Relato de uma escalada no Dedo de Deus

Faz muito tempo que queria repetir a escalada do Dedo de Deus, a primeira vez foi em 1997, junto com a Sibeli, o Vécio, Alan e o Marcelo (amigo do Vécio), daquela vez levamos 19 hrs para completar a escalada.

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Foto: Anastacio da Silva Junior

Anastacio da Silva Junior

Com sempre fico monitorando as passagens para qualquer lugar, esperando uma promoção (acho que é uma psicose minha), a uns 2 meses a TAM apareceu com uma promoção para o RJ, liguei para o Anastácio que topo na hora, falei também com o Renato (meu primo) que disse que adoraria escalar o Dedo de Deus (rsrsrsrs).

A escalada do Dedo de Deus seria um treino para escalada do Matterhorn em agosto do mesmo ano.

Como eu avisei no grupo, o Juan também se interessou e comprou as passagens alguns dias depois. Pensei comigo, tudo bem, 4 ainda é um número bom, o Anastácio guia uma cordada e eu outra.

Algumas semanas depois recebo um e-mail do Nilson: Comprei as passagens, uhuuuu…. Pensei comigo, 5 de novo? Mas tudo bem, vamos bem cedo e da para voltar durante a madrugada.

Como fazia muito tempo da escalada do Dedo comecei a assistir vários vídeos no Youtube para lembrar qual era o caminho (o que foi decisivo no final das contas), no meio da minha pesquisa, achei um aviso no site da FEMERJ informando que os cabos de aço do acesso ao Dedo estavam deteriorados, oferecendo riscos aos escaladores.

Esse mesmo aviso foi colocado no site para a via Italianos no Pão de Açucar onde um escalador morreu esse ano quando um cabo se rompeu.

Considerando a situação dos cabos achamos complicado irem os 5 para o Dedo, pois no trecho de cabo de aço teria que proteger como se fosse uma escalada normal (guiando) e iria demorar muito. Diante na nova situação combinamos que eu e o Anastácio iriamos para o Dedo e o Juan, Nilson e o Renato iriam para o Escalavrado.

Durante a semana véspera da viagem comecei a monitorar a previsão do tempo em Teresópolis e dizia que no sábado seria tempo nublado como chuva a tarde (dica: acredite na previsão do tempo…), como havia o risco de chuva, sugeri que o pessoal fosse na Pedra do Sino e não para o Escalavrado, o que se mostrou muito acertado.

Dando tudo certo iriamos no Escalavrado no domingo.

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Foto: Renato Pereira

Para variar o vôo da TAM atrasou e só chegamos no Galeão depois das 23 hrs. Pegamos o carro na UNIDAS e seguimos para Itaipava, na casa do Sogro do Renato, depois de jantar chegamos na casa perto da 1AM, até arrumar tudo já passavam das 2AM.

Combinamos que iriamos sair as 6 hrs porque de Itaipava até o Dedo daria mais de 1 hora de viagem.

No sábado acordamos no horário combinado e seguimos para Teresópolis, paramos para tomar café em uma padaria e comprar pão para a escalada e a caminhada. No caminho para Teresópolis em um trecho cheio de curvas que parece o Panelão em Urubici o Juan passou mal e pediu para o Renato parar o carro, quando vi ele vomitando, aproveitei e vomitei também…

Bem legal sair para uma escalada com a barriga vazia…

Com tudo isso, eu e o Anastácio começamos a trilha as 8 horas. Eu tinha visto vários vídeos em que o pessoal levava em torno de 1:30 até o trecho dos cabos de aço. Levamos 50 minutos. Esse trecho o cabo de aço era uma novidade porque em 1997 ele não existia.

Em 1998 ocorreu um desmoronamento gigante que deixou uma grande parede de granito exposta que inviabilizou a trilha como ela era, sendo então colocado vários cabos de aço para viabilizar a escalada.

O lance de cabo de aço não é complicado, mas achei bem exposto, porque tem que subir vários metros no braço, caminhando pela pedra com a sapatilha de escalada, uma queda ali não seria agradavel.

Como tinha o problema dos cabos rompidos, eu guiei o trecho colocando costuras nos grampos onde os cabos eram fixados. Foram 4 trechos bem longos de cabos, chegando então no começo da trilha.

Quando finalizamos o cabo de aço, notei que a volta não poderia ser por ali porque não tinha linha de rapel. Quando começamos a trilha pós cabo de aço, vi uma parada dupla em uma parede bem no começo da trilha, olhei para baixo e vi lá embaixo outra parada dupla. Pensei comigo, aqui é o rapel da volta, não tem outra opção.

