Como é – e o que não é – uma escalada em Via Ferrata

O que é uma Via Ferrata ?

Em linguagem técnica é itinerário que conduz o alpinista pela parede rochosa, ou em área de crista, a qual é preventivamente equipada  com materiais metálicos.

Vias Ferratas são verdadeiramente uma escalada pois requerem treinamento adequado e equipamentos de segurança como capacete, cadeirinha e absorvedor de impacto.

Na escala de dificuldade do Clube Alpino Italiano(CAI), uma via ferrata é classificada como EEA (excursionismo experto equipado).

Quase todas as vias ferratas da Itália foram feitas ou estão sob os cuidados de uma seção do CAI, entidade a qual é responsável por gerir as vias ferratas do país. As vias ferratas são uma espécie de orgulho da seção do CAI, que promove e convida as pessoas para virem fazer montanhismo experimentando a via.

História

O primeiro relato que se tem notícia de algo do gênero é do ano de 1492, mesmo ano de descoberta da América, quando o capitão do exercito francês Antoine De Ville instalou cavilhas (espécie de pinos) para poder subir no Monte Aiguille com seu exército.

Mais de 350 anos depois, no ano de 1843, o Professor Friedrich (1813 – 1896), grande explorador de montanhas de Hocher Dachstein (2.995 m), fez a então primeira via ferrata com intuito exploratório para desta maneira possibilitar o “fácil” acesso à montanha. Para isso instalou cerca de 190 metros de cabos de aços, pinos, anéis em ferro e uma escada metálica de 5 metros presa a um precipício.

Vinte e seis anos depois os pioneiros do alpinismo Thomas Rupert e Michel Groder construíram uma via ferrata para ter acesso a famosa crista sudoeste do Grossglockner (ponto mais alto da Áustria com 3.797 m), no mesmo ano.

Por conta do sucesso que a via ferrata teve fizeram outra, mas desta fez utilizando a Via Studl, instalando 400 metros de cabos metálicos, além de um monte de outras estruturas. Porém a estrutura durou muito pouco, pois o gelo e a neve do inverno a destruiu rapidamente.

Depois disso diversas outras vias ferratas foram instaladas com objetivo lúdico, o qual a única função era chegar no alto das montanhas.

Inicialmente sempre na Áustria, Alemanha e França nos Alpes.

No Brasil

Pouco se tem de informação sobre vias ferratas no Brasil, mas fala-se que em 1950, quando foi feita no Pão de açúcar a Via CEPI. Naquela época, na década de 1950, vários alpinistas desembarcaram no Brasil no pós guerra e continuaram com seu lazer efetuando investidas no Pão de Açúcar, Dedo de Deus, Marumbi etc.

Muitas vezes instalaram partes de vias ferratas, que é possível vê-las até hoje porém nenhuma em bom estado e nem documentada (afinal é o padrão adotado no Brasil).

Já é bem difícil encontrar documentos de outros assuntos imaginem deste (Via Ferratas no Brasil). Só para se ter ideia da diferença do que quero deixar claro : ao fazer a pesquisa para escrever este artigo fui na biblioteca do Clube Alpino Itáliano e em sites estrangeiros. Na pesquisa me deparei com mais de 50 publicações só em língua Italiana, incluindo guias somente de vias ferratas, livros com histórias, etc.

Ainda sobre a primeira, eu particularmente acredito que foram usadas algumas peças deixadas após a construção do bondinho, que o começo data de 1908 e inauguração em 1912, sabe-se que todo o material foi levado por homens treinados os quais provavelmente construíram uma via ferrata para este fim.

Dizem que esta é a mais difícil da Itália

A mentalidade destes exploradores estrangeiros era muito diferente da que se tem hoje em que muitos “alpinistas” (escaladores como gostam de ser chamados no Brasil) criticam o uso de vias ferratas. No Brasil infelizmente existe a ideia de sempre restringir as coisas legais a grupos seletos.

