“Perdidos na Noite”: A história de uma conquista brasileira de um Bigwall no Peru

Por Adilson Campos & Victor Carvalho

Este mês de agosto foi de muita atividade. Entre os dias 3 e 25 de agosto nós (Adilson Campos e Victor Carvalho) estivemos no Peru para uma temporada de escaladas em rocha, que rendeu muito.

Nossa viagem começou com três dias de aclimatação na área de escalada esportiva de Hatun Machay, uma floresta de pedra, localizada há 4.300 metros de altitude, onde ficamos por três dias, castigando os dedos e preparando os pulmões para o que viria a seguir.

Foto: Adilson Campos

Na sequência fomos então para a Cordillera Blanca, em especial para a região de Caraz e do vale Parón, onde está a bonita Laguna Parón. É lá que se inicia a caminhada de aproximação para a mítica montanha La Esfinge, com 5.300 metros de altitude e com gigantescas paredes graníticas. É na Laguna Parón que também se inicia a aproximação para outras montanhas, como por exemplo o Artesonraju (6.025 m), conhecido mundialmente por ser a montanha do logotipo do Paramount Studios.

Após uma aproximação forte, chegamos no campo base e neste mesmo dia já levamos nossos materiais de escalada para a base da via “Original de 1985”, graduada em 6b francês (6sup brasileiro), com 750 metros de extensão. Essa via geralmente é feita em dois dias de escalada, com um bivaque no platô que segue após a nona enfiada, mas nosso objetivo era uma escalda rápida, em um único dia.

No dia seguinte levantamos por volta das 4:00, tomamos café e partimos. Entre o campo base e a base da via, tem uma caminhada de quarenta minutos. Às 6:00 iniciamos a escalada, alternando a guiada. Pegamos um pouco de tráfego, que acabou atrapalhando a todos, mas como a via é muito clássica só nos restava entender. A rota é de pura aventura, com uma parede bem empinada e um granito muito sólido. Ao virar-se de costas o cenário é de filme, com diversos picos nevados e aquela sensação imensa de exposição à natureza.

Chegamos na metade de via na hora do almoço e quando era por volta das 13:00 estávamos começando a décima, de dezoito enfiadas.

Foto: Adilson Campos

A via se notabiliza por ser dividida em duas partes bem distintas. A primeira é onde estão os trechos mais difíceis, porém de orientação fácil. Já o segundo trecho possui um terreno mais fácil, entretanto com orientação difícil e com longos trechos expostos.

Nos perdemos brevemente durante a décima segunda enfiada, quando percebemos a necessidade de escalada sempre apoiando à direita e assim foi até o final. Chegamos no cume já a noite, por volta das 19:30, para então procurar o ponto de rapel e iniciar a descida. Frio, muito frio. A cada segurança era uma tremedeira, mesmo embaixo do casaco de pluma.

Foi uma escalada sensacional, seja pela qualidade da rocha, pela dificuldade, pela altitude ou pelo frio. Chegamos de volta em nossa barraca por volta das 23:00 e no outro dia cedinho iniciamos nossa descida para volta à Huaraz.

A via requer boa experiência em escalada em móvel, boa adaptação com escaladas expostas (encaramos trechos com mais de 10-15 metros de esticões), total aclimatação a altitude e estar escalando ao menos um sétimo grau. Quanto aos materiais um jogo dobrado de Camalot C4 até o #3, mais um jogo de nuts. Isso é suficiente. Um jogo de aliens offset é útil na segunda parte da escalada.

Conquista brasileira de um Bigwall

Foto: Adilson Campos

Bom, depois de alguns dias de descanso em Huaraz partimos então para a segunda etapa da viagem, que seria a abertura de uma nova via de escalada, desta vez, no vale do Cerro Rurec, em especial no Monte Chaupi Huanca (5.179m).

Trata-se de um lugar excepcionalmente bonito e isolado, ainda que esteja perto de Huaraz. Em todo o vale não haviam outros escaladores a não ser nós. Inicialmente fomos até a Casa de Guias de Huaraz para obter melhores informações sobre o Chaupi Huanca, já que não queríamos abrir uma via próxima de outra. Lá nos orientaram a abrir na parede mais a esquerda, assim evitaríamos as vias já anteriormente abertas. Ainda falamos com o David Lazo, responsável pela elaboração do guia de escalada em rocha de Huaraz, que nos orientou no mesmo sentido.

