Com tantas alternativas, qual é a travessia mais difícil do Brasil?

Com a popularização do trekking e hiking no Brasil, cada vez mais pessoas procura realizar a atividade. Vê-se cada vez mais pessoas praticando caminhadas em ambiente natural e procurando, cada um à sua maneira, buscar superar os próprios limites. Claro que quando alguém possui um espírito de competitividade, começa a surgir também comparações entre trajetos de trekking e hiking dentre os praticantes. A competição faz parte de nossa cultura e é quase um vício do ser humano.

Da competitividade intrínseca nasce a comparação de que um trekking X é mais “difícil” do que o trekking Y. Alguns indivíduos também confundem periculosidade com dificuldade, o que na verdade é um equívoco bastante comum e compreensível. A partir desta confusão de conceitos, muitos praticantes afirmam de maneira equivocada que se um trekking pode ser “abandonado” em algum ponto, sua dificuldade é “rebaixada”.

A possibilidade de poder abortar qualquer atividade, está ligada intimamente à segurança de seus praticantes. Quando alguém é impossibilitado de abortar um trekking, por qualquer que seja o motivo, é realizado um resgate e, inevitavelmente, há um desgaste da imagem da atividade junto à população em geral. Portanto, ter a possibilidade de desistência de uma atividade não é, nem nunca foi, parâmetro para medir a dificuldade de uma rota de trekking.

A dificuldade de um trekking está intimamente ligado à vários fatores, não somente físicos. Creditar a dificuldade de um trekking somente ao esforço físico, é miopia cultural em relação à atividade. Fatores como altimetria, distância, disponibilização de água, visibilidade, navegação, logística, tipos de equipamento, clima, locais de camping, além de outros fatores mais subjetivos como preparo físico, tenacidade psicológica, resistência ao desconforto e experiência, fazem toda a diferença para chamar um trajeto de “difícil” ou fácil”.

Entretanto, uma outra observação é importante a quem possui pensamento binário. Somente porque alguma travessia estiver listada aqui neste artigo, ou mesmo se não estiver, não faz da rota “melhor” ou “pior” do que nenhuma. Este tipo de avaliação é muito subjetiva e depende do gosto de cada um. Após extensa pesquisa com praticantes e literatura disponível, as travessias listadas abaixo foram citadas por cinco montanhistas os quais fizeram questão de observar que “pode ser que esteja esquecendo alguma”. Portanto não há motivo para revolta de ninguém. Brigar ou discutir porque um lugar é mais “difícil” que outro é o equivalente a disputas de quem algum “objeto” é maior ou mais caro que o amiguinho (a).

Travessia é trekking?

Como muitos já devem saber, no Brasil há uma confusão com conceitos de trekking e hiking que acabam por confundir as pessoas. Infelizmente muitas pessoas que acabam difundindo qualquer conceito, muitas vezes sequer sabe o seu significado. O mais comum disso é a definição de trekking e hiking. Este conceito já foi explicado em um artigo completo sobre a diferença entre os dois aqui mesmo na Revista Blog de Escalada.

Por definição o hiking é uma caminhada de curta duração, preferencialmente de poucas horas, e que não envolve nenhuma atividade de camping ou pernoite. Para a prática do trekking fica implícito, desde o início, que o praticante irá acampar, ou dormir fora de casa (podendo ser em refúgios, albergues ou abrigos), durante o percurso que irá realizar.

Este tipo de diferença é importante? Sim! Especialmente no momento de comprar mochilas, tênis e botas para qualquer atividade de natureza. Pois o peso, robustez e a tecnologia destes equipamentos são projetados utilizando os parâmetros descritos acima. Por isso geralmente o trekking consiste em uma travessia como a da Serra Fina, Pedra da Mina, Caminho de Santiago, Caminho da Fé, etc. Portanto, travessia e trekking são a mesma coisa.

Porém, cada travessia possui uma peculiaridade própria e exige comprometimento do praticante, dos mais variados graus. A dificuldade de uma travessia nem sempre é física, pois cada uma irá exigir uma preparação mental e técnica de cada praticante.

Travessia Petrópolis/Teresópolis

Foto: Marcello Medeiros

A travessia Petrópolis/Teresópolis, também conhecida como Travessia da Serra dos Órgãos, é um dos maiores ícones do trekking no Brasil. O trekking é exigente não somente fisicamente, mas também psicologicamente. Há infinitas subidas e descidas, que irão exigir não somente a força física do praticante, mas também perseverança e concentração.

Não é um trekking extenso, às vezes sequer considerado difícil por montanhistas experientes, pois possui aproximadamente 35 km, com uma trilha muito bem marcada e sinalizada. Mas quem o experimenta pela primeira vez, especialmente quem é iniciante, possui uma opinião diferente. O tempo gasto, em média, é de três dias de caminhadas e contemplações de paisagens.

