Entenda o que é o trauma de suspensão ou síndrome da cadeirinha

A cadeirinha de escalada, conhecida em Portugal como arnês, é um dos mais icônicos equipamentos de escalada, espeleologia e canyoning. Muitos ignoram que o uso deste equipamento não está ligado somente às práticas esportivas. Profissionais, conhecidos popularmente como alpinistas industriais, também fazem o uso dele.

Estes profissionais fazem diariamente uma gama infinita de atividades em altura que podem ser, por exemplo, inspecção, manutenção, reabilitação e construção de edifícios, pontes, barragens, turbinas eólicas, portos marítimos, embarcações, guindastes, estádios, silos, tanques industriais, torres de transmissão, estruturas metálicas, torres e chaminés industriais, edifícios e instalações industriais.

Tanto escaladores, quanto profissionais de trabalho em altura, estão sujeitos à uma enfermidade conhecida como trauma de suspensão ou síndrome da cadeirinha. O diagnóstico deste tipo de enfermidade foi obtido através de estudo das funções anormais ou patológicas dos vários órgãos e aparelhos do organismo. Desta maneira foi estudado que tipo de alteração uma pessoa pode apresentar quando permanece imóvel, em posição vertical, foi detectado a hipotensão ortostático. A hipotensão ortostática, também chamada hipotensão postural, é uma forma de pressão arterial baixa que acontece quando a pessoa se põe de pé a partir da posição sentada ou deitada.

Entretanto, é importante ressaltar que as modificações ocorridas na corrente sanguínea de um escalador após a queda, não estão abundantemente documentadas pela ciência.

Portanto, é de suma importância que, tanto o escalador quanto o profissional de atividades em altura, saibam escolher a cadeirinha ideal. Ao optar ao utilizar um equipamento não adequado para a atividade, além dos possíveis acidentes, a própria integridade física da pessoa pode estar ameaçada.

Trauma de suspensão

As primeiras referências das alterações fisiopatologias por suspensão em uma cadeirinha datam de 1968. No laboratório Harry G. Armstrong Aerospace Reseach Laboratory (AAMRL), localizado no estado norte-americano de Ohio, foram realizados estudos com voluntários suspensos em uma cadeirinha. A experiencia foi documentada em um artigo publicado em 1987 com o título “Test Program to Evaluate Human Response to Prolonged Motionless Suspension in three Types of Fall Protection Harnesses“.

Quatro, de um total de cinco, voluntários que se submeteram aos testes foram submetidos à suspensão por 30 minutos. Três destes apontaram sentir incômodo e sensação de adormecimento nos pés e pernas. Neste grupo os sintomas diminuíram à medida que as fitas da cadeirinha, que sustentavam os glúteos e pernas, foram modificadas. Vale lembrar que à época que foi realizada esta experiência, as modernas e anatômicas cadeirinhas que atualmente existem, não eram comercializadas nem fabricadas. Apesar de não existir fotos do experimento, pode-se intuir que, assim como os escaladores da época, as cadeirinhas eram feitas com corda e atadas à altura do peito.

Um voluntário apresentou perda de consciência aos 27 minutos, de um total de 30, e foi rapidamente reanimado. A recuperação total deste voluntário demorou aproximadamente cinco minutos. Nesta experiência a perda de consciência do voluntário foi atribuída à insuficiência venosa causada pela posição do corpo. Este acúmulo de sangue nas partes inferiores do corpo a uma pessoa suspensa, pode chegar até 60% da redução dos mecanismos compensadores de “vis a tergo” (contração do ventrículo esquerdo que é o mecanismo que tem maior ação de retorno venoso) e “vis a fronte” (conjunto de forças que agem de maneira harmoniosa e favorecem a progressão do fluxo venoso).

Foto: Paola Cabistany e Christian Checa

A partir disso haverá uma hipotensão arterial com a redução do funcionamento cardíaco e, assim, redução do fluxo sanguíneo a outros órgãos. A liberação de catecolaminas nas primeiras fases de suspensão, intensificadas pelo meio e a intensidade, poderiam atrasar o início do trauma.

É considerado quando um indivíduo cai e é sustentado por uma cadeirinha, pode ficar em posição inerte. a principal ocorrência do Trauma de suspensão. Não há ocorrências de que tenha acontecido durante a posição de suspensão apenas. Portanto, este é um dos motivos que algumas pessoas, especialmente quem está sendo resgatado, apresentam sintomas como náuseas, vertigem, zumbidos nos ouvidos, sudorese e perda de visão.

Para quem irá se sujeitar a ficar pendurado durante muito tempo, a melhor alternativa é, além de se hidratar corretamente, estar sempre trocando de posição e movimentando as pernas.

Durante o tratamento a alguém que está sofrendo de síndrome de cadeirinha, alguns autores alertm para o risco de “morte no resgate” como consequência da sobrecarga cardíaca quando há um retorno brusco do sangue que acumulou nas extremidades. Nas pesquisas mais recentes esta teoria é colocada em xeque, pois não foram encontradas evidências.

Usualmente, o tratamento é colocar a vítima em posição semi-sentada (ou posição fetal caso esteja inconsicente) durante 50 minutos e ir colocando-a, pouco a pouco, na posição horizontal.

Bibliografia

Orzech, Mary Ann; Goodwin Mark D.; Brinkley, James W.; Salerno, Mark D; Seaworth, John. Test Program to Evaluate Human Response to Prolonged Motionless Suspension in three Types of Fall Protection Harnesses. 1987.

Leal S1, Becker F, Nespoulet H, Zellner P, Cauchy E. Proposal of an Effective Algorithm to Manage Suspension Trauma in the Field. 2016.

Suspension Trauma Symptoms and Treatment

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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