Relatório traça raio-x da comunidade de escaladores nos EUA

O American Alpine Club (AAC), em parceria com mais de uma dúzia de organizações, divulgou no dia de ontem o primeiro State of Climbing Report, um abrangente relatório quantitativo sobre a comunidade norte-americana de escalada e seu impacto na sociedade e economia. O American Alpine Club é uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo é “uma comunidade unida de escaladores competentes e paisagens de escalada saudáveis”. O AAC é o equivalente norte-americano da Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada (CBME). Não há no Brasil, nem em qualquer país da América Latina, um relatório de mapeamento da escalada e montanhismo na economia e sociedade.

O relatório da AAC detalha o crescimento, tamanho e a demografia da comunidade de escalada atual nos EUA e tenta aplicar um critério aos esforços de conservação da comunidade, impacto econômico, acidentes relacionados à escalada e defesa política. A crescente influência da escalada nos Estados Unidos é inegável e o relatório publicado apenas corrobora este crescimento. Tendo inegável influência política e econômica nos países de todo o continente americano, é possível através deste relatório, também fazer projeções da extensão proporcional deste crescimento em países com relevância econômica como Canadá, México, Chile, Brasil e Argentina.

O que mostra o relatório?

Como este é o primeiro desses relatórios, é difícil colocar os dados em um contexto histórico para contemplar que tipo de mudança ocorre a cada ano em certas categorias. Entretanto, em uma primeira análise, os números brutos de dólares gastos e de aumento de membros iniciados nos últimos anos mostram um crescimento do interesse na atividade, impactando a economia do esporte outdoor nos EUA.

O relatório, que é baseado em respostas de pesquisas coletadas pelo American Alpine Club entre membros e não-membros, além de dados coletados pela Outdoor Industry of America, revela uma comunidade composta principalmente por jovens brancos, o que tende a criar uma perspectiva elitista e que perdura por anos e anos no esporte. Na América Latina, por exemplo, é explícito que o esporte é elitista e que isso reflete nos modelos adotados pelas academias de escalada, especialmente nas grandes metrópoles. Até mesmo atitudes segregadoras, como explicitar o pensamento de que o esporte deve sempre ser pequeno de nicho, são eternadas por donos das academias.

O State of Climbing Report de 2019 estima que quase 8 milhões de pessoas participem da escalada de uma forma ou de outra. Um número surpreendente, se comparado aos 500.000 de apenas cinco anos atrás nos EUA. Destes, cerca de 67% dos escaladores ao ar livre são do sexo masculino. Já escaladores que frequentam em ginásios de escalada, 58% são do sexo masculino. A pesquisa da AAC também foi dominada por homens brancos entrevistados, cerca de 80% eram brancos, com 72% de membros da AAC e 57% de não-membros sendo do sexo masculino. Os dados do relatório também mostraram que 65% dos escaladores em rocha hoje têm entre 18 e 35 anos de idade.

A escalada indoor tem uma grande fatia desses números brutos de escaladores. Estima-se que mais de 4% da população dos EUA escala em academias, um número próximo de 15 milhões de pessoas. Academias de escalada estão recebendo pessoas a uma taxa média de 100 novos membros por mês. Vale lembrar que o crescimento do número de novos membros também é possível por um preço acessível a quem ainda não pratica a modalidade. Academias com preços “salgados” e fora da realidade nos EUA tendem a fechar, segundo mostra o relatório

Ainda de acordo com o relatório, no ano de 2018 quase 4,4% de todos os norte-americanos escalavam em academias de escalada, mas com um documentário sobre escalada ganhando um Oscar e dados obtidos recentemente mostram um futuro promissor, com milhões de millennials entrando no esporte. Vale como contraponto de que mesmo com este crescimento, os EUA ainda não possuem atletas de destaque em competições em torneios do International Federation of Sport Climbing (IFSC), apesar de obterem melhores resultados em relação aos latino-americanos.

Os dados mostrados pelo relatório também mostram que a escalada é relativamente homogênea na composição demográfica, sendo a maioria dos participantes branca e masculina. Este tipo de dado é importante para medir a sustentabilidade a longo prazo. Quanto mais de nicho, sendo acessível somente a uma fatia da sociedade, o esporte pode acabar “saindo de moda”, enfrentando uma forte retração no futuro. Uma realidade que o Brasil viveu no início dos anos 2000 (quando foram costurados monopólios do esporte), após períodos de forte crescimento nos anos 1990.

