História das marcas: Deuter

Continuando com a nossa série de biografias das marcas mais famosas do mercado. Nacionais e internacionais, e da mesma maneira que faz com os principais ídolos, o objetivo é disponibilizar a história do esporte para quem quer saber mais sobre ela. Hoje, a marca é a alemã Deuter. O objetivo é, além de trazer um pouco da história de empreendedorismo, traçar um paralelo com a história da humanidade.

O sobrenome Deuter foi disponibilizado a uma família pela primeira vez na Prússia (região histórica que se estendia da Polônia até a Letônia), onde o nome surgiu na época medieval como uma das famílias notáveis da região. A partir do século XIII, o sobrenome foi identificado com a grande evolução social e econômica que fez deste território um marco contribuinte para o desenvolvimento da nação alemã.

Até 1806, as regiões de língua alemã da Europa Central incluíam mais de 300 entidades políticas. Em 1871, em virtude do processo de unificação alemã, o reino da Baviera passou a fazer parte do Império Alemão (1871-1918) conhecido como Deutsches Reich.

Descendente da família Deuter, Hans Deuter fundou uma empresa que ostentava o seu sobrenome e, a princípio, dedicava-se a fazer mochilas para os carteiros e malas postais do correio alemão. A sede da empresa ficava na pequena Augsburg-Oberhausen, no estado da Baviera (o maior estado da Alemanha) que, nos dias de hoje, possui aproximadamente 25.000 habitantes.

Com a demanda e os lucros obtidos com os contratos com a companhia de correios da região da Baviera (em alemão Bayern), a empresa expandiu-se em 1905, produzindo sacos de linhagem, cobertura de frete, mantas para carros e cavalos, além de incluir um departamento que oferecia aluguel de barracas.

Guerras

Próximo ao indício da primeira guerra mundial (1914 a 1918), em 1910 a Deuter começou a suprir a demanda para as forças armadas do exército alemão e começou então a fabricar mochilas, cintos, barracas e para os militares. Com o contrato com o governo alemão, a entrada de recursos permitiu que a empresa estivesse preparada para o período instável da primeira guerra mundial.

Após a primeira guerra mundial, em resumo, a Europa evoluiu, com presidentes no lugar de príncipes, automóveis circulando pelas ruas, expansão da indústria do cinema e rádio, ente várias conquistas sociais. Logo após a primeira guerra mundial, a partir de 1919, a Deuter expandiu-se novamente e começou a fabricar malas, mochilas, barracas e lonas de caminhão para toda população da Alemanha.

A partir desta época, a divisão de produção de mochilas torna-se uma sociedade anônima. Assim a Deuter passou a ter seu capital dividido em ações e a responsabilidade dos sócios ou acionistas é limitada ao preço de emissão das ações. Nas entrelinhas, significou que a empresa tinha crescido e não mais dependia somente do governo alemão para sobreviver.

Pouco antes da segunda guerra mundial, a Deuter começou a dedicar-se a desenvolver equipamentos para alpinismo. Dentre seus produtos mais icônicos está a Deuter Tauern, que foi usada na expedição ao Nanga Parbat (8.126 m) em 1934. Seu nome virou sinônimo de qualidade na Europa quando o alpinista alemão e guia de montanha Anderl Heckmair usou um modelo Tauern na conquista da face norte do Eiger (3.970 m) em 1938.

Esta migração foi o ponto chave para sobreviver um outro período turbulento na história da Alemanha: A segunda guerra mundial, que durou de 1939 a 1945. Mesmo assim, políticas de “esforço de guerra” (mobilização social coordenada de recursos industriais e humanos visando o suporte de uma força militar), impostas pelo governo alemão à época, fizeram com que todos os equipamentos e barracas da Deuter fossem adquiridos pelas forças armadas alemãs.

Pós-guerra

As consequências da guerra foram severas para todas as fábricas alemãs, e com a Deuter não foi diferente. A ideia de desindustrialização da Alemanha permaneceu fazendo parte da plataforma dos Aliados (países vencedores da guerra) e uma política chamada Plano Morgenthau foi idealizado. Pelo plano, a Alemanha seria condenada a tornar-se um país primariamente agrícola e de caráter bucólico. Os idealizadores deste plano eram Franklin Roosevelt, presidente dos EUA, e Winston Churchill, primeiro ministro da Inglaterra.

