Entrevista com Bianca Castro

981264_582504008438007_1078514802_oA carioca Bianca Castro está despontando no cenário da escalada brasileira com marcas assombrosas para a sua idade.

Castro recentemente chamou a atenção de todos que acompanham a escalada esportiva por uma loga “climb trip” em que conseguiu estabelecer cadenas de vias de respeito em locais como Serra do Cipó, Chapada Diamantina e São Bento do Sapucaí.

Bianca é a ainda a grade esperança do estado Rio de Janeiro em voltar a colocar no pódim do campeonato brasileiro de escalada no futuro.

O Blog de Escalada procurou Bianca Castro para uma conversa para que ela falasse mais sobre ela, acompanhe abaixo.

Bianca você tem se dedicado bastante à escalada de alto nível nos últimos meses, como está sendo a experiência?

Nesses últimos meses, eu pude me dedicar muito à escalada. 176863_199128086775603_380628_o

Tenho treinado bastante – não nas últimas semanas, pois estava na Serra do Cipó e tive dois campeonatos em dez dias – e a escalada em alto nível se deve a isso.

É muito bom se sentir bem em vias que você antigamente sofria para isolar os movimentos e precisar de poucas entradas para encadenar uma via da sua graduação máxima.

Talvez eu até esteja confortável/conformada neste ponto, acho que talvez devesse entrar em vias mais difíceis e trabalhá-las, mas por enquanto estou gostando de não precisar me dedicar muito para mandar uma via.

Por outro lado, estar escalando bem tem seu ônus: agora eu tenho que equipar vias com muito mais frequência do que antigamente!

Brincadeira, acho legal equipar vias para os amigos, como dizem por aí, tudo é treino!

Você tem pretensão de participar do campeonato brasileiro de escalada neste ano de 2013?

996842_582508971770844_1532903178_nCom certeza!

Estou só esperando que as datas sejam divulgadas para direcionar meu treino e comprar as passagens.

Teremos este ano também um Ranking Carioca de Boulder, o que não acontece há anos.

Escalada em rocha sempre foi minha prioridade e o que mais me realiza como escaladora, mas estou bastante animada com a perspectiva de competições deste ano, que, com certeza, foi impulsionada pelo sucesso do Campeonato Brasileiro de Boulder do ano passado.

Pelo o que eu tenho conhecimento, este ano já tiveram cinco competições, a 1ª Etapa do Ranking Fábrica de Monstrinhos, o Festival de Boulder UFC, o Festival de Boulder Campo Base, o Festival 4You e o Desafio 5.10 ATM de Boulder. 1005576_582508988437509_966094262_n

Participei das duas últimas, que foram super legais, e fico muito feliz que competições estejam sendo realizadas em todas as Regiões do país.

Isso é ótimo para dar visibilidade ao esporte e atrair investimentos.

Como é a sua rotina de traimentos?Você utiliza algum outro esporte para complementar a sua escalada?

Desde sempre me interessei por treinamento e já li alguns livros sobre o assunto, mas nunca tive disciplina para treinar.

Comecei muito cedo a escalar – em 1998, com nove anos – e naquela época as prioridades eram outras, eu só queria escalar e brincar no muro.

No início de 2012, praticamente um ano após retornar à escalada – entre o meio de 2005 e o final de 2010 quase não escalei por motivos de lesão e faculdade -, eu resolvi que iria fazer, e seguir, um treinamento visando me preparar para a viagem que eu faria no carnaval para São Bento do Sapucaí.

383884_327777013910709_1485284437_nO objetivo era tentar encadenar o meu primeiro 9º grau, uma via que eu tinha tentado pela primeira vez poucas semanas antes, chamada Bulls On Parade (9a).

Consegui seguir a risca o que eu havia me proposto a fazer e o carnaval foi recheado de cadenas: mandei os boulders Gillete (V6) e Navalha (V5), ambos situados no bloco do Bigode, e as vias Kalymaia (8b), de segunda tentativa, e, no último dia, a Bulls On Parade (9a), totalizando cinco pegas apenas.