Portanto “quer escalar” ? Pratique por 10 anos, gaste uma fortuna com equipamentos e somente entre em nosso clube se nós deixarmos ! Então somente aí chegue no alto da montanha.

Como foi escrito no texto acima, no ano de 1843 os europeus já tomaram a iniciativa de possibilitar o fácil acesso à montanha por pessoas inexperientes. Já ouvi várias vezes a frase, a qual não sei o autor, decretando :

Você precisa se adaptar a montanha não adaptar a montanha para você

Para pessoas com esta mentalidade, e que repetem a frase como um mantra, vejam a foto abaixo

 

Livros

Escadas da Pedra do Bau

Umas das únicas vias que temos em largo uso está localizada em São Bento do Sapucaí-SP onde fica a Pedra do Bau, conhecida de quem vai a Campos de Jordão-SP no inverno.

Entretanto não serve muito como exemplo, pois todos os dias é possível encontrar pessoas solando a via e correndo muito risco.

Acidentes também são muitos e quando me perguntam sobre ela, tento explicar que trata-se de uma via ferrata e que é necessário obrigatoriamente ser feita com equipamentos de segurança.

 

Sempre falo em meus treinamentos : o problema não é você cair por ser burro ou não aguentar, mas porque se passar mal e cair, e até mesmo se precisar de um resgate por entrar em pânico com a exposição à altura (algo bem comum diga-se), sem os devidos equipamentos de segurança dificultaria tudo.

Todo mundo conhece como trilha da Pedra do Bau, mas pouco se usa o termo via ferrata ao falar dela. Porem, o que é um fato, é muito bonita e fácil de se fazer pois são, mais ou menos, 600 degraus com 320 metros de desnível.

Todo o percurso demora mais ou menos cinco horas, entre ida e volta, para ser percorrida.

Existem escadas e cabos de aço instalados, não como manda o figurino, mas é possível fazer com baixo risco desde que usando os equipamentos de segurança, é claro.

Como deve ser uma via ferrata

Segundo ao manual do CAI que contem quase 600 páginas com tudo que esta envolvido ao alpinismo, inclusive via ferrata deve ser feita seguindo os seguintes preceitos e normas :

  • Normas da Europa para escalada em via ferrata:
  • EN 958
    • set para via ferrata : Talabarte que contem dois mosquetões, corda ou fita e um absorvedor de energia.
  • EN 12275
    • Conectores para via ferrata devem ser do tipo “K
  • UIAA 121 
    • Capacete, cadeirinha e luvas

Mosquetões do tipo “K”

Na Alemanha via ferrata chama “Klettersteig” e os mosquetões adotados pela CE e UIAA para tal atividade ficaram conhecidos e identificados com um “K”.

Os mosquetões são de base larga e com travas automáticas que podem ser duplas ou simples.

Legislação

No Brasil a NR 35, Norma regulamentadora do trabalho em altura, é bem explicita e em seu artigo 1.3 diz:

  • 1.3 As disposições deste anexo não se aplicam nas seguintes situações:
    • a-) Atividades recreacionais , esportivas e de turismo de aventura.
    • b-) Arboricultura
    • c-) Serviços de atendimentos de emergências destinados a salvamento e resgate de pessoas que não pertençam à própria equipe de acesso por corda.

Em vários países Europeus existem diversas leis que também se aplicam ao esporte, só para fazer uma síntese com algumas que me deparei, em algumas regiões da Itália quando se vai a montanha nevada é obrigatório o uso de ARTVA (rastreador que vai sempre com o alpinista) que será usado em caso de avalanche. Caso seja verificado que o alpinista não o possua o aparelho, será efetuada uma multa, inclusive para o guia que estiver junto e também sua empresa.

No caso de vias ferratas atendesse integralmente as normas da Comunidade Europeia, não tem poder de lei porem são seguidas por todos o uso dos EPI’s inclusive o talabarte com absorvedor de energia. Até mesmo por questões de responsabilidade legal e seguro em caso de acidentes, normalmente quem está envolvido nestas atividades tem ligação com o CAI ( Clube Alpino Italiano ), que por sua vez, é ligado ao Socorro Alpino (Grupo de Resgate de Montanha).

