Crítica do DVD Reel Rock 2011

O Reel Rock Tour é um evento de filmes ,quase que exclusivamente de escalada , e idealizado pelas duas maiores produtoras do gênero nos EUA: Sender Films e BigUp Productions.

Nas primeiras edições do evento, eram exibições em poucas cidades dos EUA. Em sua maioria cinemas de cunho mais artístico, e não os Stadium Theaters, de cunho mais comercial, que dominam os EUA e Brasil. Após seis anos o evento cresceu e hoje há exibições em centenas de locais nos EUA e Exterior.

Para se ter uma idéia do crescimento do evento somente neste ano de 2011 o evento passou por Irlanda,Colômbia. Nova Zelândia, Chile, Inglaterra, África do Sul, Austrália, Suíça, Finlândia Argentina, Bélgica, Venezuela, Dinamarca, Hungria, Holanda, Lituania, Israel, Tailandia, Coréia do Sul e Polônia.

Muitas salas de exibilção nos Estados Unidos tiveram sessões esgotadas.

Muito disso pela qualidade dos vídeos exibidos, e por também ser uma forma de reunir a comunidade escaladora local em uma confraternização. Além dos filmes nos EUA há ainda a presença dos participantes de alguns dos filmes, além de outras personalidades do esporte outdoor, sorteio de brindes pelos patrocinadores e algumas palestras.

Infelizmente ainda não há exibições do evento no Brasil.

A edição deste ano de 2011 teve uma característica que os outros não tiveram que foi a ausência de um grande lançamento como atração. Nos anteriores houveram filmes aguardados com ansiedade como “First Ascent”, “Sharp End”, “Dosage 4”, “Progression” e “First Ascent – the series”.

Houve então uma maior quantidade de pequenas produções realizadas tanto pelos produtores do evento como outros produtores “emergentes” convidados ao evento.
O DVD foi liberado para a venda em novembro, e nesta última sexta-feira dia 2 de dezembro foi liberado para Download.

O preço para a compra é de US$ 24,95 (US$ 29,90 o DVD), e pode ser efetuado com cartão de crédito internacional. O filme, assim como os extras , é disponibilizado todo em alta resolução (HD – 720p) e em formato de reprodução em .mov (formato Apple Quicktime). Cada arquivo contém cerca de 1.5Gb podem ser baixados imediatamente após a compra. Com uma internet de velocidade razoável (10 mbs) toma-se cerca de 2 horas para finalizar o download.

O DVD inicia mantendo a tradição de exibição de uma versão entendida do trailer inicial divulgado pela internet. Porém na edição deste ano ao anunciar os produtores dos vídeos há o anúncio inédito que de além dos tradicionais (Sender Films e BigUp Produtions) há outros produtores . Uma novidade que tende a ser cada vez mais freqüente no evento.

Ice Revolution

O filme “Ice Revolution” foca em uma escalada nas proximidades de uma cachoeira no Canada, Helmcken Falls – no estado de British Columbia. A cachoeira possui mais de 150 metros de altura e próximo a ela há uma parede extremamente negativa que fica coberta de gelo oriundo das gotículas.

Este tipo de inclinação em escalada em gelo (45°) é muito difícil de se encontrar na modalidade. Por conta disso os escaladores Tim Emmet (aquele mesmo que apresentou o Psicobloc em vídeos da série Dosage) e Will Gadd, um peso pesado da escalada em gelo e um dos maiores nomes da história do esporte.

O filme traz uma introdução à escalada em gelo, e em como são os campeonatos realizados. Mostram de maneira rápida as diferenças e dificuldades desta modalidade. Com um bom roteiro apresenta o desafio dos escaladores de maneira eficiente e sem muitas firulas.

A partir daí o foco do filme fica totalmente por conta da dupla de escaladores. Em uma das cenas mais impressionantes do local do desafio há uma verdadeira chuva de estalactites de gelo, que poderia machucar o mais desavisado que aparecesse embaixo da via de escalada.

Filmar em locais que há neve exige muita habilidade de quem maneja e câmera devido ao excesso de branco captado. Por esta característica louva-se a qualidade de imagens que foram captadas, sem aquele branco que cega e atrapalha na visualização de detalhes em filmes.

Com movimentos bem plásticos, e tudo isso em um frio de -14°C, o filme é muito interessante de se assistir, especialmente porque não foca os escaladores como heróis (como eram feitos em algumas produções passadas) e sim como pessoas em busca de uma escalada diferente.

O importante do filme também foi não terem inflado demasiadamente o ego de ninguém, e sim permitir que cada personagem pudesse falar de si, de seu companheiro e de sua vida.

O filme é quase que obrigatório para toda e qualquer pessoa que deseja se dedicar a escalar em gelo, devido a grande quantidade de termos técnicos, movimentos característicos da modalidade e ambiente de prática.

O filme é diversão garantida, e entretém quem assiste, sendo ele escalador ou não, pois consegue colocar na medida certa elementos que agradam qualquer tipo de platéia.

