Himalaia 2019: Mortes, nenhuma via relevante e muitos fatos para refletir

Terminou oficialmente na última sexta-feira dia 31 de maio, a temporada de escalada 2019 no Nepal. A maioria dos acampamentos das montanhas com mais de 8.000 metros de altura já foi fechada, terminando assim uma das mais melancólicas temporadas de montanhismo da história. A temporada 2019 ficará marcada por fatos vergonhosos (isso para dizer o mínimo), como o elevado número de mortos, que foi elevado, mesmo sem nenhum desastre aéreo. A explicação sobre o elevado número de mortos no Himalaia foi publicada em uma análise detalhada aqui na Revista Blog de Escalada.

Em termos de montanhismo, não somente de números, foi uma temporada pouco emocionante, sem qualquer ascensão relevante e que serviu para enriquecer a história do esporte. Ao contrário disso, houve as tentativas desesperadas de aparecer com as campanhas de marketing, as quais nada tem a ver com o montanhismo, como levar um saxofone (assista ao vídeo no corpo do artigo) ou saltar de parapente do topo do Monte Everest.

Melancolia no Himalaia

Foto: Nirmal Purja

A temporada de primavera de 2019 no Monte Everest (8.848 m) era cercada de muita expetativa, com muitas propostas interessantes, em termos de montanhismo, com linhas ousadas que prometiam uma época de grandes feitos para o esporte. Mas não há de se negar que montanhistas que ambicionavam ficar em evidência para palestrar e vender glórias vazias, acabou não contando com a já famosa foto do congestionamento no Monte Everest.

A mídia tradicional, que sempre preferia fazer vista grossa para os feitos vazios de alpinistas sociais, além de colaborar com as ações de marketing que afrontavam o espírito do montanhismo, parece ter feito o mea-culpa. A foto de Nirmal Purja mostrou que todo montanhista que denunciou a superlotação do lugar estava correto e não era nenhum exagero.

O montanhista Reinhold Messner, constantemente criticava a exploração desenfreada e sem critérios do Monte Everest. Esta reclamação é o equivalente ao jogador de futebol Pelé criticar a maneira com a qual os campeonatos e times de futebol praticam o esporte na atualidade. Agências de marketing travestidas de veículos de imprensa, que sempre exploraram quase que exclusivamente o montanhismo no Monte Everest, chegaram a se calar constrangidas com a foto de Nirmal Purja. Estas ainda tentaram fazer uma matemática imprecisa e enganosa, usando a porcentagem de mortos em relação à população total do campo base, como se isso tornasse os óbitos irrelevantes.

Nenhum dos projetos de novas vias de ascensão foram concluídas em todas as montanhas acima de 8.000. Como anunciado aqui na Revista Blog de Escalada em primeira mão, os montanhistas Cory Richards e Esteban “Topo” Mena, que ambicionavam abrir uma nova via na face norte do Monte Everest, falharam. Ambos foram atrapalhados pelo mal tempo e tiveram de abandonar a 7.600 metros acima do nível do mar.

No Dhaulagiri (8.167 m), sétima montanha mais alta do mundo e a mais alta do Nepal, os romenos Horia Colibasanu, Marius Gane e o eslovaco Peter Hámor, tinham como objetivo resolver a aresta noroeste, que consiste em uma linha de 4.000 de desnível e dificuldades impressionantes. O grupo somente conseguiu fazer a primeira parte. Quando questionados, a equipe afirmou que foi a ausência de janela de bom tempo que os impossibilitou de completar a escalada.

Monte Everest sem oxigênio

Atualmente o maior mérito de escalar o Monte Everest é fazê-lo em o uso de tanques de oxigênio. Para que seja feita uma equivalência com o futebol, da mesma maneira como foi feita acima, é considerar subir a montanha mais alta do mundo, como fazer mil gols em uma carreira de jogador de futebol. Subir sem oxigênio é o equivalente a igualar a marca de Pelé.

Em contrapartida, subir o Monte Everest com tanques de oxigênio e carregado pelo sherpa, é o equivalente ao feito do folclórico jogador Túlio Maravilha, que também fez mil gols (todos em divisões inferiores e campeonatos de menor expressão). Para quem é montanhista de carteirinha, não somente aquele que quer usar a montanha mais alta do mundo como trampolim para carreira artística ou palestrante, e usou um tanque de oxigênio seria o equivalente aos mil gols de Romário.

O ano de 2019 também ficará marcado como o de menor ascensões sem tanques de oxigênio. Poucos tentaram e a maioria que tentou, acabou desistindo. O destaque ficou por conta do chileno Juan Pablo Mohr que fez cume no Monte Everest e no Lhotse (8.516 m) sem oxigênio e com menos de uma semana de diferença de uma ascensão da outra. Elisabeth Revol também fez cume nestas mesmas duas montanhas. Mas a não utilização de tanques de oxigênio ainda está sendo contestada.

Nirmal Purja o destaque da temporada

O nome da temporada 2019 do Himalaia foi Nirmal Purja, um ex-soldado que criou um projeto ousado batizado de Project Possible 14/7, com o objetivo de subir as 14 montanhas com 8.000 metros acima do nível do mar em apenas sete meses. Nesta primavera, como noticiado em primeira mão pela Revista Blog de Escalada para a América Latina, Nirmal Purja deixou o mundo assombrado a ter feito ascensão em nada menos que seis montanhas acima de 8.000 metros.

Em pouco mais de um mês, Nirmal Purja subiu o Annapurna (8.091 m), Dhaulagiri (8.167 m), Kangchenjunga (8.586 m), Monte Everest, Lhotse e Makalu (8.481 m). Lembrando que o Everest e Lhotse fez em um só dia. Vale a observação que suas conquistas foram usando um estilo “moderno” de montanhismo, pois passou por vias já equipadas com cordas fixas, uso de sherpas e de helicóptero. Mesmo assim, Nirmal Purja realizou talvez o maior feito em anos no Monte Everest: mostrou a superlotação de maneira crua e que impactou veículos de comunicação de todo o mundo. Sem sombra de dúvida, haverá um antes e um depois após a foto de Purja ter ganhado as notícias do mundo inteiro.

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