Voltado para a trilha…. acabamos o trecho de escalaminhada as 10:30, começaria então a parte de rocha. Nos encordamos e eu segui guiando os dois primeiros trechos, tudo com proteção móvel, foram duas cordadas (bem agradaveis) até chegar até o buraco da árvore onde começa a Maria Cebola.

No trecho da Maria Cebola existe um detalhe importante, até ali da para voltar rapelando, se passar a Maria Cebola e cruzar para o outro lado do Dedo de Deus, tem que ir até o cume porque a volta é pela Teixeira (via da conquista de 1912).

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Foto: Renato Pereira

Na Maria Cebola tudo estava muito bem, o Anastácio foi na ponta da corda e guiou esse trecho. Depois da Maria Cebola começam os trechos de Chaminé e eram os que mais me preocupavam pois em 1997 fiz todos eles de segundo pois o Vécio guiou tudo.

O Anastácio guiou a Maria Cebola muito bem, tão bem que nem uso móvel, esticou a aderência inteira sem proteção.

Quando comecei a subir a Maria Cebola de segundo, vi como é ruim carregar uma mochila pesada em trechos de diedro. A mochila ficava travando na pedra o tempo todo.

Quando passei a rampa e avistei o Anastácio falei para ele que iria entrar direto dentro da fenda da primeira chaminé. Quando entrei na fenda comecei a ouvir um barulho estranho, e perguntei: Anastácio isso é chuva?

E Ele, é e começou na hora que eu acabei de guiar… Pensei comigo, porque a chuva não caiu 10 minutos antes???? Desceriamos antes de passar pela Maria Cebola. Dentro da fenda não tinha mais jeito era subir até o cume e voltar pela Teixeira.

Depois de dar uma descansada, comecei a guiar o primeiro trecho de chaminé. Como tinha levado as joelheiras do Juan (aprendizado de 1997), os joelhos não sofreram, mas reconheço que guiar uma chaminé não faz bem para o psicológico.

A primeira chaminé é a mais complicada, tem uns 20 metros mais ou menos, da para fazer duas proteções com Camalot pequeno (para ajudar o psicológico), na verdade não tem como cair porque é só ficar entalado e travar o joelho na parede, mas não é um lance simples.

No fim da primeira chaminé tem uma parada em um grampo, ali dei segurança para o Anastácio e chegamos no segundo trecho de Chaminé. A segunda chaminé é bem tranquila pois é mais larga e tem um lugar para colocar alguns móveis.

No final da segunda chaminé chega no lance que se chama passo do gigante, pelo nome já da para entender um pouco. Como as chaminés são abrigadas, só ouvíamos o barulho da chuva, mas a pedra “ainda” não estava molhada.

Quando chegamos no passo do gigante, a chuva apertou um pouco. Esse lance não tem muita dificuldade, consiste basicamente em colocar uma fita em um grampo, puxar no braço e pegar uma agarra boa na aresta bem acima para então entrar em outra chaminé (essa estava molhada), o problema é que a agarra boa estava molhada, na verdade escorrendo água.

Como não tinha outra opção, depois de dar umas duas olhas para entender o lance, passei a fita no grampo com chuva na cabeça e fiz o passo, até achava que seria o mais complicado. O Anastácio veio em seguida e entrou na chaminé, que é bem apertada (lembrei bem dela em 1997 porque dei um apoio no ombro para a Sibeli entrar nela).

Nessa chaminé tem que entrar com as mãos espalmadas para baixo para então conseguir progredir, o Anastácio utilizou a técnica do joelho (essa técnica é muito útil quando se escala o Dedo de Deus com chuva), e depois de alguns arranhões me encontrou na gruta que da acesso a última cordada para chegar na escada que da acesso ao cume.

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Foto: Renato Pereira

Nessa gruta tem uma passada que se chama tesoura, tem que abrir bem as pernas em cada lado da pedra para acessar a fenda, que nada mais é do que uma chaminé inclinada.

Esse trecho não é complicado, mas em função da chuva estava todo molhado escorrendo água.

Aparentemente não tinha onde proteger, então só levei dois camalot grandes, mas no meio do caminho vi que devia ter levado camalot pequenos, mas ai já era tarde, tive que seguir sem proteção.

Esse foi o trecho mais complicado porque as agarras eram pequenas e estava todas molhadas.

Normalmente aquele trecho se passa com muita facilidade, mas com a chuva ficou bem mais trabalhoso, assim como em chaminé não existe um risco eminente de queda porque na pior das hipóteses é só ficar entalado na fenda.

