Nasim Eshqi: A escaladora iraniana e sua luta contra a discriminação

A escaladora Nasim Eshqi além de superar as dificuldades da escalada, também tem de lutar contra a discriminação. A começar pelo seu país natal, o Irã, que desde 1979 as mulheres são obrigadas a usar o hijad (vestimentas preconizado pela doutrina islâmica) na presença de homens adultos, não parentes. Essa prática é vista como sinal de modéstia da mulher, perante o desconhecido adulto. Essa imposição vem acompanhada de proibição do uso de maquiagem e obrigatoriedade do uso de roupas que cubram pernas e braços.

Aquela que não o fizer, corre o perigo de ser atacada pela população. De acordo com relatório sobre a situação do Irã, em 2016, 64.000 mulheres receberam “avisos” de vestimenta inadequada. Entre 2013 e 2014 foram 41.000 meninas que se casaram entre 10 e 14 anos. Além disso, a poligamia é permitida apenas para os homens.

Portanto, o Irã não é um país muito aberto ao feminismo e enxerga os direitos das mulheres de uma maneira, digamos, particular. Por conta desta “particularidade”, o Global Gender Gap Report, ranking de igualdade de gênero publicado pelo Fórum Econômico Mundial desde 2006, aparece como dos locais com desigualdade entre gênero do mundo.

Nasim Eshqi

 

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Nasim começou a escalar por acaso. Enquanto estudava educação física na Universidade de Teerã, um professor a colocou em uma expedição para a prática de montanhismo ao Monte Damavand (5.610 m) em 2005. A montanha é o pico mais alto o Irã. A viagem não foi bem-sucedida, mas Eshqi foi aconselhada, junto a alguns de seus colegas, a procurar escalada como atividade complementar. Nasim Eshqi tinha, à época, 23 anos de idade.

Na época Nasim praticava Kickboxing, e sua verdadeira paixão era ver os filmes de Bruce Lee e não os de escalada. A jovem foi campeã iraniana 10 vezes seguidas. Como ela possuía muito boa forma, começou a escalar com boa desenvoltura. Ela mesmo afirma que “desde o primeiro dia em que comecei a escalar, achei que era isso que eu queria fazer para o resto da minha vida”. Mas o início não foi tão fácil. As parcerias de escalada eram escassas e, além disso, o esporte é relativamente novo no Irã.

No país a atividade do montanhismo é desenvolvida, mas a escalada não. Embora a escalada ao ar livre não tenha restrições em termos de parceiros, os ginásios de escalada de seu país são separadas por gênero no Irã.

 

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Além disso, viajar para outros países com culturas de escalada mais desenvolvidas também se mostrou um desafio. Nasim foi escalar na Geórgia, Armênia, Omã, Turquia e Índia. No entanto, a Europa e a América, onde notoriamente a escalada é mais bem desenvolvida, era, para ela, difíceis de ir. Mas sua vida mudou quando visitou Geyikbayiri, na Turquia.

Geyikbayiri é a maior área de escalada esportiva na Turquia, com mais de 850 vias, e está situado a 25 km da movimentada cidade turística de Antalya. O local é frequentado praticamente somente com escaladores.

Foto: Mortitz Attenberger

O plano inicial era ir à Turquia por uma semana. Porém, a abundância de vias e a facilidade de encontrar parcerias transformou sua perspectiva do mundo. Nasim Eshqi ficou lá por três meses. Até os dias de hoje, religiosamente, dedica três meses do seu ano ao lugar.

Figura sempre presente no acampamento JoSiTo, faz todos os contatos para que consiga visitar outros lugares do mundo para escalar. Sua simpatia, carisma e educação tem conseguido contornar esta dificuldade de encontrar parcerias. Além disso, por conta de sua performance atlética e força de vontade, possui apoio de duas marcas britânicas para seguir praticando o esporte que ama. A DMM e Rab são apoiadores da atleta iraniana.

 

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Além de viajar para escalar em novas lugares e conhecer novos parceiros de escalada, a outra força motriz na vida de Nasim é treinar pessoas para escalar. Sua motivação para isso nasceu da falta de parceiros de escalada no Irã. Mas como os ginásios de escalada de seu país são pequenos, pois o esporte ainda engatinha no Irã, além de separar os frequentadores por gênero, Nasim procura fazer de sua prioridade pessoal treinar pessoas.

Nasim Eshqi afirma que “minha experiência de escalada mais memorável tem levado as meninas ao ar livre a a escalar. Eu só queria levá-los uma vez por causa da responsabilidade. Mas eles estavam tão animados que eu não pude parar”.

 

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“Meus favoritos são meninas de 5 anos e acima. Apesar de viver num país tão tradicional e religioso, gosto de olhar para além do gênero, religião… etc. Espero que através de meus esforços eu possa inspirar qualquer um e eu sei que eu abri rotas que outros achavam impossíveis e encorajei homens a experimentá-los fazendo isso”, completa Nasim Eshqi.

A relativa falta de parceiros no Irã não deteve Nasim. Sua determinação pode ser constatada pelo seu desempenho em algumas das vias mais difíceis de seu país. Irã-Suíça (anteriormente classificada como 8b+ francês (10c brasileiro) mas decotada por Nasim para 8a+ (10a brasileiro) em 2014) em Polekhab, nos arredores de Teerã. Ela passa o ano passando 6 meses treinando e escalando no Irã, e o restante do ano viajando em busca de novos lugares para escalar.

 

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Para quem ainda possui algum preconceito a respeito de homens e mulheres na escalada, Nasim possui uma declaração até simpática: “Não importa se eu sou menina ou um menino, preto ou branco, iraniano, alemão, americano ou britânico … a gravidade nos puxa para baixo com a mesma força”.

No ano passado, a história de Nadim inspirou a cineasta Francesca Borghetti, que elaborou um documentário realizado com financiamento coletivo e exibido no Trento Film Festival, o festival de cinema mais antigo do mundo. O filme, entretanto, ainda não foi disponibilizado para a apreciação do público.

 

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