Cold

O filme “Cold” exibido no DVD da “Reel Rock” na verdade é uma edição do filme especialmente feita para ser exibida no festival.

“Cold” vem arrebatando vários prêmios em festivais de filmes de montanha por onde é exibido (e provavelmente deve ser exibido no Brasil em 2012 nos festivais existentes)e é uma produção do fotógrafo Corey Rich .

O filme é fruto de uma expedição à uma alta montanha de mais de 8000 metros no Paquistão (Gasherbrum III). Para aumentar ainda mais o desafio a expedição tinha como missão fazer cume no inverno, sob frio que chegaram até -40°C. Por este motivo pode-se imaginar o motivo do título do filme (Cold = Frio).

Apenas de ter uma simples câmera, o olhar de fotógrafo profissional de Corey fez a diferença na captação de imagens. O filme tem uma narração do próprio fotógrafo com um texto muito mais profundo e questionador do que entusiasmado.

Esta matemática incomum em filmes outdoor resultou em um filme profundo e que faz questionamentos que todos nós fazemos ao enfrentar um desafio que aparentemente é maior que nós mesmos.

Para aumentar ainda mais a dramaticidade do que vai sendo relatado a cada imagem, sempre que possível há a afirmação em diálogos dos integrantes da expedição “e está frio…”.

As imagens mostradas no filme não somente focam as paisagens brancas e tempestades de neve, típico deste tipo de filme, há também closes dos corpos de escaladores que morreram na tentativa de chegar ao cume. O detalhe destas imagens mostradas são feitas juntas com a narração em tom de dramático faz refletir sobre que tipo de aventura se escolhe ao escalar.

Perto do final na descida do cume há um incidente que surpreende a todos. A cena seguinte é muito angustiante.

O filme está com uma edição primorosa, passa a sensação de que quem assiste faz parte da expedição. “Cold” , nesta edição especial para o Reel Rock já impressiona, fazendo com que haja uma obrigatoriedade de ver o filme completo a todo e qualquer pessoa que deseja fazer uma alta montanha.

Dawn Wall

Os escaladores Kevin Jorgeson e Tommy Caldwell são escaladores consagrados pelos seus feitos e suas capacidades dentro da escalada. O filme retrata o sonho da dupla em realizar uma via considerada a mais difícil de Yosemite.

Esta mesma via nunca foi escalada em livre e sim somente em escalada artificial. A via que possui mais de 915 metros de altura de pura rocha e tem cordadas de 10a, 10b,11a até a mais difícil 11c. Todas estas filmadas com boa qualidade de ângulos e closes.

Para transpor o desafio, chegam a escalar mais no período da noite, por causa do Sol impiedoso durante o dia. Portanto ficam até às 1:30 da manhã escalando com headlamps.

As filmagens procuraram ao máximo fazer com o espectador fizesse parte da aventura, e por isso mostraram os escaladores em situações inusitadas como urinando ou usando

o shit-tube. Não são imagens bonitas de se ver em um filme, mas mostram que a escalada em locais como Yosemite não possui conforto.

O filme tem um desenrolar bem tranqüilo, e faz uso de imagens externas sem exagerar. Usando inclusive timelapse dos escaladores na medida certa, assim como a duração de cenas em que estão malhando movimentos em partes difíceis.

O roteiro do filme seguiu uma linearidade particular e característica de Josh Lowell (produtor do Filme). Ficou evidente que o produtor da serie “Dosage” amadureceu neste tempo afastado de grandes produções. O que joga bastante expectativa em seus projetos futuros.

Obe e Ashima

O filme “Obe e Ashima” é o melhor do conjunto contido no pacote da “ Reel Rock” 2011. O filme aparentemente retrata a escaladora mirim Ashima de 9 anos de idade e tida como uma grande revelação da escalada.

Digo aparentemente porque na verdade o filme mostra o lado de Obe Carrion, escalador que já foi dos mais badalados nos EUA, junto com Chris Sharma, e que acabou trilhando um caminho um tanto diferente.

O escalador que durante um período parou de escalar, voltou a morar com a mãe e se afundou em depressão e alcoolismo. O filme mostra de maneira bem realista como é que pode ser a vida de uma pessoa que abraça o esporte sem ter um plano seguro para o futuro. O emocionante relato de Obe sobre como a escalada o recuperou do buraco emocional o qual estava metido vale por todo o DVD.

Após voltar a trabalhar em uma academia de escalada em NY, Obe começa a treinar crianças para a escalada. Lá ele conhece Ashima, uma japonesinha de 9 anos que tem um talento nato para a escalada. O desenrolar do restante do filme é focando nas realizações de Ashima em campeonatos mirins.

Para o encerrramento do filme, todos vão para Hueco Tanks, zona de boulder mais importante dos EUA. Lá encontram alguns escaladores , já famosos, que ficam boquiabertos com as façanhas da menina. Suas cadenas de V10,V11 e até mesmo um V12 impressiona qualquer um.