Economicamente, o State of Climbing Report de 2019 demonstra que a comunidade de escalada possui uma força que não pode ser mais desconsiderada. Tanto socialmente, quanto economicamente. Estima-se que o esporte contribuiu com uma estimativa de US$ 12,450 bilhões para a economia norte-americana em 2017, sendo a grande maioria deste montante (87%) proveniente de despesas relacionadas a viagens e viagens.

Devido à natureza muitas vezes remota da escalada em rocha, muitas das comunidades que se beneficiam das viagens relacionadas à escalada são as rurais e de pequenas cidades de interior (com população inferior a 10.000 habitantes). Fazendo uma projeção do que seria o equivalente deste hábito no Brasil, são as regiões próximas aos principais lugares de escalada como Gruta da Lapinha-MG, Lapa do Seu Antão-MG, Baú de Minas-MG, Itamonte-MG, São Bento do Sapucaí-SP, entre outras. Analisando racionalmente os números, fazendo uma projeção proporcional para lugares como Brasil, Argentina e Chile, é fácil concluir que o esporte possui impacto econômico significativo em lugares do interior de qualquer país.

No relatório há também números interessantes e que não podem ser ignorados a respeito das academias norte-americanas. Nas academias de escalada dos EUA, há apenas 0,007 incidentes relatados por 1000 horas de visitantes. Quando comparados a uma média nacional de um esporte também em ascensão como o CrossFit, que possui 2,3 lesões por 1.000 horas de treinamento, as academias de escalada têm uma taxa de lesões extremamente baixa.

O State of Climbing Report também enaltece o dado que foi publicado em primeira mão pela Revista Blog de Escalada, de que a partir de 2019, o canal a cabo norte-americano ESPN começará a cobertura televisiva das Competições de Escalada dos EUA. A filial brasileira ainda não se pronunciou a respeito de também exibir a transmissão. As principais transmissões de competições de escalada hoje são feitas via canal de youtube e gratuitamente, sem a necessidade de aquisição de um canal premium.

Fechando contrados realtivamente vultuosos com canais de televisão (não apostando em transmissões caseiras e sem audiência relevante) é evidente que, ao menos nos EUA, o esporte está em franca ascensão. Por isso conceitos sem fundamento, como o de que o esporte não é deficitário, devem ser esquecidos e, mais importante, não pode ser desconsiderado pela indústria do turismo.

O que é o American Alpine Club?

Por meio de seus membros, a American Alpine Club defende os montanhistas norte-americanos, tanto no país como em todo o mundo, fornecendo subsídios e oportunidades de voluntariado para proteger e conservar áreas de escalada. O AAC também sedia festivais e eventos locais ou nacionais de escalada. Além disso cuida da principal biblioteca de escalada e museu de montanhismo dos EUA e administra alguns locais de escalada como Hueco Rock Ranch, New River Gorge Campground e o Grand Teton Climbers Ranch. Dessa maneira, o American Alpine Club, filosoficamente falando, é mais próximo do que seriam as federações e confederações no Brasil.

Por ser sem fins lucrativos a entidade norte-americana é apoiada por doações de pessoas físicas, corporações, fundações, contribuições de membros e renda de alojamento, publicações e doações restritas. O AAC é isenta de alguns impostos federais dos EUA.

Entretanto, esta isenção fiscal não dispensa uma organização de manter registros adequados e arquivar quaisquer declarações fiscais anuais ou de finalidade especial. Quando os norte-americanos fazem uma doação para uma instituição como a American Alpine Club, ou mesmo o Access Fund, o valor daquela doação pode ser deduzido integralmente na hora de declarar o imposto de renda.

Além de dinheiro, também podem ser feitas doações através de propriedades ou serviços. Uma empresa, ou pessoa física, doa um terreno para que um local de escalada seja desenvolvido, por exemplo, o valor total daquela propriedade será deduzido do montante que a pessoa deve ao governo em imposto de renda. Se uma pessoa doa serviços, como aulas para a comunidade, ela também pode deduzir o valor dos gastos (gasolina, hospedagem em hotel, etc.) que teve para doar aquele serviço.

O relatório completo pode ser baixado aqui: http://americanalpineclub.org

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