Com muito cuidado completei esse trecho que deve ter uns 25 metros e finalmente cheguei no trecho da escada. O Anastácio veio em seguida e as 15 hrs estávamos subindo a escada chegando no cume do Dedo de Deus.

Enquanto subia a escada, lembrei que em 1997 para começar o rapel da descida tinha que desescalar um trecho pequeno até chegar na parada dupla, como estava tudo molhado achei perigoso e vi que teríamos que chegar na parada dupla rapelando.

Chegamos no Cume e a chuva deu uma apertada, foi o tempo de escrever no livro cume, tirar algumas fotos e começar a descer, antes disso igual a 1997 o céu abriu e pudemos ver o Garrafão e a Pedra do Sino por alguns minutos.

Logo acima da escada tem um grampo e para voltar achamos prudente descer a escada rapelando e seguir na diagonal para a direita direto para a parada dupla do rapel. Eu fui na frente e chegando na parada dupla liberei a corda para o Anastácio descer.

Ele rapelou até onde eu estava, ficando em um grampo acima da parada. Quando puxamos a corda para começar o Rapel quem disse que ela vinha…

Não teve jeito, o Anastácio teve que voltar tudo (uma fenda medonha) ir novamente na escada e puxar a corda. Ai não teve jeito, ele teve que desescalar novamente até chegar próximo da parada dupla onde eu estava. Uma observação, não entendo porque não colocam um grampo do lado da escada para rapelar até a parada dupla do primeiro rapel…

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Foto: Anastacio da Silva Junior

Depois desse imprevisto começamos finalmente os 4 rapeis verticais até a trilha, como estava tudo molhado tivemos que ir com muito cuidado, já passava das 16 hrs quando começamos o rapel negativo, que em dia seco é bem divertido, mas com a neblina e a parede molhada, tive que me puxar em uma pequena árvore, pois para variar a linha do rapel sai fora do platô que da acesso ao terceiro rapel.

O Anastácio veio em seguida, e puxei a corda para ele chegar no planto.

Olhei e vi um grampo, mas achei estranho porque não era parada dupla, lembrei que em 1997 esses 4 trechos de rapel foram todos feitos em parada dupla. Olhei para frente e uns 15 metros depois avistei a parada dupla, ai pensei comigo, beleza o trecho de rapel vertical está garantido…

Finalizamos o último rapel e já estava tudo escuro. Colocamos as lanternas no capacete e começamos a descer a trilha que da acesso a Via Teixeira. Essa trilha junta com a Leste (que foi a que subimos) acima do trecho de cabo de aço.

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Foto: Renato Pereira

Como estava tudo molhado e eram vários trechos de cabo de aço, rapelamos tudo, usando grampo, árvore e o que tivesse de seguro para rapelar.

Perto das 19 hrs (não tenho muita certeza) finalizamos os rapeis no meio do mato e chegamos no trecho dos cabos de aço.

Ali eu pensei, pronto agora é só achar a linha de rapel e finalizar esse trecho e em 1hr estaríamos no asfalto.

Mal eu não sabia que o perrengue estava só começando. Achamos a primeira parada dupla na parede que eu tinha visto na subida.

Pensei comigo, toda parada dupla leva a outra parada dupla, lembrei que estávamos rapelando a esquerda do lance de cabo de aço.

O Anastácio foi na frente e depois de uns 25 metros de rapel ele gritou achei uma parada dupla, pensei comigo, beleza agora mais dois rapeis estamos no chão.

Desci em seguida, puxei a corda e armamos o segundo rapel. O Anastácio seguiu novamente na frente (lembrando que já estava tudo escuro), depois de alguns minutos ouvi a pior coisa que poderia ter acontecido naquele momento.

O Anastácio berra:

Adriano não achei a parada dupla e a corda acabou….

Teve uns 2 minutos de silêncio… Resumindo, estávamos na chuva, a noite, rapelando em uma parede de uns 80 graus de inclinação e sem achar a parada dupla, pior que isso só um raio caindo nas nossas cabeças…

Em seguida o Anastácio avisa, achei um cabo de aço, vou me ancorar nele, ai pensei comigo, bom pelo menos vai ter onde esperar o resgate. Ele passou a alta na ancoragem do cabo de aço na pedra que estava na altura do pé dele.

Perguntei se ele conseguiria soltar o ATC para eu descer e procurar a bendida parada dupla. Ele disse que sim, mas como estava em um lugar muito estranho, falei para ele se amarrar em uma ponta que eu desceria ele alguns metros para um trecho mais plano. Consegui baixa-lo até um platô mais “agradavel”.

Agora tinha que decidir, descer até onde ele parou e tentar armar o rapel na ancoragem do cabo de aço ou achar a parada dupla.