O lado humano da menina também é retratado com elegância e eficiência, em que ela chora quando erra um movimento próximo da cadena.

O filme evidencia o grande amadurecimento de Josh Lowell, e que faz algo nunca antes motrado em filmes outdoor: para onde vão os escaladores quando velhos. Um ponto que até o momento foi pouco explorado e que foi feito com maestria pelo produtor.

O filme por ter abordado uma linha mais realista e documentária é altamente indicado para toda e qualquer pessoa.

Race for the Nose

Dentro do esporte de escalada de tempos em tempos há algum tipo de marca a ser batida, que em nada acrescenta ao esporte, e mesmo assim gera frisson com a comunidade.

A discussão sobre quem foi ou quem vai ser a pessoa que escalar mais rápido uma via em yosemite é o ponto central do filme “Race for the nose”.

À luz da razão a discussão sobre a utilidade de se escalar mais rápido a rocha The Nose em Yosemite é tão produtiva quanto discutir-se o sexo dos anjos.

A marca é tão importante, por exemplo, quanto ao do homem com maior número de tatuagens no corpo. Igualmente não irá mudar a história das tatuagens no mundo, mas é interessante de saber.

O filme trata de maneira bem americana o fato de que há várias duplas de escaladores tentando ostentar o título de escaladores que finalizaram mais rápido a conquista.

Uma disputa que foge à razão devido à repercussão e frisson que causa os resultados.

Com roteiro bem conduzido, os produtores conseguem colocar cores interessantes na disputa tão superficial, e torná-la cômica em vários aspectos.

Iniciando com um histórico da escalada do “The Nose”, até os dias de recordes impressionantes a galeria de vídeos e fotos, com seus personagens prende quem deseja ver um filme divertido, sem a pretensão de marcar época.

Neste aspecto o filme funciona bem, e prende o telespectador.

Alguns vídeos são antológicos, como os pioneiros de escalada em Yosemite e os escaladores com cabelos do George Michael e calças de lycra rosas e polainas no estilo Flashdance.

Ao final após a conclusão da escalada que desafiava a marca a ser batida ilustra bem como reagem as pessoas quando tem uma marca batida.

O do desejo de recuperação do lugar ao pódio. Apesar de TODAS as pessoas que tentaram bater o recorde dizer que a eles não importavam tal marca, estavam lá determinados a romper a barreira nem que fosse por um segundo.

O filme é divertido, e entretém. Mas só isso, está longe de ser um clássico, ou até mesmo obrigatório em termos de história e roteiro.

O que merece a atenção de quem deseja assisti-lo são todas as técnicas usadas para filmar uma escalada de quase 1000 metros de rocha em menos de 2horas, e a dramaticidade captada pelos produtores.

Sketchy Andy

O filme Sketchy Andy retrata a figura singular do americano Andy Lewis, que é considerado o primeiro slackliner profissional dos EUA.

Em poucas palavras Andy é daquelas pessoas malucas de pedra, que é gente boa e carismática que acaba por também motivar quem está à sua volta a seguir suas loucuras.

O filme com roteiro bem escrito mostra como surgiu a prática esportiva do slackline e sua popularização, introduzindo o protagonista. Ao focar mais no protagonista suas manobras, a 1 metro do chão, são impressionantes, e pouco repetidas em praticantes comuns.

A partir de declarações de amigos e pessoas que o cercam houve a idéia de mostrá-lo fazendo highline, e executando saltos do slackline de esfriar a barriga de quem assiste, pois as probabilidades de acidente fatal são bem grandes.

Porém Andy parece não se importar, pois como mostrado no filme seu histórico de atos imprudentes nos esportes que praticou é constante.

O filme, porém, parece se perder a partir do meio, pois apenas se preocupa em focar nas atitudes insanas de Andy , tanto no slackline quanto em atos corriqueiros do cotidiano. Para exemplificar mesmo uma “simples” travessia em um cânion, faz questão de ele e outros companheiros fazer pelado.

Ao final do filme realizam um rope-swing de 200 metros com cada pessoa da equipe de filmagem para que mostrasse os créditos. Um final muito criativo, para um filme que está longe de ser o melhor trabalho de Peter Mortimer.

Uma oscilação de seu trabalho conhecido por ser de tanta qualidade e vanguarda que não é comum ao produtor, que ainda tem, e muito, crédito com a comunidade outdoor por seus trabalhos.

Os Extras

Algo que ainda precisa ser trabalhado em filmes outdoor é os extras contidos nos DVD´s vendidos. No caso do “Reel Rock”, há vários minutos apenas com anúncios (muito bem produzidos, é verdade) dos patrocinadores.

Há nos DVD´s ainda os ganhadores do concurso de vídeos de internautas votado por público e crítica os quais contém muito bom humor.

Finalizando os extras há trechos de cada filme que acabaram cortados no momento de ir ao ar, e alguns (mas não muitos) bloopers.

 

Nota do Blog de Escalada:

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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