Entrevista com Maximo Kausch

Maximo_Kausch

Dentro da área da psicologia há uma crença de que todo ser humano tem potencial para atingir um patamar de excelência.

Mas é inegável que todos podem ser médicos, por exemplo, mas poucos serão um Ivo Pitanguy. Muitos podem ser jogador de futebol, mas poucos podem chegar a um nível de um Pelé, Zico ou Maradona.

Não seria nenhum exagero dizer que muitos podem ser escaladores de alta montanha, mas poucos podem ser um Máximo Kaush.

Reconhecidamente um dos maiores nomes do montanhismo mundial, Máximo Kaush é detentor de marcas impressionantes que já atinge o patamar de mito, não somente de atleta.

Mais importante ainda que suas marcas, Kaush é dono de uma personalidade e determinação existente em muito poucas pessoas, sejam elas atletas ou não.

Ainda preferindo viver um estilo “low profile”, sem utilizar seus feitos para capitalizar com sua fama, Máximo Kaush aceitou nos conceder uma entrevista, em que fala sobre sua vida, carreira, projetos e analisa friamente como está o mercado de alta montanha da atualidade.

Maximo, hoje sem dúvida você é um dos maiores nomes do montanhismo Sulamericano, e mundial. Você pensou em chegar a este nível quando começou?

Foto: Acervo pessoal Maximo Kausch

Foto: Acervo pessoal Maximo Kausch

Sem dúvidas se há algo que aprendi escalando tantas montanhas é o quanto ainda falta escalar.

É inevitável chegar ao cume de uma dessas montanhas e observar um horizonte repleto de muitas outras pensando em tudo o que você ainda não escalou.

Acredito que existam outros alpinistas sul-americanos extremamente fortes e considero estes nomes maiores que o meu.

Quando comecei sempre soube de ia de uma forma ou de outra escalar muitas montanhas só que nunca imaginei poder ter essa oportunidade de fazer tantas!

Dentro da modalidade de alta montanha há praticantes que procuram capitalizar com palestras motivacionais. Qual a sua opinião a respeito disso?

Acredito que alpinistas realmente tenham um bom impacto no mundo corporativo devido ao que enfrentamos na montanha. Poder enxergar isso e transmití-lo é um dom que não todos tem.

No entanto o próprio alpinista deve ter muito cuidado para que tantos elogios não subam à cabeça e isso não impacte nos seus futuros projetos.

Foto: Acervo pessoal Maximo Kausch

Foto: Acervo pessoal Maximo Kausch

Você sempre está quebrando recordes. Como você escolhe os seus desafios?

Escolho coisas que ainda não foram feitas.

Uma das coisas que impulsionou o meu último projeto nos Andes foi o fato de sabermos tão pouco sobre os Andes.

Muito se fala sobre o Himalaia e sobre suas montanhas com mais de 8000 metros mas não sabemos o que temos no nosso quintal. Acho que isso tem que acabar, por isso decidi explorar a centena de montanhas de 6000 andinas e publicar o máximo de informação que eu consiga.

No entanto enquanto escalava os 6000, comecei a namorar as montanhas de 5000, há 885 delas no continente! Pelo menos uma centena é virgem!

Há muito marketing a respeito da escalada de Alta Montanha, você acredita que isso banaliza o esporte? Porque?

Foto: Grace McDonald

Foto: Grace McDonald

Acho que isso é exatamente o que o nosso esporte está precisando, mídia.

Acho que isso evidencia muito o esporte e estabelece leis e diretrizes que regulamentam o esporte.

A profissão de guia de montanha por exemplo, ainda nem existe direito no nosso continente!

O problema da mídia, eu acredito, é na cabeça do leigo.

Trabalho guiando expedições em alta montanha e vejo que cada vez mais aparecem mais leigos com uma idéia totalmente errada sobre a escalada de montanhas.

Pessoas estão trazendo o seu imediatismo de “quero tudo agora” à montanha. Em um ambiente onde a paciência é o que impera, este tipo de mentalidade não funciona.

Aprender a se virar bem numa montanha demora muito tempo, não se pode aprender tudo em 1 mês.

Muitos procuram idolatrar grandes atletas e alguns até mesmo glorifica-los como heróis. Você se considera um herói? Porque?

Foto: Acervo pessoal Maximo Kausch

Foto: Acervo pessoal Maximo Kausch

Não sou herói, sou um cara normal que tem um trabalho como qualquer pessoa.

Acho que a única diferença é que fui atrás do que eu considerava legal há muito tempo e sem escutar o que a sociedade tinha para dizer à respeito.

Cada vez mais vejo “ícones” aparecendo no montanhismo brasileiro que se idolatram por terem feito algum cume ou mesmo 7 deles porém o que faltou foi eles abrirem os olhos e ver o mar de montanhas que só se pode ver lá de cima.

Infelizmente o bombardeio de elogios acaba piorando a situação.

Muitas vezes questiono se essas pessoas realmente gostam de escalar montanhas?

Está havendo uma grande quantidade de realização de expedições ao Aconcágua e Everest. Qual a sua opinião a respeito disso?

Foto: Acervo pessoal Maximo Kausch

Foto: Acervo pessoal Maximo Kausch

Vejo essas montanhas como uma área de sacrifício.

Acredito que a natureza consegue sim suportar pequenos circos como são essas duas montanhas por uma temporada do ano.

A oposição à esse tipo de expedições vem principalmente de 2 linhas de pensamento.

