Importância da preparação física para a escalada

A perfeição do funcionamento do organismo humano em todas as suas facetas é fascinante e notável é nossa habilidade para executar um número sem fim de tarefas, que vão desde o manuseio de uma agulha a pilotagem de um ônibus espacial.

A evolução humana é incessante em todos os seus aspectos e diariamente podemos testemunhar essas transformações através dos avanços tecnológicos, o aumento na capacidade de aprendizado e cada vez mais pessoas trabalhando em prol da coletividade.

Como ocorre nas demais áreas do conhecimento, frequentemente também são descobertas novas variações de movimento, que acompanham o aumento da capacidade física dos atletas bem como a inclusão de novas modalidades e práticas corporais.

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Na minha visão pessoal, uma das características mais fantásticas do nosso corpo é a sua capacidade de adaptação.

Graças a ela hoje conseguimos testemunhar feitos antes considerados impossíveis, como homens correndo 100 m abaixo de 10 segundos, ou uma mulher permanecendo por mais de 18 minutos sem respirar em apneia estática numa piscina, ou mesmo escalar picos acima de 8000 m sem auxílio de oxigênio.

Todas essas conquistas só puderam ser concretizadas após muito treino e muitas tentativas ao longo do tempo por intrépidos visionários que acreditaram nos seus sonhos, e foram acima de tudo notáveis.

Para entender como tudo isso foi possível e como funciona esse mecanismo é preciso compreender um pouco sobre o princípio da supercompensação.

De maneira muito simplificada, a supercompensação seria definida como a capacidade do organismo em aumentar a sua capacidade de trabalho, graças a uma adaptação gradativa a cargas mais elevadas de acordo com a progressão de treinamento.

Foto: Cena Filme 9a Road

Foto: Cena Filme 9a Road

Independente da natureza do treino, a cada sessão de treino o organismo é submetido a um determinado estímulo, que eleva o nível de estresse e “quebra” a nossa homeostasia (capacidade de autorregulação dos seres vivos para manutenção do equilíbrio das suas funções internas).

Se a periodização do treino e a recuperação estiverem adequadas, a linha homeostática e a capacidade de trabalho irão se alterar para suportar cargas mais elevadas, como mostrada de forma simplificada no gráfico abaixo.

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Ilustração: Leonardo Oshiro

Como ocorre em todas as outras modalidades esportivas, sejam elas recreativas ou de alto rendimento, a preparação física na escalada é fundamental, independente do estilo do escalador (indoor, bolder, esportiva, alta montanha, etc).

A especificidade do trabalho de preparação garantirá os melhores resultados, pois aprimora as habilidades específicas de cada modalidade, ajudando o atleta a atingir seus objetivos com maior segurança, diminuindo o risco de lesões e aumentando as chances de sucesso.

Foto: Cena do Filme Crossing Ice

Foto: Cena do Filme Crossing Ice

Se pegarmos o exemplo de um escalador de alta montanha, além dos inúmeros preparativos para a expedição e o tempo dedicado na concretização do projeto, muitos podem pensar que apenas uma adaptação adequada à altitude garante o sucesso do cume, quando a capacidade de continuar gerando contração muscular em altitudes onde a absorção de oxigênio é comprometida é tão ou mais importante do que a própria adaptação.

Já um atleta de boulder não vivencia os contratempos da altitude e permanece menos tempo na via, porém permanece em contração muscular constante quase 100% do tempo que está na rocha, necessitando de muito mais preparo para gerar força em isometria (contração muscular sem movimento da articulação) do que um atleta de alta montanha.

Foto: Cena do Filme High Tension

Foto: Cena do Filme High Tension

Portanto, para o preparador físico, é imprescindível entender as predominâncias fisiológicas de cada modalidade para traçar um programa de treino adequado.

Já para o atleta, não basta apenas executar o treino proposto, mas também respeitar os períodos de descanso, se nutrir de forma adequada e principalmente estar muito atento aos sinais do corpo, como dor, fadiga ou exaustão precoce constante, pois esses fatores podem ser indicadores de um quadro de supertreinamento e são fundamentais para uma boa continuidade da periodização de treino.

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