Fiquei bem impressionada com o resultado dos treinos e o sucesso do carnaval.

Desde então, venho mantendo uma rotina de treinamento, sempre tendo como objetivo uma viagem, que é o que mais me motiva a treinar com regularidade e disciplina.

Treino no muro de boulder Evolução duas ou três vezes por semana, umas três horas cada dia.

Quando estou quase mandando um projeto ou vou passar o final de semana em São Bento, onde alugo uma casa com amigos, treino somente duas vezes, mas normalmente são três.

Além do treino no muro, tento escalar sábado e domingo. 457529_374263599262050_486644973_o

Um grande privilégio de morar no Rio de Janeiro é termos rocha dentro da cidade e se tenho algum compromisso no final de semana, consigo arranjar um tempinho para escalar.

Semana que vem, começo um novo ciclo de treinamento.

Depois de focar meses em treinos de força, com muitas barras com lastro e exercícios no campusboard, irei começar um treinamento de resistência com o objetivo de me condicionar para as vias da Barrinha, um dos melhor picos de escalada do Rio de Janeiro e acho que até do Brasil, e vias mais longas da Serra do Cipó e São Bento.

Neste treinamento, terei o auxílio da nove vezes campeã brasileira de escalada de dificuldade, Janine Cardoso, e estou ansiosa para começar.

Com a ajuda do escalador campineiro Arthur “Xitão” Gáspari, grande amigo, companheiro de casa em São Bento e, agora, preparador físico, começarei também a malhar na academia, visando, principalmente, prevenir lesões e ganhar um condicionamento aeróbico que eu sei que me falta.

1016604_613912335286175_664844895_n[1]Hoje, minha rotina de treinos é, e ficará mais ainda, pesada e regrada, mas como sei que os treinos dão resultado, recomendo a todos que tenham um pouco de disciplina e então verão que a evolução virá de forma mais rápida.

Você possui algum objetivo determinado para este ano de 2013? Qual seria?

Escalar e viajar muito!

Este ano conheci Itatim, uma cidade no interior da Bahia com vias alucinantes e um potencial enorme para novas vias, recomendo a visita.

Engraçado que, no Rio, há falésias que eu nunca fui, mas ultimamente o interesse pelo “de fora” é muito grande e sempre que tenho oportunidade saio daqui para escalar em lugares diferentes.430079_10201046154052667_1707505907_n[1]

Tenho como objetivo também participar de todas as etapas do Ranking Brasileiro e Carioca, além de outras competições que surgirem e eu puder ir.

Acho muito importante que os escaladores participem de campeonatos para que eles continuem sendo organizados e o esporte evolua.

Com relação à escalada em rocha especificamente, fiz uma lista com algumas vias que eu queria entrar, e tentar mandar, este ano. Dentre elas estão a Juízo Final (9b), em São Bento, e Heróis da Resistência (9c), no Cipó.

Quem sabe encadenar um 10º grau até o final do ano?

933946_191983497619986_1710628605_n[1]O grau de uma via não deve ser o maior atrativo, mas me atrai pelo desafio que a dificuldade proporciona.

Gosto de fazer movimentos fortes e exigentes, que podem ser encontrados, justamente, em vias de maior graduação.

Na sua opinião a escalada ganharia ou perderia com a inclusão da escalada esportiva nas olimpíadas?

Sem dúvida alguma ganharia.

O status de esporte olímpico traria mais popularidade, investimentos governamentais e de empresas privadas, e até motivação para se começar a escalar e treinar mais forte, em busca de uma medalha, do sonho olímpico.

Entendo que, há quem discorde do meu posicionamento, alegando que os picos de escalada seriam degradados pelo aumento da popularidade. 

Entretanto, com uma boa educação e conscientização, poderíamos mitigar este impacto.535482_434570303285993_113012913_n[1]

No Brasil a grande maioria das marcas que tem como público alvo os escaladores não patrocina atletas, apenas os apoiam. Na sua opinião qual seria o motivo desta postura?

