O Código de Conduta da Montanha do UIAA: Montanhistas esqueceram que ele existe?

Viver em sociedade é uma arte que cada vez mais é desafiada. Pois todos os dias constatamos que uma das principais características atuais, é a falta de respeito nas relações entre as pessoas e com o meio onde vivem. Gentileza converteu-se em sinônimo de fraqueza, carência ou subserviência. Ético tornou-se algo tão ultrapassado e sem espaço, que as pessoas sequer sabem o que realmente significa.

Para lembrar a estes “esquecidos”, os princípios de ética foram eternizados em um documento chamado Código De Ética. Código de ética é um acordo que estabelece os direitos e deveres de uma empresa, instituição, categoria profissional, ONG e etc. Esta missão, cultura e posicionamento social, deve ser seguido pelos indivíduos em comum naquela atividade.

Basicamente, os códigos de ética são divididos em direitos e deveres. A partir disso, é imprescindível entender duas premissas:

  1. O direito de um indivíduo não deve sobressair sobre o direito do coletivo
  2. O direito de um indivíduo termina quando começa o de outro

Em termos de montanhismo ser ético, é agir dentro dos padrões convencionais e não prejudicar o próximo. Ser ético é cumprir os valores estabelecidos pela sociedade de montanha em que se dispõe a viver no momento que decidiu praticar a atividade.

Uma das características mais gritantes do montanhismo é (ou talvez pudéssemos dizer com tristeza de que “era”) a prática inerente dos valores universais dentro da realização esportiva. Atualmente no montanhismo, não deveríamos deixar que instintos individualistas se sobressaiam ao nosso caráter. Mas sabemos que a realidade não é assim.

Pois todos os indivíduos de uma sociedade têm obrigação de cumprir as leis que as rege, mas a grande maioria, ou nem todos, possuem ética suficiente para segui-las.

O Código de Ética do Montanhista

Este código não escrito de lealdade e respeito entre os montanhistas, escaladores e as comunidades que vivem em torno das grandes montanhas foi seguido por muitos anos de maneira exemplar, mas infelizmente ele está tendendo a desaparecer entre os novos praticantes, “montanhistas pop” e alpinistas sociais.

A Union Internationale des Associations d’Alpinisme (UIAA) publicou em 2009 um documento intitulado “Mountain Ethic Declaration” (Declaração de ética na montanha), que mesmo sem a intenção de se tornar um regulamento, serve para nos levar à reflexão sobre o verdadeiro significado do montanhismo e qual é a nossa atitude e valores que demonstramos quando estamos na montanha.

O “Mountain Ethic Declaration” abrange 12 premissas a respeito dos direitos humanos, culturas que estamos visitando em outras regiões, proteção da vida selvagem e espírito de equipe e cooperação como uma linguagem comum de todos os montanhistas.

Abaixo está a tradução e uma breve explicação do significado dos pontos mais importantes:

  • Artigo 1 – Responsabilidade individual

Um montanhista ou alpinista experiente é responsável pela sua própria segurança, coparticipante na segurança de seus pares e deve estar atento à segurança de participantes menos experientes.

Portanto, dentro desta responsabilidade, devemos:

    • Ser devidamente treinado fisicamente, mentalmente e tecnicamente para cada excursão
    • Estabelecer metas de acordo com nossas próprias habilidades e a capacidades de nosso grupo
    • Estar alerta e sempre tomar decisões com bom senso, com base nas condições da montanha e nas circunstâncias que nos cercam.
  • Artigo 2 – Espírito de equipe

Converter o objetivo comum em nosso objetivo é o objetivo de realizar uma atividade em equipe.

Devemos mostrar tolerância e boa vontade para assumir compromissos que permitam equilibrar todos os interesses e habilidades que nossos parceiros possuem.