Tecnicamente falando, juntando os quesitos como preparo físico, psicológico e conhecimentos técnicos, não é das mais difíceis do Brasil. Mas fácil também não pode ser considerada. Portanto, para quem está iniciando, será um desafio que diplomará qualquer um que se sinta motivado a começar a praticar a atividade corriqueiramente.

O melhor período para fazer a travessia é de junho a setembro. Para quem deseja incrementar dificuldade no percurso, no verão, período com muitas chuvas, pode ser um desafio interessante.

Travessia Tabuleiro/Lapinha

Foto: http://guialapinhadaserra.com.br

A travessia Tabuleiro/Lapinha também é considerada curta, com 40 km (podendo ser pouco mais curto que isso, dependendo da rota). Por a rota cortando o cerrado mineiro, sem muitos sobes e desces não tão íngremes, engana-se quem acredita que a baixa altimetria a torna um passeio fácil. Se comparada a outros trekkings com maior altimetria, pode ter a conclusão errada de que esta travessia é algo leve. Como afirmado no início do texto, não somente o esforço físico, nem mesmo a inclinação de um trekking, é o que determina a sua dificuldade. A matemática para ter o sentimento de que uma travessia é difícil não é tão simples assim.

O trajeto começa no povoado de Lapinha da Serra (município de Santana do Riacho-MG), que fica aproximadamente 140 km ao norte de Belo Horizonte. A travessia termina no bairro do Tabuleiro, no município de Conceição do Mato Dentro-MG e, em média, leva de 2 a 3 dias de caminhada. É talvez um dos trekkings mais tradicionais para os praticantes da capital mineira e sua região metropolitana. Como descrito acima, não é um trekking muito difícil para quem já possui experiência, mas para quem está iniciando é um desafio de respeito.

Travessia dos Campos dos Padres

Muito conhecida na região sul do Brasil, mas nem tanto no resto do país, a travessia dos Campos dos Padres, no estado de Santa Catarina, exige maior esforço físico do praticante e outros fatores psicológicos que algumas travessias do resto do país não possui. Além disso, dependendo do período em que for realizada, haverá frio intenso, com temperaturas próximas de 0°C. O trajeto possui 60 km e usualmente é dividido em 4 dias.

Para quem planeja ir para a Patagônia e realizar alguns trekkings com baixas temperaturas para treinar, a Travessia dos Campos dos Padres é dos trajetos ideais para saber como está seus equipamentos e até mesmo a preparação do praticante para isso. Não há, claro, os ventos característicos da região patagônica, mas várias exigências climáticas e esforço físico estarão presentes.

O Campo dos Padres destaca-se pela riqueza de ecossistemas e pela grande variedade de espécies de plantas e animais. Na área atravessada está o Morro da Boa Vista (1.827 m), que é o ponto mais alto do Estado de Santa Catarina.

Travessia da Serra Fina

Foto: Freddy Duclerc

Para muitos, a travessia da Serra Fina é considerada a melhor e a mais difícil do Brasil. Muito se discutiu nos últimos anos este “título”, questionando-se a sua dificuldade. Como foi explicado no início do texto, muitos confundem esforço físico com dificuldade de uma trilha. Mas como no ano de 2018 houveram nada menos que oito resgates de praticantes de trekking perdidos pelo local, fica evidente que fácil ela não é.

Se é a mais difícil, a discussão poderia inclusive render dissertações de mestrado ou mesmo teses de doutorado. Pois para medir a dificuldade de alguma coisa, é necessário utilizar alguma unidade matemática, ou ainda vários índices, para que, ao final da avaliação, saber o “índice de dificuldade”. Como isso não é possível, ao menos até o momento da publicação deste artigo, sabe-se apenas que a Travessia da Serra Fina não é indicado para iniciantes, faça outros trekkings para ter experiência e autoconhecimento.

A Travessia da Serra Fina é utilizada para treinar e preparar pessoas que irão fazer os mais prestigiados trekkings da América do Sul, como Transandina, Los Glaciares, Torres del Paine e Cordilheira Blanca.

Travessia Alpha Crucis

Foto: Paulo Taqueda

A Travessia Alpha Crucis consiste em atravessar a Serra do Ibitiraquire, Serra da Farinha Seca e a Serra do Marumbi. É, portanto, uma união de travessias que já foram antes realizadas. Por ser uma união de travessias que são reconhecidamente duras, é contestada a existência porque não é uma rota “pura”.

Para muitos, esta é a travessia melhor candidata à “mais difícil do Brasil”. Reconhecidamente, é uma travessia de dificuldade grande, que existe um nível de experiência alto de quem a realizar. Não aconselhável fazer sem o uso de GPS e sem ter o conhecimento das travessias em separadas.

