer tentativa de incentivo de competições de escalada no Brasil deve passar também pelos proprietários de ginásios, muros e associações que tem espaço físico para isso como Clubes de Montanhismo, mas essas pessoas que lideram essas associações e os proprietários devem ter interesse nessa questão.

O problema é o investimento necessário dessas pessoas em tempo e dinheiro para organizar as provas e sem retorno financeiro nenhum após o evento, apenas divulgação.

Assim entendo os proprietários que pararam de organizar competições.

Uma opção também é incentivar a prática nas escolas e os eventos para os jovens das escolas, em todo o mundo a escola é o lugar de se conhecer o esporte e com a escalada pode ser assim.

A cidade de São Paulo teve uma brusca retração em academias de escalada, enquanto quase que no Brasil inteiro cresceu. Quais seriam os motivos na sua opinião para este quadro?

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Foto: Dimitri Wuo Pereira
Alteta: Rafael Takahace

Os motivos talvez tenham sido que há muita paixão de quem monta, ou montou ginásio, e nem sempre um pensamento de negócio de longo prazo, verificando os potenciais da escalada como atividade física e não apenas como uma atividade em si.

Mas vejo um aspecto positivo: Há espaço para abrir um ginásio de escalada em SP hoje, basta querer investir e o retorno pode ser muito bom.

Há mais praticantes hoje do que há 10 ou 15 anos atrás. Mas dimensionar o tamanho do negócio, conhecer o público da escalada, saber prospectar novos clientes qua ainda não são escaladores e transformá-los em escaladores, buscar as crianças e adolescentes para o ginásio ter vida longa e escolher o local com cuidado são formas de ter um bom negócio e m escalada hoje em SP. 

Fico feliz em saber que os ginásios se espalharam pelo restante do país, isso é muito bom, mas em SP com 15 milhões de habitantes ainda é o melhor lugar para montar um ginásio, pois não há rochas na região diferente do Rio de Janeiro ou Belo Horizonte por exemplo que é fácil ir às montanhas.

Observo que é preciso saber montar um ginásio com qualidade nas vias, segurança nos procedimentos e eficiência na aprendizagem das técnicas para que seja um sucesso

Você como lapidador de talentos, como enxerga as constante reclamações de mau comportamento de escaladores em locais de escalada?

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Foto: Dimitri Wuo Pereira
Alteta: Guilherme

O trabalho que fazia nas escolas é um trabalho de longo prazo, em geral os jovens demoram um ano ou mais para ir a primeira vez a rocha, e na escola, se trabalham questões de segurança, respeito, cooperação, preservação ambiental, e ou traz atitudes necessárias ao convívio com o montanha.

Mas quem começa nos ginásios, e é adulto pode rapidamente seguir para rocha sem que tenha aprendido como se comportar nesse ambiente natural e social com respeito.

A falta de cidadania é tão comum entre as pessoas que é levada para a rocha quase sem querer.

A educação é a base das relações sociais, no trabalho escolar isso é praxe, mas não é obrigação de um ginásio fazer isso.

Vejo também que os clubes de montanhismo fazem um bom trabalho para educar para a convivência, mas muita gente aprende a escalar das formas mais diversas, com amigos, cursos e até na internet a pessoa pode ver como se da segurança e sair escalando, como se isso fosse suficiente, isso é um problema.

Mas vamos lembrar que não há regra que impeça o ser humano de ter falta de ética, é só ver o recente caso de estrangeiros que desrespeitaram as vias em nosso país. 

Em tese deveriam ser mais respeitosos porque foi na terra d eles que o esporte surgiu, porém eles não mostraram que aprenderam o básico sobre isso, e ainda usam o Brasil, um país menos desenvolvido para impor teses pessoais, um absurdo que aponta não apenas para a pouca cultura como causadora de problemas, mas para o desrespeito a nossa cultura.

Os encontros de escaladores são importantes para divulgar o esporte? Porque?

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Foto: Carla Croci

Sim talvez uma forma de reciclar as aprendizagens e melhorar as relações, os ginásios podem auxiliar criando espaços de discussão sobre esses temas de relevância também, e sei que fazem isso algumas vezes. 

O diálogo que se abre nesses encontros é a melhor forma de colocar as dúvidas e conflitos em contradição, não para se afirmar essa ou aquela ideia, mas para que a pluralidade de opiniões tenha espaço de expressão e e para que a cultura de montanha seja conservada

Desde que você começou a escalar, o que acredita que mudou no esporte de lá para cá?

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Foto: Carla Croci

Surgiram alguns equipamentos mais modernos, apesar de eu usar algumas técnicas antigas de segurança, pela sua praticidade; muitas paredes de escalada surgiram, nas casas das pessoas, nos ginásios, em escolas (estou montando junto com o Marcelo Lopes 28 paredes de escaladas nas unidades do SESI – SP).

O nível técnico dos brasileiros aumentou muito, descobriram-se muitos points novos alguns brasileiros atingiram algumas das maiores e mais difíceis vias do planeta colocando o nome do país no cenário mundial.

Aumentou o número de praticantes consideravelmente hoje, e em alguns lugares precisa pegar senha para escalar

Você teria algum conselho a dar a academias, ou instrutores de escalada?Qual seria?

Conselho eu não sei, posso dizer que as academias já fazem muito pelo esporte, mas pensar no iniciantes é básico, um pessoa que vai pela primeira vez escalar, precisa se sentir segura, porque escalar é brincar no ambiente vertical e o medo da altura é natural, desde que descemos das árvores, então ensinar essas pessoas com paciência e zelo pela segurança vai fazer com que retornem.

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Foto: Denis Prado

Além disso a escalada tem técnicas de movimentos que não usamos em outras modalidades, então transmitir devagar alguns desses ensinamentos vai proporcionar confiança e mais chance de sucesso na prática e todo mundo tem que ter uma expectativa de sucesso para se manter num esporte, se a pessoa se acha incompetente tende a desistir.

Para os instrutores posso dizer que o meu diferencial sempre foi a comunicação com meus alunos, minha preocupação com a diversão ao aprender, a variação de atividades para nunca cair na monotonia, nunca tive pressa em elevar o nível do treinamento com os alunos.

Cada um deve decidir o momento de buscar metas mais ambiciosas, mas todos devem curtir as escaladas.

Me preocupava em ampliar o repertório de movimentos dos alunos mais do que o grau atingido, e uma coisa importante é que a escalada enquanto evolução pessoal é feita mais de problemas do que de soluções e que aprender a lidar com o fracasso é importante para prosseguir

Só pra ilustrar: Um de meus alunos quando pequeno sempre perdia do colega em vários campeonatos, ele sentia-se muito mal e só o que eu podia lhe dizer é para não desistir, porque se ele treinasse um dia seria melhor, de tanto eu acreditar nele se tornou um dos maiores talentos da escalada brasileira, não importava para mim se ele era um talento, importava se ele conseguia acreditar em si mesmo, porque no fundo escalar é isso, “Ver a montanha que está lá e acreditar que você pode chegar até ela”

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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