Eslovênia: O que faz este país o maior formador de escaladores esportivos da atualidade?

A Eslovênia tem sido por muitos anos uma das nações líderes em escalada de competição no mundo. Com pouco mais de 2 milhões de habitantes em todo o país, também possui poucas grandes academias de escalada. Se juntarmos o número absoluto de academias, não deve ultrapassar o número de estabelecimentos no Brasil. Ao mesmo tempo em que, inegavelmente, está crescendo os números de grandes ginásios no mundo, a Eslovênia não faz parte deste crescimento. O sucesso da escalada no país do sucesso vem baseado em muitas academias pequenas e antigas, além de uma filosofia de trabalho que é mesclada com a cultura da sociedade eslovena.

Talvez o exemplo mais cristalino seja Martina Čufar, escaladora esportiva que venceu o Campeonato Mundial de vias guiadas em 2001 e, desde então, a equipe feminina tem sido, mais ou menos, a primeira colocada no mundo há 17 anos consecutivos. Durante os últimos anos, especialmente os nos boulders, os atletas masculinos mostraram um progresso incrível. No ranking da International Federation of Sport Climbing (IFSC) de equipes de 2018, a Eslovênia foi a segunda colocada em boulder e também em vias guiadas.

O segredo da Eslovênia

Foto: IFSC/Eddie Fowke

Existe alguém que possa dar uma explicação de que um país relativamente “pobre”, se comparado com as nações Europa Ocidental, com pouco mais de 2 milhões de habitantes e com poucas instalações de escalada indoor modernas, pode ser tão bem-sucedido no esporte?

A partir desta questão, uma outra pergunta também parece válida: As pequenas academias eslovenas, muitas das quais ficam nos porões dos prédios do país, são melhores do que as academias modernas?

Todos sabem que muitos dos atletas de alto nível treinam em lugares extremamente estruturados, principalmente fazendo alguns treinamento de resistência em paredes pequenas. Mas como explicar a todos estes que treinam em academias chiquérrimas, com aparelhos futuristas, quando ao mesmo tempo atletas do calibre de Jernej Kruder, que ganhou no boulder em 2018, mas também escala muito forte na rocha, fazendo muito mais com muito menos. Pois se existe a teoria de que as estruturas de academias que trazem os resultados a ateltas, os eslovenos estão acabando com elas.

A coisa mais impressionante ao observar vários atletas eslovenos e treinadores durante os últimos 15 anos, é como eles começam jovens e o número de horas de escalada que eles praticam diariamente. A maioria das escolas primárias e secundárias tem uma parede pequena. Maioria dos melhores atletas começa por volta dos oito anos de idade. E neste detalhe é que está o grande diferencial do sucesso da Eslovênia em competições de escalada: a constante renovação da geração de atletas.

Fosse possível fazer uma comparação com o futebol brasileiro, que é conhecido pela constante renovação de jogadores, a Eslovênia segue a mesma ideia. Enquanto uma atleta, como Janja Garnbret ganha todos os campeonatos, outras revelações são procuradas e desenvolvidas. Um exemplo disso é Vita Lukan, que à sombra do fenômeno Janja Garnbret, tem ganhado todos os campeonatos juvenis da Europa.

Na escalada, o planejamento de sua federação, assim como dos profissionais que trabalham com o esporte, é idealizada em médio e longo prazo. Já com 13 anos de idade, é normal que o melhor escalador esloveno faça várias competições e escale por volta de 15 a 20 horas por semana, das quais uma grande parte também na escalada em rocha.

Mas não é somente o planejamento o segredo do sucesso da Eslovênia. O país também é conhecido por ter um grande espírito de equipe, e isso colabora para não fazer o sucesso desaparecer na fogueira de vaidades do esporte. Lá não existem dirigentes, atletas e técnicos querendo aparecer mais que o próprio esporte e, mesmo trabalhando de maneira voluntária, não há necessidade de reconhecimento a nível de heróis.

Atletas que se destacaram no passado não apresentam a necessidade de serem reconhecidos como heróis. Quem estiver na administração da federação, seja qual for o nível hierárquico, realiza gasto responsável e inteligente dos recursos. A austeridade nos gastos, além da ausência de necessidade de ostentação, garante vários patrocínios para a equipe. Os patrocínios vão desde o uniforme da seleção eslovena (que é feita pela Adidas), para a seleção e até para atletas de maneira individual.

Não é visto pela federação gastos irresponsáveis, como transmissão de streaming para dentro do país. Todos os recursos recebidos, patrocinadores e governo, são investidos na seleção e na preparação de todos os níveis de atletas. Esta “responsabilidade fiscal” garante, a longo prazo, a constante renovação de atletas e o sucesso esportivo do país.

O segredo da Eslovênia ter os melhores atletas em todos os níveis, e em todas as disciplinas, passa pelo planejamento longo prazo e por administração lúcida de recursos recebidos pelos patrocinadores. A eliminação de conflitos de interesses, respeito pelos atletas e uma união entre as academias de todo país, em torno de um interesse comum, parece fazer deste pequeno país o maior celeiro de estrelas da escalada esportiva.

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