Grande parte da travessia está na dificuldade de várias disciplinas de trekking, pois a região é conhecida por ser chuvosa, fazendo com que o mato cresça muito rápido e assim a trilha não se consolide. Na trilha existem lugares que não passam muitas pessoas durante o ano todo. Além disso, algumas pessoas contestam o “título” de travessia, afirmando que ela não é 100% em mata, tangenciando trechos com civilização.

Mas e a Transmantiqueira?

No momento o Brasil está implementando várias rotas de longo curso. Estas rotas irão unir várias trilhas, tornando-se uma só. Podendo ser realizada trecho a trecho. Mas para os puristas, indivíduos que são adversários de modificações de usos, normas e padrões, e fortemente contrários a alterações de uma ortodoxia, alegam que uma travessia não pode haver contato sequer com trechos rurais. Muitos destes puristas parecem ter esquecido que continente inexplorado, como era a América há cerca de 500 anos, não existe mais.

Como ainda há muita discussão entre estes conservadores, algumas trilhas recentemente consolidadas como a Transmantiqueira, uma travessia que envolve outras travessias já consolidadas na Serra da Mantiqueira como a Travessia Marins/Itaguaré, Travessi da Serra Fina e Posto do Marcão/Visconde de Mauá (Parque Nacional do Itatiaia) são feitas de maneira separada. Como observação, especialmente para os puristas, é que a Transmantiqueira possui alguns trechos que passam por estradas rurais.

Portanto para considerar esta união de três travessias como uma única somente, cabe a você, caro leitor, decidir. Caso seja algum purista, com conceitos engessados e baseados unicamente em teorias escritas por montanhistas teóricos (sendo que alguns sequer estão vivos), a Transmantiqueira não é uma travessiaem si. Porém, se você acredita que uma travessia deva ligar ponto “A” ao ponto “B”, passando por montanhas e cordilheiras, considere a Transmantiqueira como uma.

There are 7 comments

  1. Clayton Silva Souza

    Show!
    Meu filho fez Petro x Tere com oito anos e Serra Fina com 9 anos, foi super bem! Com 10 anos ele fez Monte Roraima!

    Completamos o Projeto Cauã 10 anos 10 Cumes!

    Vamos nos programar para fazer as outras 3 travessias citadas acima.

    Abraço!!!

  2. Daniel Santos

    Ótima matéria! Mas preciso admitir que me incomodou o tom direcionado às pessoas que discordam em relação a definir essas uniões de travessias como uma única travessia.

    Particularmente, eu tenho uma certa resistência a isso. Não por purismo ou por ser engessado, mas por acreditar que travessias que cruzam zonas com um mínimo de ocupação urbana ganham um grau diferente. Uma coisa é eu estar totalmente isolado nas montanhas, outra é eu ter a possibilidade de reabastecer e até mesmo parar num barzinho no meio da travessia. Quem sabe dormir numa caminha quente.. rsrsrs.

    Enfim, compreendo seu ponto e concordo que devemos nos abrir às novas concepções, mas penso diferente de você e não achei legal o tom ofensivo…

    No mais, parabéns pela matéria!!
    Abs!!

  3. Leozito

    Tá de parabéns, novamente, em explorar e atualizar o tema.
    Li um relato sobre a alpha Crucis e é cascuda demais, só pela leitura. Chuva em todos os campings não é pra qualquer um.
    Dúvida que ainda não procurei: tem guia por lá? Todas as outras citadas é bem fácil arrumar algum bom guia para acompanhar.
    Abraços e parabens

    1. Paulo weber

      Não, na Alpha não há nada. Você vai estar no meio do nada. Vai atravessar a estrada da graciosa e o marumbi que são lugares onde encontrará talvez pessoas de resto é mato, espinhos e tombos. Nomes ? Pelado, Carvalho, última chance, ciririca, ferraria, ferreiro , ou ferrado será alguns nomes que irá encontrar e tem o espinhento, os nomes não são em vão

  4. Fernando Maciel Souto Maior

    Colocarei aqui a minha opinião sobre o tema. Para mim, existem categorias diferentes na terminologia. Uma delas é: com (trekking) ou sem (hiking) pernoite. Outra é: origem diferente de destino (travessia) ou origem e destino iguais (bate e volta). Claro que tudo isso é pura perfumaria, apenas termos técnicos. Mas existem essas diferenças e já vi confusões acontecerem por causa disso. Um abraço, e cumprimentos pelo excelente blog.

Comente agora direto conosco

Moderação de comentário está ativada. Seu comentário pode demorar algum tempo para aparecer.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.