Entrevista com Manu Vilaseca

Para quem gosta de estar na montanha sempre que possível não importa o esporte que pratique, apenas pesa na balança desfrutar da melhor maneira possível.

Residente na cidade do Rio de Janeiro, e dotada de uma energia quase atômica a atleta Manu Vilaseca é sem dúvida um dos grandes nomes do trail running no Brasil.

Foto: Acervo Pessoal Manuela Vilaseca

Foto: Acervo Pessoal Manuela Vilaseca

Destaque em quase todas as provas pelas quais disputa, Manuela sempre demonstra uma determinação singular, além de uma força de vontade quase sobre-humana.

Tendo as suas origens na corrida de aventura, encontrou no trail running sua maior paixão e destacando-se como poucos, e poucas.

Não à toa Manu possui patrocínio e apoio de marcas que acreditam em seu potencial: The North Face, D Vitaminas, IBS Bike Shop, Nirvana, P9 Fisioterapia, Kafukan e Compress Sport.

A Revista Blog de Escalada procurou Manu Vilaseca para uma conversa e fomos presenteados com uma das mais completas e simpáticas respostas em todas as entrevistas já realizadas para o site.

Manu, você é uma atleta de um esporte que está crescendo muito de popularidade, o trail-running. Como está sendo esta realidade para você?

O Trail Running cresceu muito nos últimos anos, inclusive no Brasil fez um “boom”. O reflexo disso está na quantidade de provas e o número de corredores em cada uma delas, que não para de crescer.

Isso é uma coisa positiva para todos nós porque significa que o esporte está em evidência. Eu considero tudo isso muito bom, mas enxergo alguns problemas.

Acho que muitas pessoas estão se arriscando demais, encarando provas muito longas sem experiência. Esse esporte não é brincadeira não.

Estamos falando de corridas que podem durar mais de um dia, condições extremas e muito risco envolvido. Correr uma prova de 160 km não é saudavel e eu nunca defendi isso. Sei que tudo que fazemos no esporte vai contabilizando.

O que eu faço é tentar minimizar essa fatura para não pagar com a minha saúde. Sou acompanhada por um médico, um fisioterapeuta, nutricionista, treinador, e considero tudo isso fundamental.

Foto: Acervo Pessoal Manuela Vilaseca

Foto: Acervo Pessoal Manuela Vilaseca

Sempre falo isso e sugiro que as pessoas se aliem de profissionais da área, que com sua experiência podem orientar cada um da melhor forma.

Ressalto também que cada um é diferente e que não necessariamente uma coisa que funciona para mim vai funcionar para outra pessoa.

Para ser uma atleta de alto desempenho como você é necessário uma rotina de treinamento rígida. Como é sua rotina de treinamento?

Para ser um atleta de alto rendimento é necessário cumprir com uma rotina bastante exigente. É claro que se o atleta está fazendo o que gosta, tudo isso fica muito mais fácil.

Eu sempre acordo cedo para treinar, até porque eu trabalho e não posso acordar tarde. O meu ano é sempre muito agitado e eu viajo muito.

Ano passado eu praticamente fiz uma viagem por mês!

Confesso que quando chego no fim do ano fico com vontade de ficar em casa, acordar tarde e tomar café da manhã com calma. São coisas “bobas” mas que são gostosas de viver.

Quando posso me dar ao luxo de fazer essas coisas, sem dúvida dou muito mais valor. Os treinos muitas vezes são puxados e isso também consome bastante.

O fim de semana, que é o tempo que tenho para ir à praia, dormir tarde ou ir numa festa, por exemplo, eu faço os treinos mais longos.

Foto: Acervo Pessoal Manuela Vilaseca

Foto: Acervo Pessoal Manuela Vilaseca

Às vezes chego em casa super cansada mas não deixo de fazer minhas coisas. Tomo banho e já vou direto para a praia encontrar os meus amigos. Ao contrário da maioria das pessoas, que descansam no fim de semana, eu me canso ainda mais!

Eu não deixo de viver minha vida social por causa do esporte, mas eu sei os momentos que posso ou não posso fazer certas coisas.

Corredores de montanha de renome como Kilian Jornet e Fernanda Maciel possuem projetos pessoais de grandes desafios. Você possui algum?

Muitos corredores possuem projetos pessoais e eu acho isso muito legal. Os meus projetos pessoais estão nas viagens que faço com meu irmão, por exemplo.

Sempre escolhemos uma aventura para fazer juntos, que pode ser uma viagem para subir uma montanha.

Ano passado fomos para o Aconcágua. Já fomos também ao Monte Roraima.

Meu objetivo com isso é sempre com o intuito de explorar, curtir ou conhecer um lugar, sem pressão nenhuma. Acho que já tem muita prova no ano para fazer pressão então nesses momentos meu objetivo principal está na curtição.