Acontece que como ele disse que conseguiu ancorar com a alta na altura do pé porque a corda não chegava, fiquei com medo de chegar lá, fazer a ancoragem e na hora de soltar a corda ela ficar mais alta do que eu e não conseguir puxa-la, ai teria que passar a noite pendurando na parede.

Pensei comigo, não é possível não ter uma parada dupla.

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Foto: Renato Pereira

Armei o Rapel e comecei a descer bem devagar… O Anastácio me avisou que estávamos a esquerda dos cabos de aço, pensei comigo, qualquer coisa rapelava na diagonal e iria até o cabo de aço.

Quando vi que tinha descido uns 20 metros e não achava a bendita (que agora tinha virado maldita) parada dupla, comecei a descer na diagonal, só que com a parede molhada era impossível e acabei passando um pouco do ponto.

Como eu tinha feito um prussik acima do ATC, consegui soltar a mão e me agarrei em um gravatá (vulgo abacaxi de costão) e consegui chegar no cabo de aço. Ali vi um árvore e pensei, vou puxar a corda e rapelar até o Anastácio.

Mas quem disse que a corda vinha, puxei com toda força e não tive jeito, ali pensei comigo, vou dormir nesse platô (era bem grande e seguro), na verdade era o início da trilha no fim do trecho do cabo de aço.

Mas tinha que tentar alguma coisa para puxar a corda, resolvi pegar uma ponta fazer uma solteira e rapelar alguns metros para diminuir o ângulo da corda com o grampo lá encima, pois como tinha rapelado na diagonal e no meio do mato, o ângulo da corda estava fazendo ela travar.

Rapelei uns 5 metros e finalmente conseguir puxar a corda. Puxei toda a corda, armei o Rapel na árvore e cheguei até o Anastácio (acho que do momento que ele desceu, até eu encontra-lo passou mais de 1 hora). Cheguei onde ele estava e pensamos, pronto agora é mais um rapel e estamos no chão.

Quando puxamos a corda ela caiu no meio do mato, o Anastácio foi puxar e claro, a porcaria ficou presa em uma fenda, pensei, ai já é brincadeira. Consegui chegar até o ponto onde a corda prendeu, e era uma cena bizarra, a corda tinha entrado em uma fenda e simplesmente não saia…

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Foto: Renato Pereira

Não teve outro jeito, peguei a faca do Anastácio e cortei a ponta da corda (detalhe, corda nova, segunda usada), na verdade como consegui chegar no lugar que ela ficou presa, só cortei um metro de corda.

Pronto agora podemos fazer o último rapel para chegar no chão. Ai o Anastácio desceu, uns 3 minutos depois eu ouço: acabou a corda e não cheguei no chão. Pensei comigo @#$¨%&¨(*&)*(I&_&*¨%*&.

O Anastácio de novo ficou parado em um grampo que prende os cabos de aço. Cheguei onde ele estava, armamos o rapel e finalmente as 21 hrs chegamos no chão, onde começa o trecho de cabo de aço.

Pronto só faltava mais 1 hora de trilha até chegar na rodovia….

Quando arrumamos tudo e começamos a descida vimos vários rolos de cabo de aço novos no chão, deve ser usado para substituir os atuais.

Uma hora depois, após alguns escorregões chegamos na rodovia. Encontramos o pessoal e finalmente pudemos seguir para casa.

Foram 14 horas de escalada, muito boa até chegar na Maria Cebola, depois da chuva, a escalada foi mais complicada, mas sempre com segurança, a volta, bom a volta sempre é a volta, não tem como ser simples. Foi um grande aprendizado…

E assim se resume a escalada minha e do Anastácio no Dedo de Deus em 15 de Junho de 2013.

Em tempo: Não pretendo voltar mais lá…

No domingo substituímos a escalada do Escalavrado por uma visita a Cervejaria Bohemia, mas isso é outra história.

Atualização em abril de 2015: já tenho passagens compradas para escalar o Dedo de Deus em junho/15.

Sou engenheiro, montanhista desde os 12 anos de idade, minha primeira montanha foi o Cambirela em 1990. Em 1993, com 18 anos comecei a escalar rocha em Florianópolis. Em 1996 fui pela primeira vez para o Aconcágua, tendo retornado no ano seguinte, ambas sem cume. Entre trilhas e montanhas já estive na Patagônia Argentina e Chilena, Bolívia, Peru e várias montanhas do Brasil. Em 2013 junto com um grupo de amigos escalei o Mont Blanc pela via normal e outras montanhas em Zermatt, incluindo uma tentativa do Matterhorn

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