Essa é uma questão complicada.

Acho que a razão maior para as marcas não patrocinarem os escaladores é o fato de a escalada não ser um esporte popular no Brasil, assim o dinheiro investido nos atletas não apresenta um retorno vantajoso para a marca.

Muitas marcas vendem seus produtos mais para praticantes de trekking do que propriamente para escaladores.

Além disso, temos a cultura de que o que é importado é melhor.

Muitas vezes é melhor mesmo, mas desta forma as marcas nacionais, que estariam mais interessadas em patrocinar os escaladores brasileiros, não têm um retorno financeiro que as permita patrocinar mais atletas.

Os eventos de escalada como encontros e festivais se proliferaram no país nos últimos anos, na sua opinião porque os campeonatos não tiveram a mesma popularidade?

11747_531509496870792_1591950492_n[1]Quando comecei a escalar, muitas competições eram realizadas no Brasil e, até 2005, quando parei, o cenário era bem positivo, mas já demonstrava um certo declínio.

Não sei o motivo exato, mas os campeonatos começaram a ter um número de participantes muito inferior do que no passado e tivemos um período quase sem campeonatos.

Foi aí que os festivais entraram em cena.

Acho que são populares por não proporcionarem aquelas horas em espera no isolamento e consequente nervosismo por parte dos participantes.

A pressão é muito menor por ter um clima de brincadeira, no bom sentido, e descontração.

Eu prefiro muito mais participar de campeonatos do que de festivais, pois têm um formato muito mais profissional e de competição propriamente dita.

Ser praticante de escalada exige apoio de pessoas próximas, quem são as pessoas que mais apoia você no esporte?

Meus pais sempre me apoiaram e incentivaram muito.

Eles sempre perguntam como foi o dia de escalada, pedem para eu tirar fotos e querem se eu escalei bem ou mandei aquele projeto, principalmente meu pai, pois ele foi montanhista há muitos anos atrás e gosta muito que eu pratique este esporte.

Ele mostra meu vídeo escalando em Itatim e fotos para todo mundo, é engraçado até.

Além do apoio familiar, conto com o apoio dos meus amigos, pessoas com quem estou toda a semana, nos treinos, na rocha ou nas viagens. Sempre uma vibe boa que torna o estilo de vida de um escalador ainda mais especial.

É bom estar rodeada de pessoas que compartilham da mesma paixão pela escalada.

Preciso agradecer às marcas que acreditam na minha escalada, sendo elas Camp, Cassin, Deuter, Evolução Escalada Indoor, Sapo Agarras e Verticale.

Cada uma apoia da melhor maneira possível e é extremamente gratificante ser reconhecida neste esporte incrível que é a escalada.

Obrigada, Blog de Escalada, por permitir que eu conte um pouco da minha história e apresente minha opinião sobre alguns pontos que nos envolvem na escalada hoje em dia.

Quem quiser saber mais sobre mim, entre no meu blog – biancamcastro.wordpress.com – e curta minha fanpage – www.facebook.com/biancaescalada .

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

There are 2 comments

  1. pedro cordeiro de lima

    Esse é um belo exemplo a ser seguido…a iniciativa de entrevistar, apoiar, influenciar os e as escaladoras no Brasil. Há uma imensa lacuna a esse respeito por aqui….quase não se conhece quem são os bam-bam-bans da escalada no Brasil…especialmente o público mais jovem. Realmente para que esse fantástico esporte se torne olímpico, deve haver, antes de tudo, total apoio e divulgação por parte das entidades e editoras especializadas, em fazerem seu trabalho, dando uma importante contribuição para a divulgação do esporte…sem a qual, não haveria interesse pelo esporte aqui no Brasil que só se interessa praticamente pelo futebol…relegando as outras belas modalidades ao segundo e terceiro plano…
    PARABÉNS a esta incrível escaladora…Incentiven-na então porque como o demonstrado, ela tem um enorme potencial até pra representar o Pais lá fora…
    Abçs e obg,
    P.Cordeiro

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