Também faço projetos de “training camp” com amigos, como o Chico Santos e Marcelo Sinoca, e ficamos uma semana acampados treinando e explorando uma região nova.

É sempre muito legal porque ficamos só com o básico, cozinhando com fogareiro, mochila nas costas e dormindo em barraca. As coisas mais simples são realmente as mais bonitas.

Foto: Acervo Pessoal Manuela Vilaseca

Foto: Acervo Pessoal Manuela Vilaseca

Gosto muito de montanha e tenho muitos sonhos com elas. Um dos meus maiores sonhos é subir o Everest, mas isso requer muito dinheiro.

Hoje não da, mas quem sabe um dia não consigo um patrocínio para ir!?

Qual é o seu critério para selecionar as provas que irá competir?

O primeiro critério que uso para montar meu calendario é escolher as provas que mais tenho vontade de fazer. Sempre falo isso para as pessoas.

As provas são sofridas então temos que escolher algo que queremos muito, pois serão ingredientes para superar as dificuldades.

Eu converso com meu patrocinador para saber que provas eles querem que eu faça e muitas vezes também pintam convites de organizadores. Com todos esses dados eu procuro montar um calendario que seja possível de competir e recuperar.

Foto: Acervo Pessoal Manuela Vilaseca

Foto: Acervo Pessoal Manuela Vilaseca

Às vezes fico na tentação de fazer muitas provas, mas sei que o preço disso está na perda de rendimento, então procuro colocar a cabeça no lugar. Também estudo bem as distâncias para tentar não extrapolar.

Já errei muito, mas aprendi com meus erros e hoje me considero mais prudente e tento passar meu conhecimento adiante.

Para quem deseja começar a correr por montanhas, quais os principais conselhos que teria a dar a elas?

Para os que estão começando meu principal conselho é ter calma. Com isso digo que o corredor deve respeitar a si mesmo, sabendo que é necessário subir um degrau de cada vez e construir uma base boa para correr.

Sempre existe uma vontade que supera a razão, mas a razão nunca pode ser deixada de lado.

Recentemente recebi a ligação de um amigo perguntado o que eu achava de ele fazer tal prova. Dei a ele todos os motivos para não fazer, mas ele foi para a prova.

Certamente ele ignorou a razão e torço para que ele não pague caro por isso.

Qual o desgaste(emagrecimento, desidratação, e etc) que seu corpo sofre após uma prova de corrida de montanha?

O desgaste da corrida de montanha varia muito, principalmente com a distância. As provas de 100 milhas são as que maltratam mais (quanto maior a distância, mais afeta).

As consequências podem variar muito, mas o inchaço é uma coisa comum. O corpo acumula muitas toxinas e depois de uma prova como essas eu faço uma alimentação focada na limpeza do meu organismo.

Foto: Acervo Pessoal Manuela Vilaseca

Foto: Acervo Pessoal Manuela Vilaseca

A perda de peso é comum, mas nunca perdi tanto a ponto de me atrapalhar. O peso que se perde numa corrida, se recupera muito rápido.

O desgaste muscular tem que ser tratado com repouso e recuperação ativa e no caso de uma lesão o atleta precisa ir o quanto antes a um especialista para ter uma boa orientação.

Do Brasil, na área esportiva, a disponibilidade de materiais esportivos, em especial para atividades de montanha, possuem preços muito elevados. Você acha que com a popularização esta realidade pode mudar a curto prazo?

Os produtos e materiais esportivos têm um preço elevado no Brasil porque muitos deles são produtos importados.

Realmente fica caro para nós, especialmente com a alta do dólar e do euro. Tudo ficou caro e acho difícil que a popularização do esporte barateie os preços.

São equipamentos que utilizam materiais de alta tecnologia.

Quanto melhor e mais leve, mais caro será.

Atletas não futebolistas possuem certa dificuldade de arrumar patrocínios. Que conselho você teria a dar a quem procura patrocínio para praticar o esporte de maneira mais profissional?

Patrocínio hoje em dia é quase uma obsessão entre os atletas.

Não é fácil conseguir um patrocínio (especialmente no Brasil), mas eu acredito que o atleta tenha que pensar além do resultado.

Quando uma marca aposta numa pessoa ela não está somente procurando um lugar no pódio.

Ela quer também uma pessoa que seja uma boa representante daquela marca.

Foto: Acervo Pessoal Manuela Vilaseca

Foto: Acervo Pessoal Manuela Vilaseca

Quando você tem um patrocínio você fala em nome de uma marca e isso precisa ser sempre levado em conta. Acho que para os que buscam patrocínio vale manter em mente tudo isso.

É claro que os resultados são os primeiros atrativos para um possível patrocínio, mas não adianta nada ser um excelente atleta e uma péssima pessoa.

Certamente a marca que procura um representante levará todos esses quesitos em conta.

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