  • Artigo 3 – A comunidade de alpinistas

Para cada pessoa que encontramos nas rochas ou nas montanhas, devemos a mesma gentileza e respeito. Para saudar, respeitar os pertences dos outros, pegar o lixo e evitar fazer barulho nos abrigos, avisar os outros sobre perigos em potencial que detectamos e evitar fazer julgamentos depreciativos.

Em caso de qualquer dúvida sobre como agir com base em “ética” ou “costumes” locais, lembre-se sempre da regra de ouro: trate os outros como deseja ser tratado.

  • Artigo 5 – O guia de montanha e o cliente

O guia de montanha deve ser um especialista altamente qualificado. Um profissional que entenda que a segurança de seu cliente deve ser uma prioridade em todos os momentos e, se possível (além de ser muito desejável), deve garantir que a experiência seja positiva e enriquecedora.

É importante que o guia selecione uma via que corresponda ao nível de habilidades de seu cliente, mesmo sob as piores circunstâncias (mau tempo, etc.).

Por sua vez, o cliente também deve verificar as referências e reputação do guia contratado e não só se deixar levar por uma boa estratégia comercial e fotos impressionantes. Ele deve entender que sua vida e integridade serão substituídas pelas decisões tomadas pelo seu guia e, portanto, deve obedecer às suas instruções em todos os momentos.

  • Artigo 9. Estilo e excelência

O “como está” é mais importante do que a meta alcançada. Percorrer uma rota de maneira limpa tem mais valor do que mostrar grandes conquistas onde os princípios esportivos são violados.

Em cada forma de escalada, “bom estilo” significa reduzir as ajudas técnicas a um mínimo justificável e abster-se de aumentar a quantidade de proteções fixas nas rotas existentes.

    1. O estilo desejável de fazer uma rota de escalada livre é a subida à vista e cadena (sem cair nenhuma vez). Rever uma via e praticar os movimentos diminui a qualidade da subida e da experiência. Uma subida feita com pausas penduradas em peças de proteção não é considerada válida.
    2. Os montanhistas devem abster-se de aumentar as proteções fixas nas rotas existentes. Quando as medidas de adaptação são realizadas, devemos nos esforçar para preservar o caráter original de uma escalada.
    3. Se possível, devemos abster-nos de usar cadeias de acampamento e cordas fixas e procurar uma subida de estilo alpino sem ajuda externa.
    4. O uso de oxigênio artificial na escalada deve ser limitado para fins médicos.
    5. Abster-se do consumo de todas as substâncias ilegais em outros esportes, se sua administração não for indicada clinicamente.

  • Artigo 11 – Patrocinadores e relações públicas

Todos os dias, a presença de patrocinadores em atividades de montanha é mais comum nos dias de hoje.

Esta realidade gerou uma maior difusão para o esporte, além de permitir que alguns montanhistas alcancem desafios que não só trouxeram seus nomes para a fama, mas também aumentaram a dimensão do esporte.

Atletas individuais ou eventos que gozam do apoio de patrocinadores devem evitar conter produtos prejudiciais a outras pessoas, à natureza ou ao meio ambiente.

Por sua vez, o patrocinador não pode, sob nenhuma circunstância, pressionar o montanhista em sua performance.

  • Artigo 12. A escalada da mídia

A mídia ajudou a popularizar o alpinismo e, em muitos casos, oferece uma perspectiva que influenciará a construção do conceito culturalmente enraizado na população. Portanto é responsabilidade da mídia reconhecer erros e acertos de montanhistas e de pessoas que se passar por eles.

É comum que depois de algum acidente levantado em torno das opiniões de montanhismo serem ouvidas como ” é muito perigoso “, ou ” é um esporte de alto risco “.

Para evitar este tipo de divulgação atletas, associações, clubes e outros atores envolvidos, devemos sempre fazer um esforço conjunto oferecer ao público uma imagem positiva, realista e profissional de montanhismo e escalada.

Para ler o documento completo acesse: https://www.theuiaa.org

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