Partimos para lá com suprimentos para uma escalada de cinco dias de parede, inclusive com portaledge. Nossa estratégia seria escalar em estilo cápsula, ou seja, sem deixar as centenas de metros de cordas fixas nas paredes. Uma técnica antiga, mas ainda muito comum principalmente por europeus. Basicamente fixaríamos cordas no primeiro dia, ascenderíamos no segundo dia e a partir daí iríamos montando nosso acampamento vertical conforme fossemos ganhando altura.

Foto: Adilson Campos

O primeiro dia foi de caminhada. Partindo de Canrey Grande, onde contratamos nossas mulas. Foram 16 km de caminhada, algo que nos tomou em torno de 3h30min de subida. Ao chegar lá, montamos acampamento e já levamos para a base da via cerca de 35 litros de água.

No dia seguinte fizemos o transporte do restante do material (em duas viagens) e iniciamos a conquista. Foram duas enfiadas, que praticamente não permitiram a colocação de peças móveis, ficando a primeira enfiada com 50 metros e somente 5 chapeletas como proteções intermediárias. A segunda enfiada foi ainda mais exposta, com 45 metros e somente 4 chapeletas. A escalada aqui começa com basicamente aderência, às vezes aparecendo alguns pequenos regletes. Fixamos as cordas e retornamos para o acampamento base.

No segundo dia, fizemos a ascensão das duas primeiras enfiadas, içamos todo o material e continuamos a conquista. Abrimos neste dia mais uma enfiada e meia, ambas com características bem próximas às primeiras, ou seja, bem expostas. Montamos nosso portaledge já durante a noite, enfrentando vento leve e temperatura inferior aos -10°C.

No dia seguinte levantamos bem cedo, tomamos café e recomeçamos os trabalhos. Terminamos a conquista da quarta enfiada, que apresentou o primeiro trecho de artificial: um teto, que foi feito com o uso de aliens, knifeblades e buracos de Cliff. Na sequência fizemos a quinta enfiada, longa, com 45 metros que contou com dois trechos também de artificial, sendo o primeiro mais fácil, com uma passagem de três buracos de Cliff em sequência (altos) e a segunda parte contando com uma passagem de dois buracos de Cliff e uma passagem de hook em agarra.

Assim terminamos o terceiro dia com cinco enfiadas abertas e embaixo de um grande teto.

O grau de exposição mais uma vez bastante alto, contando a terceira enfiada com somente três chapas, a quarta enfiada com quatro e a quinta enfiada com duas chapeletas (esta última porém com melhores colocações para móveis). Mais uma noite em portaledge.

Foto: Victor Carvalho

Quarto dia começando, um desafio e tanto em artificial. Neste dia foram algumas horas para vencer a parede. Um artificial mais duro e constante, em alguns pontos em terreno de rocha podre, nada confiável. Um A2+, com uso de pitons, mastercams, aliens, hooks e buracos de Cliff. Passado isso, uma trabalheira para limpar e aí sim um enfiada em livre com oferta maior de posições para proteção em móvel. Ainda quatro chapas fixadas ao longo dos quase 50 metros da sétima enfiada. Nossa terceira noite em portaledge, mais uma vez encarando o freio andino de -10°C e dessa vez com mais vento.

No dia seguinte uma avaliação. Com somente duas chapas na mochila e sem tempo para prosseguir mais alto decidimos descer, deixando uma linha com mais de 300 metros de via, com uma graduação de 6º VI A2+ E3.

Nome escolhido: “Perdidos na Noite”. Uma homenagem ao perrengue que foi montar nosso acampamento vertical na primeira noite de parede. Demoramos horas até acertar tudo, tudo isso noite adentro.

No final, nossa constatação foi que a rocha apresentou menos fissuras e fendas do que imaginávamos. Tínhamos levado em torno de 40 chapeletas para a conquista e contando as paradas e proteções intermediárias foi o que deu para escalar, em torno de 300 metros de parede, divididas em sete enfiadas.

Uma via sobretudo exposta e desafiante, que no meu entender pode ser repetida por uma dupla afiada em 10-15 horas de escalada (sem contar os rapeis) ou sendo mais realista: em dois dias de escalada.

Ao final aquela sensação de dever cumprido, era hora de rapelar. O rapel não é difícil, porém requer atenção pois existem muitas diagonais e o rapel do teto da sexta enfiada requer uma
escalada fácil para se chegar na parada (em face da negatividade passa-se da parada sem poder alcança-la).

Ao chegar no solo decidimos já tocar de volta na trilha e no dia seguinte partíamos pra Huaraz depois que as mulas trouxeram de volta o restante dos nossos equipamentos.

Foi uma expedição e tanto, com 90% do programado dando certo, aprendendo muito!!

Que venham novas e mais complexas aventuras! É de perrengue que vivem os montanhistas!

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