Por sorte das indústrias alemãs o plano não foi implementado. Ficou decidido na Conferência de Potsdam, em 1945, que a capacidade industrial alemã seria limitada a 50-55% do seu nível de 1938, ou a aproximadamente 65% daquele de 1936. Algum tempo depois, esse nível foi elevado para 100% do nível de 1936 nas zonas sob ocupação americana e britânica. Os objetivos da conferência incluíram igualmente o estabelecimento da ordem pós-guerra, assuntos relacionados com tratados de paz e contornar os efeitos da guerra.

A Deuter então fez um plano de engenharia econômica e administrativa para desenvolver novos produtos. O objetivo deste plano era usar a capacidade existente para melhorar os produtos e expandir a empresa. Quase 10 anos depois, o montanhista austríaco Hermann Buhl, o qual é considerado um dos melhores montanhistas de todos os tempos, fez a primeira ascensão do Nanga Parbat (8.125 m). A Deuter foi a responsável por equipar toda a expedição com mochilas, barracas e malas.

O diferencial para os produtos da marca alemã foi que algumas das mochilas Tauern foram fabricadas a partir de perlon, uma alternativa ao nylon. Nos anos seguintes, Deuter equipa numerosas expedições ao Himalaia e o feedback obtido auxilia fortemente no desenvolvimento de produtos inovadores. À época a Deuter já era considerada pelos melhores montanhistas da Europa, como um dos principais fornecedores de mochilas para alta montanha.

No final da década de 1960, no ano de 1968, a Deuter produz a primeira linha de mochilas de nylon do mercado. A qualidade era tão elevada em comparação aos produtos dos concorrentes, que logo se torna o novo padrão de tecido para mochilas.

Pouco depois, já na década de 1970, a empresa é reconhecida como a principal fabricante de mochilas, malas e bolsas da Alemanha. Com o reconhecimento desta qualidade a empresa passou a ser a fornecedora de mochilas para a equipe olímpica alemã.

O ano de 1984 é quando a Deuter introduziu um novo design revolucionário na armação das mochilas: o sistema Aircomfort. O sistema é baseado em uma malha tencionada, que permite a circulação de ar nas costas e que proporciona maior conforto térmico. A malha criava um espaço de ventilação entre as costas do usuário e a mochila, permitindo que o ar úmido escape pelas laterais e pela parte superior da malha.

Testes subsequentes realizados pela empresa no Instituto Hohenheim, demonstraram que os atletas que usam o sistema suam até 25% menos que os sistemas de mochila sem ventilação, permitindo melhor desempenho físico com menos desconforto. A invenção foi a maior revolução de design de mochilas da época e muitos concorrentes o introduziram nos últimos anos.

Sabendo investir em atletas patrocinados, que fornecem feedback interessantes, a empresa se associou ao alpinista austríaco Peter Habeler, que era parceiro de Reinhold Messner, que além de sócio passou a ser consultor técnico da Deuter. Ele testa as mochilas em suas expedições e em novos desenvolvimentos de produtos para as condições mais extremas até 1991.

Fábrica no Vietnam

Desde então, a Deuter vem sendo reconhecida como o principal produtor de mochilas da Alemanha e um dos maiores da Europa. No ano de 1997, a empresa, ou pelo menos a sua administração, mudou para Gersthofen. Desde 1994 a Deuter transferiu a manufatura de seus produtos para uma fábrica no Vietnam.

No ano de 2005 a empresa lançou o sistema SHIELD, projetado especificamente para esquiadores e ciclistas recebendo o Prêmio Eurobike Gold pela inovação. Em 2006, a Deuter lança o SL fit (slim line) especificamente projetado para mulheres e em 2009, lançaram os modelos EL (extra longos) projetados para pessoas mais altas.

No final de 2017, a Fair wear, organização independente da indústria para melhorar as condições de trabalho nas fábricas, publicou uma denúncia contra a Deuter, na fábrica que possui no Vietnã. O queixoso afirmou que os contratos de trabalho dele e de seu colega de trabalho foram ilegalmente rescindidos unilateralmente pela fábrica.

Mesmo assim, de acordo com o jornal britânico The Guardian, A fábrica da Deuter no Vietnã. A Deuter é uma empresa que tem sabido lidar com a cultura de excesso de horas extras (um fator decisivo para assédio e abuso de empregados na Ásia) e é considerada uma empresa exemplo de boas práticas e como as marcas podem influenciar a mudança de mentalidade.

Atualmente os produtos da empresa são conhecidos como um produto típico alemão no melhor sentido desta frase: sólido, confiável, construído para durar. No Brasil, a mochila passou a ser vendida a partir de 1994.

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