A Moda Outdoor ainda é muito “masculinizada”?

Já ouvi muitos, algumas dezenas talvez, de escaladores homens confessarem que as roupas outdoor para o público feminino poderiam ser mais femininas.

Muitos de nós já nos perguntamos sobre a qualidade técnica e estética de diversas marcas de roupas outdoor que estão no mercado.

Algumas questões sempre geram debate no universo feminino principalmente no que diz respeito à “masculinização” dos cortes que não caem tão bem no corpo da mulher, cheio de curvas e características próprias.

Foto: Juliana Falchetti

Foto: Juliana Falchetti

Em uma entrevista exclusiva para a Revista Blog de Escalada entrevistei Isabela Dal-Bó, coordenadora do curso em Vestuário e professora do curso de Moda no Instituto Federal Catarinense, que contou um pouco sobre o universo da moda outdoor.

Formada em Design de Moda e Especialista em Gestão e Marketing de Moda ela afirma que, mais que estética, a moda outdoor ainda está investindo em tecnologia, mas isso vai mudar.

Qual a diferença entre a Moda Outdoor e Lifestyle?

A grande diferença está nas pessoas que utilizam o conceito de estar ao ar livre.

O estilo Lifestyle é um pouco da moda outdoor utilizada no dia a dia.

É aquele público que não dispensa as roupas leves e confortáveis das atividades na natureza em seu cotidiano e faz a moda outdoor ultrapassar a barreira da prática do esporte para ser incorporada às atividades habituais.

Quando surgiu o estilo outdoor de se vestir?

Foto: backpackinggirl.blogspot.com

Foto: backpackinggirl.blogspot.com

O estilo foi se aprimorando junto com a evolução das técnicas e desafios em que os praticantes das diversas modalidades viviam. A princípio usavam as roupas disponíveis sem muita preocupação com conforto e segurança, mas logo começaram a perceber o que facilitava e o que limitava os movimentos, por exemplo.

As resistências à abrasão, frio e umidade foram sendo considerados como pontos importantes na hora de praticar as caminhadas em montanha, gelo, escalada, etc.

A profissionalização do esporte também teve papel fundamental nessa evolução.

Através do tempo e do desenvolvimento de novas tecnologias surgiram tecidos que agregaram valor às roupas tornando-as cada vez mais facilitadoras para a prática das atividades outdoor.

Por que as pessoas confundem moda praia/ginástica com moda outdoor?

Essa confusão existe, pois muitos adeptos de atividades outdoor utilizam peças que fazem parte do segmento moda praia/ ginástica para praticar as atividades ao ar livre, como a famosa calça leggin e shorts, por exemplo.

Além do conforto que as peças de ginástica propiciam a maior oferta e acesso a esse tipo de vestuário gera um pouco dessa confusão.

A falta de conhecimento acerca das vantagens que uma roupa técnica oferece é também um motivo bastante forte.

Foto: hakkahonu.cl

Foto: hakkahonu.cl

Por que a moda outdoor ainda é tão masculinizada?

A “masculinizacão” do estilo se da por alguns motivos.

Poderia citar a modelagem mais ampla para trazer maior conforto, mas acredito que o número de praticantes do sexo feminino até pouco tempo não era tão expressivo para estimular uma produção melhor direcionada a esse público.

Foto: fmanha.com.br

Foto: fmanha.com.br

Esse panorama está mudando radicalmente e a cada dia vemos mais mulheres praticando atividades outdoor e se destacando nos circuitos profissionais.

Consequentemente as marcas irão aumentar os investimentos não só em tecnologia, mas em design também, para tornar os cortes, estampas e detalhes mais femininos.

 No Brasil não vemos uma ascensão significativa do vestuário no estilo outdoor. O que ocorre?

A ascensão se da com o crescimento de adeptos ao esporte e como consequência a necessidade de roupas especializadas.

No Brasil a moda voltada para esportes como surf ainda é destaque, mas as montanhas estão ganhando seu espaço também.

Quanto maior a procura mais as marcas farão investimentos e se desenvolverão para atender às necessidades específicas do público outdoor.

Investimentos em propaganda para divulgar os lançamentos também são importantes, pois torna mais acessível a informação sobre os benefícios de novas tecnologias e as vantagens de cada peça para o melhor desempenho do atleta.

Existe um padrão de cortes de roupas outdoor que permanece por anos. O que falta para mudar? Aceitação do público brasileiro ou falta de investimento em pesquisas, profissionais qualificados?

Acredito que essa permanência de corte por anos seja um padrão que funciona razoavelmente bem para a escalada. A mudança ocorre, mas não é tão exagerada.

Ela é mais visível nos materiais tecnológicos que surgem como tecidos resistentes, respiráveis, transpiráveis, etc. Os cortes funcionam e novas tecnologias são agregadas aos modelos já existentes que tem aprovação do público, mas quero ressaltar que sempre é possível evoluir no quesito design.

Sobre os profissionais de moda qualificados existe um pequeno problema. Muitas vezes o estilista que cria os modelos não é praticante do esporte, então não consegue visualizar as limitações da “roupa X movimentos”, entre outros. Outras vezes, porém, o inverso ocorre.

Quem desenha as peças é somente praticante da atividade e não tem uma formação técnica no vestuário, por isso é importante uma parceria entre empresas, profissionais e esportistas, assim, ocorrerá uma aceitação melhor das peças.

foto: Peruzzo

foto: Peruzzo

A moda outdoor segue tendências de moda?

Sim, mas de uma maneira diferente. As tendências são principalmente de tecnologias do mercado de tecido como a de novos materiais que facilitam e auxiliam nos movimentos, na transpiração, na secagem rápida, entre outros benefícios.

As cores também mudam. As empresas costumam seguir um pouco a cartela de cores das estações, assim eles mantêm as formas que os praticantes utilizam e aprovam, mas com cores diferentes e atuais.

Você acha que a prática de montanhismo/escalada (o estilo de atividade e suas características) exigiria uma moda altamente especializada como ocorre com o ciclismo, o tênis, o futebol?

Uma moda especializada é muito importante, pois temos que pensar não só na estética e no conforto, mas na segurança.

O vestuário pode ser também considerado um item de segurança na medida em que desempenha funções que vão além do vestir, como as cores que podem facilitar na localização, tecidos inteligentes que ajudam a transpor o suor, principalmente em regiões frias, tecidos que formam camadas isolantes, corta vento, impermeáveis, conceito easy care.

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