A primeira vem dos que acreditam que “escalador que é escalador é pobre”.

Esse tipo de pensamento que se encontra principalmente entre os escaladores de rocha, taxa de “marketeiro” todo aquele que ganha dinheiro com as montanhas.

Vejo que indiretamente eles são contra o desenvolvimento do esporte.

A outra linha de pensamento vem daqueles que afirmam que expedições comerciais em montanhas causam danos ao ambiente. De fato concordo, mas todos devem concordar que há prioridades.

Muitos ficam revoltados ao encontrar um papel de chocolate na trilha que eles tanto amam e praticam atividades regulares ao ar livre.

Eles coletam o papel, guardam no bolso e escrevem sobre isso no seu Facebook.

No entanto na ida e na volta à trilha eles passaram por 4 lixões à céu aberto, 2 pedreiras, toneladas de lixo e desmatamento na beira da estrada. Isso tudo é ignorado.

Foto: Pedro Hauck

Foto: Pedro Hauck

Muitos criticam e expõem fotos de 100 quilos de lixo que foram encontrados no Everest mas o rio da esquina de sua casa é poluído e a pouca mata que resta em sua região continua sendo dizimada…

Como falei, há prioridades!

De fato em minhas expedições coletamos todo nosso lixo e tentamos deixar o lugar da mesma forma que encontramos mas sei que há prioridades e não são as montanhas.

Acredito que expedições comerciais possibilitam que o leigo chegue cada vez mais alto, mais longe e mais difícil.

Acredito que isso traz mais benefícios que prejuízos ao esporte.

Criando ilhas de sacrifício como o Everest e o Aconcágua estamos testando e melhorando nossos equipamentos, estamos ganhando mídia e ganhando adeptos quem cuidarão nossas montanhas no futuro.

Para um montanhista experiente, qual o valor que a comunidade de escaladores de alta montanha da ao “Seven Summits”?

Acho o seven summits extremamente comercial mas acho que é um ótimo começo.

O que não dou valor é para aqueles que fazem sua “carreira” nos 7 cumes e param de escalar após isso.

Pessoalmente acho que essas montanhas não passam a vivência do que realmente é o outro 99.9% de montanhas que há no mundo.

Acredito que começar em montanhas comerciais como qualquer um dos 7 summits é uma forma segura de começar e se testar em um ambiente que é quase que totalmente controlado.

O excesso de mídia no entanto converteu o 7 summits num verdadeiro desafio do alpinismo.

Foto: Acervo pessoal Maximo Kausch

Foto: Acervo pessoal Maximo Kausch

Apesar de ser um dos grandes montanhistas mundiais você não conta com muitos patrocínios. Porque?

No momento conto com o apoio de algumas marcas no Brasil e na Argentina, eles me dão equipamentos que algo que consumo muito nas minhas expedições.

Agora patrocínio mesmo é algo que não existe.

Isso é um mito que foi criado pelos leigos.

O patrocínio no Brasil não depende de méritos e não depende de sua exposição na mídia.

Este depende quase que exclusivamente de quem você conhece.

Infelizmente a grande parte dos profissionais de marketing brasileiros ainda precisam de mais algumas décadas para enxergar certas coisas. Tudo ainda depende de amizades e networking.

Como passo 8 a 9 meses por ano na montanha eu não tenho o tempo necessário para fazer essas amizades e talvez algum dia ganhar 200 reais e uma camiseta de uma grande marca.

Tem marcas americanas grandes que se instalaram há pouco no Brasil mas não chegam nem a responder um email. Acredito que esse tipo de mentalidade vai continuar por uns 20 anos.

Quais seriam os 5 primeiros passos que alguém que queira começar a escalar alta montanha deveria dar?

Foto: Acervo pessoal Maximo Kausch

Foto: Acervo pessoal Maximo Kausch

1 – Pergunte-se: Porque quero quer ir à montanha? Sou feliz enquanto estou lá? Se o motivo de você ir lá for por causa das outras pessoas, você vai se dar muito mal.

2 – Comece escalando com alguém experiente, erros custam caro lá em cima. Comecei escalando por conta própria sem saber absolutamente nada. Não recomendo isso.

3 – Seu objetivo na montanha deve ser o de se divertir. Claro que há momentos que você sofre, porém passar deles e encontrar diversão nestas situações é a essência da escalada. O cume deve ser apenas um bônus. Não vá para a montanha com a missão de chegar ao cume pois é assim que você não chega.

4 – Sempre tenha novas metas e projetos. Não escute aqueles que dizem que algo é impossível. Com paciência e determinação você escala qualquer uma!

5 – Saiba quando desistir. Muitas vezes o sucesso de uma expedição não depende de você. As montanhas que mais ensinaram foram aquelas que não consegui escalar. (Além do que é você tem uma boa desculpa para voltar lá!)

Foto: Grace McDonald

Foto: Grace McDonald

Você passa a impressão de estar sempre nas montanhas, há algum período do ano que você procura voltar para a cidade para descansar? Porque?

Escalar montanhas grandes com muita frequência não é nada saudavel.

O tempo de descanso não é opcional, é a parte essencial de qualquer expedição.

Passo 2 a 3 meses por ano, em intervalos quebrados, descansando nas capitais mais próximas das regiões que escalo.

O problema é que cidades são muito burocráticas, esse pessoal que mora em cidades é maluco!

Valeu!

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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