Caretas e boulders: Um projeto fotográfico com atletas no momento do Crux

O que procura a fotografia de escalada?

A plasticidade de uma via ou boulder, a beleza do escalador em si mesmo, do ambiente onde esta escalando ou, talvez, o free spirit que os escaladores tanto falam. Mas porque não mostrar uma outra “cara”, ou melhor, literalmente, a cara de cada um deles e todo o universo que ali pode estar representado?

Sempre que ia escalar com um grupo de amigos, não podia deixar de reparar em suas expressões faciais enquanto escalavam, principalmente na hora dos movimentos chave das vias sobretudo nos boulders. O mais curioso é que cada reação facial era muito pessoal e se repetia muitas vezes o que chamou muito minha atenção. Pensei que se o rosto funciona como a “tradução” mais instintiva do esforço realizado pode ser interpretado também como uma especie de reflexo da personalidade de cada um.

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Foto: Daniel Paulino Nogueira

Daí veio a ideia de fazer um ensaio fotográfico onde a intenção era retratar a personalidade fazendo um paralelo com as caretas captadas justamente no crux dos boulders escalados. O resultado foi  bem curioso, com um lado intruso bastante latente. Valente, confiado, desconfiado, medroso, inexperiente, pode-se ver de tudo um pouco neste ensaio.

Uma segunda parte do projeto inclui os relatos de alguns dos escaladores que aparecem nas fotos, através da resposta à seguinte pergunta: O que você pensa antes e durante o crux de um boulder?

O mais incrível foi a comparação das respostas com as fotos de cada um deles. O resultado deste experimento fotográfico foi incrível em muitos sentidos, e em alguns dos indivíduos é evidente a relação entre o retrato, sua personalidade e o que pensam no momento chave.

A seguir deixo algumas das respostas à pergunta anterior, o mais interessante é tentar fazer a comparação de todas as informações.

O que fala cada olhar, cada expressão?

1. R.C.:

Antes do boulder foco no meu corpo, conectando todos meus neurônios com meus músculos e tendões e tento eliminar tudo o que não é parte deste momento. Tento meditar o momento.

Enquanto estou no boulder o grande objetivo e a máxima motivação é não estar presente, é entrar num estado de pura fluidez, de desaparecer neste mesmo ponto do universo e voltar à consciência tocando o crashpad depois de ter tocado o topo.

Foto: Daniel Paulino Nogueira

Foto: Daniel Paulino Nogueira

2. R.B.:

Levando em conta o pouco tempo que tenho no esporte, pois faz um ano e meio desde a primeira vez que coloquei  a mão em uma agarra. A verdade é que olhando de fora parecia incrível e o que sinto quando escalo é igualmente incrível. Antes de entrar em um boulder é simples: repetir a sequência mentalmente, me animar com um “você pode, sabe fazer!“.

Em escalada de boulder é mais simples ainda, somente escalar, somente penso em colocar bem os pés, agarrar o reglete corretamente e escalar.

O crux, no meu grau máximo , que foram poucos: primeiro a euforia que se acalma em seguida depois de gritar, seguido de meu ego que ainda segue subindo e me fala desde cima: “Você é um frouxo, não foi tão difícil assim, consegues fazer muito mais”. Depois terminando com um estado de bem estar que não sei bem se é orgulho + euforia do que acabo de fazer + já não precisa fazer mais nada.

Foto: Daniel Paulino Nogueira

Foto: Daniel Paulino Nogueira

3. G.L.:

Nada mais além do momento presente de força, se eu ficar distraído, eu caio. Por isso, o melhor, é me concentrar no movimento acompanhado de um bom ritmo de respiração, como se fosse uma meditação ativa.

É uma satisfação equivalente ao esforço realizado.

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Foto: Daniel Paulino Nogueira

4 – C.H.

Na escalada esportiva – Bem, foi uma boa vida! Todas as vezes que estou com a cadeirinha assegurando-me, penso que se o pior – a corda arrebentar, a cadeirinha miraculosamente romper e eu espatifar no chão – acontecer, foi uma vida boa até este ponto. Sou muito grata, e apaixonada pela vida e as pessoas queridas que conheci. Eu tenho sido abençoada com todas as oportunidades de viver, amar, experimentar e em todos esses momentos fazer algo que sou apaixonada. Existem piores maneiras de morrer, então for para ser no momento do crux, vamos!

No Boulder: Use os abdominais! Mexe a bunda!! Seus dedos e mãos vão “grudar”! Você é forte o suficiente!! VAMOOOOOS!!

Foto: Daniel Paulino Nogueira

Foto: Daniel Paulino Nogueira

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Foto: Daniel Paulino Nogueira

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Foto: Daniel Paulino Nogueira

Foto: Daniel Paulino Nogueira

Foto: Daniel Paulino Nogueira

Fotógrafo entusiasta brasileiro, natural do Rio de Janeiro, com especial interesse pela temática de aventura e esportes de ação. Escolheu a Catalunha, mais precisamente Barcelona, como base oficial, onde desenvolveu alguns de seus primeiros movimentos na fotografia, como a exposição “Vibe” de Montaña, realizada na sala Deu Dits em 2015. Seu maior incentivo é explorar lugares e culturas menos comuns, o que o leva a situações autênticas e muitas vezes inesperadas. No momento, vive em Kidafell – Islândia, onde pretende desenvolver seu próximo projeto fotográfico, retratando o potencial da ilha para prática de esportes “outdoor”, bem como sua cultura única.

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