Diversos órgãos governamentais divulgam cartilhas explicando os riscos e como realizar com segurança as vias ferratas.

Importante destacar também o exemplo de que em muitas regiões da Itália ao se precisar do resgate este será pago pelo socorrido custo entre €25 a €75 a hora. Sendo que o valor máximo será de €500 para acidentes considerados graves e € 7.500 para acidentes considerados de natureza leve. Os valores variam de acordo com a região. Existem casos que a pessoa está tão cansada que é necessário chamar o socorro.

Portanto, esta lógica de cobrar pelo resgate, parte do seguinte pensamento :

Você resolveu andar até a montanha e se colocou em perigo por falta de aptidão ou treinamento, porque arriscar a vida de outra pessoa para te salvar

Cartilha de segurança em vias ferratas, em Italiano: http://www.sicurinmontagna.it

No Brasil eu particularmente adoto o talabarte de segurança para estruturas metálicas, mesmo que a legislação não fale sobre esporte acho importante estar baseado em alguma lei brasileira para um eventual problema jurídico, e convenhamos que ninguém pode criticar o seu uso em vias ferratas.

Nas certificação de acesso por corda IRATA aprendemos que eles devem ser usados em estruturas metálicas porem também utilizamos somente o “Cow’s Tail” para progredir em artificial mas para tal prática deve se ter um treinamento, portanto para os experientes é normal que se use em via ferrata já que não temos nenhuma legislação que abranja o esporte cada um assume seu risco.

Existem talabartes leves uns mais pesados custam na média de R$ 250,00 devem obrigatoriamente ter abertura de 55 mm e quando tiver mais de 90 cm possuir absorvedor de energia, seguindo NR 35 ( Norma Regulamentadora ).

Equipamentos certos para Via Ferrata

  1. Capacete padrão UIAA.
  2. Luvas.
  3. Cadeirinha para escalada também padrão UIAA
  4. Opcional usar o peitoral, bom para iniciantes se precisarem do auxilia da corda e “Croll” para subirem em algum ponto.
  5. Mosquetões do tipo “K”
  6. Corda dinâmica para fazer “Cow’s Tail” – talabarte de segurança – “Set ferrata”

Para o set de via ferrata Existem vários modelos no mercado, seguindo a legislação européia precisam possuir mosquetões do tipo “K” e um absorvedor de energia, dissipador para eles chamam.

O “Cow’s Tail é um equipamento utilizado em acesso por corda, deve ser confeccionado com quatro metros de uma corda dinâmica (de preferência de 10 mm) a qual é ligada à cadeirinha com dois nós oito guiado.

Assim as partes são independentes uma da outra, uma extremidade deve ser maior que a outra a fim de proporcionar a dinâmica de estar mais próximo ou mais distante do ponto ancorado.

Nas outras extremidades pode-se usar o nó em oito, ou o volta do fiel, que é seguro e permite um fácil ajuste e sempre mosquetões do tipo “K”. Pela nossa legislação, NR 35 Anexo 1, diz que talabarte sem absorvedor de energia deve ter até 90 cm.

Quando for maior que isso, como os amplamente utilizados na construção civil, deve possuir o absorvedor.

Como é uma via ferrata

Trilhas ou vias no Brasil que possuem alguns equipamentos de via ferrata

  • Marumbi – Abrolhos
    • Distância : 16,42 km
    • Dificuldade : Difícil
    • Próximo a Morretes-PR
  • Marumbi- Esfinge
    • Distância : 22,7 km
    • Dificuldade : Difícil
    • Próximo a Morretes-PR
  • Marumbi
    • Distância :  19,26 km
    • Dificuldade : Difícil
    • Próximo a Morretes-PR
  • Pedra do Baú
    • Distância : 4,01 km
    • Dificuldade : Moderado
    • Próximo a São Bento do Sapucaí-SP
  • Torre do Paiol Soledade
    • Distância : 34,78 km
    • Dificuldade : Moderado
    • Próximo a Soledade de Minas-MG
  • Serra do Cruzeiro Acari
    • Distância : 1,18 km
    • Dificuldade : Difícil
    • Próximo a Acari-RN
  • Marumbi noroeste
    • Distância : 19,62 km
    • Dificuldade : Difícil
    • Próximo a Marques-PR

