Crítica do filme “180º South”

180-south-1Durante o decorrer da exibição de “180º South” o protagonista, que saiu de barco dos EUA até a Ilha de Páscoa, passou seu tempo surfando com uma garota que conheceu no local e também procurando arrumar algo na sua embarcação. Neste momento ele reclama de que se viveu e respirou a escalada no Corcovado, um vulcão em forma de cone de 2.300 m de altitude, no Chile. Já neste simples exemplo fica evidente que a dedicação à uma escalada e compromissos que possui consigo mesmo e com a vida não parecem ser a sua prioridade.

Este tipo de displicência parece refletir em quase todos os aspectos do filme que, em vários momentos, parece dois tipos de produções distintas : uma falando de conservação da natureza e avanços de mineradoras e indústria da pesca no Chile e outro menos preocupado com tudo e mostrando uma viagem de uma pessoa que resolveu dar um tempo na vida.

Deixando de lado esta inconsistência de temáticas a montagem do documentário ainda tem o fato parecer, por conta do roteiro confuso, se arrastar e entendiar o expectador com imagens sem história alguma. Fosse possível descrever a sensação que há apos observar tantos atropelos de roteiro e edição, “180º South” é que se trata de uma coleção de vídeos sobre um escalador que admira ídolos, que hoje são empresários bem sucedidos, e deseja fazer algo relevante em sua vida. Junto com este sentimento está o de vazio existencial de alguém que gastou muito tempo da vida sendo um “dirtbag” e agora necessita fazer algo e não sabe ou tem desejo de começar.

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O filme “180º South” foca nos pensamentos e devaneios a respeito da vida por Jeff Johnson em sua admiração por Yvon Chouirnard, fundador da marca Patagonia, pelo seu empreendedorismo e espírito aventureiro. Buscando se espelhar, como se realizar uma mesma viagem realizada no passado o pudesse inspirar a seguir os passos de seu ídolo, Johnson resolve partir de viagem à Patagônia chilena para escalar um local que apenas conhecia por foto e nome: O vulcão Corcovado. A viagem original realizada por Chouirnard e seu amigo Doug Thompkins (esta fundador de outra marca de sucesso) foi feita em um furgão desde o sul do estado americano da Califórnia até o Chile. Viagem esta que, nas palavras de Yvon, foi a melhor que fez em toda a sua vida.

A partir deste ponto Jeff Johnson já começa a mostrar explicitamente sua falta de discernimento com suas ideias e prioridades optando por fazer a viagem de veleiro.  A escolha já elimina o contato com toda uma gama de ecossistemas e populações da América Central e Sul que poderia ser usada no filme como parte de alerta para o conservacionismo. Assim como não se descobre a importância do Caminho de Santiago saindo de carro do início para chegar a Santiago de Compostela, a procura de seguir os passos se seu ídolo já começou equivocada.

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Até seu passeio de barco pelo Oceano Pacífico, até chegar à Ilha de Páscoa, se assemelha a um filme publicitário, assim como uma propaganda barata e desnecessária, de como é a vida em um veleiro. Logo após as imagens de uma viagem e calma, o que o filme “Maindentrip” mostra ser impossível neste trecho, “180º South” se transforma em um filme sobre surf em ondas gigantes e em conhecer bonitas surfistas locais. O roteiro até este momento contradiz tudo o que o protagonista disse que iria fazer no início da produção.

A partir do ponto que decide parar de ficar surfando e falando da sua escalada esporadicamente, o diretor Keith Malloy resolveu falar algo de sustentabilidade, conservadorismo e ecologia utilizando imagens de Santiago do Chile, e apostando em uma dicotomia de temática dentro do que produzia. Por esta escolha a evidente “barriga” criada para abarcar os dois temas estica a história de “180º South” ainda mais tornando o filme em “qualquer coisa”. Visivelmente não há roteiro, história nem intenção de evidenciar nada. A produção não se preocupa em ampliar a discussão mostrando os dois lados da temática do conservadorismo, nem se da ao trabalho de colocar os políticos envolvidos neste problema.

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Um aspecto que mascara muito a qualidade do filme é a qualidade indiscutível de sua trilha sonora, que aponta afinidade com as imagens e esportes praticados. Mas como “180º South” é uma um filme de pouco mais de 1h30min e não um video-clipe de alguma emissora especializada neste assunto, o filme deixa uma evidente avalanche de boas intenções que acabaram por atropelar itens fundamentais como roteiro, que não possui nem coerência ou coesão em toda a sua estrutura. Piorando um pouco esta matemática, os produtores e protagonistas se levam a serio em demasia, o que pode até mesmo causar antipatia por qualquer atividade mostrada na produção.

Infelizmente “180º South” desperdiça boas oportunidades de ser uma peça relevante, além de perder-se em suas tentativas de tornar-se ecologista de maneira vazia e abstrata, soando muitas vezes como um trabalho estudantil elevado à categoria de superprodução.

Nota Revista Blog de Escalada: 

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Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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