Analisando em perspectiva: Qual é o objetivo final de escalar?

Por: Fernanda González

Eu, assim como acho que seja igual para todas as pessoas, gosto de encadenar uma via de escalada, passar por um crux de boulder, fazer uma primeira ascensão ou ganhar uma competição. Como todos cheguei a acreditar que tinha um talento natural para escalar, uma regletada de aço, força sobre-humana e até uma facilidade nata. Eu via escaladores fortes e famosos e os idealizava pensando que eram máquinas e mutantes com dom especial. Agora, depois de ter vivido um pouco mais, acredito que mais que ter nascido com uma habilidade especial e o mais importante é tê-la desenvolvido. Cair mil vezes mas voltar a tentar, desenvolver sempre o aspecto psicológico, sair constantemente da zona de conforto e, acima de tudo, superar os golpes no ego que muitas vezes nos limitam. Pois tudo está no aspecto psicológico.

Na minha vida de escalada aprendi que o fato de aproveitar, e me desconectar das coisas que me preocupam, são os principais pilares de meus finais de semana na rocha além, claro, de todo o esforço que coloco quando estou em uma via de escalada. Não comecei a escalar tão jovem como muitos e não me dedico somente ao esporte, mas sei claramente que sendo constante, priorizado o tempo dedicado e tentando escalar projetos que me desafiam psicologicamente poderei ampliar meu repertório de movimentos e meu potencial como escaladora.

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Outro dia me perguntaram qual é o objetivo final de escalar e me dei conta de que não há nenhum. Sempre tenho projetos de vias de escalada que quero subir mas nunca irão acabar. O objetivo não é de encadenar um 9a, e sim escalar mais e melhor. Quero melhorar minha técnica, minha escalada “à vista” e gostaria de provar todos tipos de estilos: escalar um boulder ou a uma via tradicional de várias enfiadas pelo simples prazer de poder fazer. Estar lá em cima em um momento especial no qual a única coisa que quero é agarrar um reflete e subir meu pé direito por 5 cm. Tudo está na mentalidade.

Uma vez li um livro que me tocou muito. O tomei como um ponto importante de reflexão e o sigo aplicando em todas as áreas da minha vida, incluindo no meu esporte. O livro fala sobre os dois tipos de mentalidade: a fixa e a de crescimento.

escalada3Mentalidade fixa é aquela me diz que sou boa ou sou ruim, capaz ou incapaz, tenho necessidade ou não tenho. A desvantagem desta mentalidade é que não se aceita erros. Se erro digo a mim mesma: “Melhor descer da via porque não está no seu nível e seguramente nem é seu estilo”. O ego tem um papel importante neste tipo de mentalidade e quer protegê-la para sempre. Isso porque ele não gosta de falhar e ficar mal. Se sou boa negativos me pede que fique somente em setores assim e que visite lugares predominantemente com esta característica.

Não pensa sequer em encarar vias positivas! Se tenho medo de me encordar sigo encarando somente boulder, porque isso me facilita a vida e assim terei mais êxitos. É difícil aceitar, mas às vezes deixo-me levar por esta mentalidade e depois tenho um sentimento ruim que não me deixa estar feliz como queria. Acredito que com várias pessoas se passa isso e é importante perceber e fazer algo a respeito disso.

Em compensação está a mentalidade de crescimento, na qual quero ficar perto todos os dias. Esta mentalidade diz que os melhores são “os melhores” sem querer ser “os melhores”. São os que focam em si mesmos sem se preocupar com os demais.

Querem trabalhar seus pontos fracos muito mais que os pontos fortes e passam muito tempo caindo em vias fáceis mesmo que possam estar em vias difíceis e negativas. Esta mentalidade valoriza o esforço, o processo, a constância e a humildade.

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Aqui o talento natural é visto como um plus, mas não como algo determinante. Acredita que a matéria prima já está aí, mas há de manufaturar-la para que seja convertida em algo palpável. Na escalada se traduziria em tentar diferentes estilos, novos lugares de escalada e tentar todos os tipos de disciplinas.

Claro que fará algo mais atrativo, mas é incrível tentar de tudo e ter dias difíceis ou ruins, pois são eles que colocam nossos pés no chão e nos ensinam para onde devemos orientar nosso treinamento e energia. Uma mentalidade que foca em procurar aproveitar o processo de escalada mais que o resultado final. Pois tudo está no aspecto mental.

Enfim, acredito que se pode fazer algumas mudanças de crescimento mental, afinal tudo o que queremos é estar bem e aproveitar sempre. Ou não?

Bibliografia recomendada

Dweck, Carol. Mindset: The New Psychology of Success

Tradução autorizada de: http://www.freeman.com.mx/

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