 

 

Bibliografia

  • Alpi Orientali, le vie ferrate. Autor: R. Messner Anno: 1979,
  • Vie ferrate per principianti. Alto Adige, Dolomiti,lago di Garda.Autor: C. Ladurner Anno: 2006
  • Manuais de alpinismo e escalada CAI ( Clube Alpino Itáliano )
  • Manual IRATA ( the Industrial Rope Access Trade Association)
  • Normas técnicas da Comunidade Europeia
  • ai sentieri attrezzati alle vie ferrate. Autor: R. Mazzilis, L. Dalla Marta Anno: 1999 Formato
  • Un Gancio in Mezzo al Cielo. Autor: L. Marchisio, M. Carena Anno: 2001 Formato: Paginas: 320
  • Norma regulamentadora NR 35 Ministério do Trabalho e Emprego
  • Site: http://www.vieferrate.it
  • Cartilha Sicuri in ferrata SOCCORSO ALPINO SPELEOLOGICO LOMBARDO
  • Agradecimentos:
  • CAI Seção de Jesi.
  • Socorro Alpino e Speleologico XI região
  • Scuola Sibila de Alpinismo.

Sobre o Autor

Alexandre De Meo Gazinhato

Alexandre De Meo Gazinhato

Alexandre “Francês” Gazinhato é paulistano, Técnico em Segurança do Trabalho, Jornalista, Alpinista Industrial IRATA, escalador esportivo e membro do Clube Alpino Italiano e Gruppo Speleologico de Marche da Itália.

There are 6 comments

  1. Tiago Santos

    Interessante o artigo. Bem abortado o tema. Mas algumas considerações acho importante.
    As normas trabalhistas não se aplicam por N motivos ao ambiente esportivo. Incluído sua aplicação técnica. Os talabartes para ambiente industrial não foram desemvolvidos para os esforços de um fator de queda possível numa via ferrara.
    Além disso ao abordar o tema resgate tem uma opinião aí que preciso discordar: “Você resolveu andar até a montanha e se colocou em perigo por falta de aptidão ou treinamento, porque arriscar a vida de outra pessoa para te salvar”.
    Bem, pq quem vai a montanha teria menos direito a um resgate do quem vai a praia por exemplo?
    Informações sobre os riscos. Treinamento é importante. Sem dúvida. Mas não uma condição para a pessoa “merecer” ser resgatado

    1. Alexandre Frances

      Olâ Tiago Santos, obrigado pela participação no tópico, a questão do resgate é a politica deles aqui na Itália, não é minha opnião é realidade, se me passar seu email até te passo o comunicado que recebemos e a questão do porque abordar o resgate assim é que tratam-se de resgates extremamente complexos, busque este video no youtube para voce ver o que estou te falando:
      https://www.youtube.com/watch?v=R97MLJA4bsU
      Um outro fator importante aqui são as vitimas de avalanche que entram nas áreas que possuem aviso de perigo iminente, há um mês atras morreram dois socorristas que foram ao encontro de vítimas quando ocorreu uma segunda avalanche pois o gelo que se forma na crista da montanha veio abaixo na hora do resgate, ou seja poderia ter sido evitado estas varias mortes inclusive dos socorrista somente seguindo as instruções do avisa de avalanche. Quanto ao talabarte concordo com voce mas depende muito de como será usado, basta manter o fator de queda baixo, pior do que usam na cosntrução civil que está sempre no chão e é gigante com 1,75 m, pode ter certeza que na ferrata não será. Obrigado pela participação, é sempre bom trocar experiencias e pontos de vista.

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