Entrevista com Rafael Gribel

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Foto: Rafael Gribel

Existe uma realidade que acomete a todos os escaladores e montanhistas que decidem estar à frente de alguma entidade representativa que é a que deixa-se de ser “pedra” e torna-se “vidraça” para a comunidade.

O mineiro Rafael Gribel, presidente da FEMEMG vive esta realidade a 4 anos e acumulou várias conquistas e realizações para a federação de seu estado.

Sempre conjugando muito bem o verbo “nós ganhamos e nós perdemos”, nunca terceirizando a culpa por nada, nem muito menos se eximindo dos erros, Gribel é sem dúvida um dos melhores políticos do esporte existente no Brasil.

Mesmo sendo voluntário na FEMEMG, continua a se dedicar à escalada e montanhismo sempre que possível.

Para falar um pouco mais de como é o lado de um voluntário da escalada, a Revista Blog de Escalada procurou Rafael Gribel para um conversa e fomos educadamente recebidos.

O resultado de todas as respostas de Rafael nos presenteou em uma das mais interessantes e didaticas entrevistas realizadas no site até o momento.

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

Rafael, você está a um bom tempo na presidência da FEMEMG como está sendo esta tarefa para você?

Na verdade, eu faço parte da FEMEMG há 4 anos (2 anos como Vice-Presidente e 2 anos como Presidente). E o que eu tenho a dizer é que a tarefa tem sido extremamente árdua, mas ao mesmo tempo extremamente gratificante.

Eu acredito muito no crescimento e desenvolvimento do montanhismo e essa é a principal motivação que nos leva a trabalhar voluntariamente pelo esporte.

Quando temos notícia de pessoas que largaram as drogas para escalar, que mudaram seus valores e se tornaram pessoas mais humildes e generosas por causa do esporte, temos certeza de que o trabalho que fazemos é muito importante.

Acreditamos realmente que o montanhismo pode ser um fator de transformação nas vidas das pessoas e na sociedade em geral.

Este ano a FEMEMG optou por aceitar filiações individuais, porque foi tomada esta decisão?

Minas Gerais é um estado muito diferente de todos os outros, e precisávamos adaptar nossas iniciativas à essa especificidade. É o estado com o maior número de municípios do Brasil, e a grande maioria desses municípios têm uma população de menos de 100.000 habitantes.

Além disso, é um dos estados com maior potencial para a escalada do Brasil. Resumindo, muita pedra para todos os lados, e pouca gente em cada cidade escalando.

Nesse cenário, o modelo de clubes não funcionou muito bem, é só olharmos para trás e vermos o número de clubes e associações que foram criados e fechados ao longo dos anos por falta de associados, ou por falta de renovação nos cargos de diretoria.

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

Percebemos então que existia muita gente nessas cidades do interior com vontade de ajudar a federação, mas que não conseguiam por morar longe dos grandes centros e/ou não se identificar com os clubes e associações existentes.

Esse é o público que queremos como filiados individuais.

Na sua opinião, as federações devem ou não se preocuparem com a organização de campeonatos de escalada?

Claro! Essa é uma obrigação estatutária da FEMEMG, e acredito que seja também das outras federações.

Assim como as federações de outros esportes também são responsáveis pelas competições.

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

Vejo as competições como o principal meio de divulgação da escalada na sociedade, mas tenho que admitir que a FEMEMG não tem se esforçado muito nesse âmbito.

Nos últimos anos, tirando o esforço pontual de algumas academias e pessoas, não tivemos muito envolvimento com as competições, até porque direcionamos os nossos esforços principalmente para as questões relacionadas às proibições e fechamento das áreas de escalada.

Na minha opinião pessoal, acredito que o movimento criado a partir da desfiliação da CBME à IFSC será muito importante para a evolução das competições no Brasil. Vejo com muito bons olhos a criação da ABEE – Associação Brasileira de Escalada Esportiva, pois junta um grupo de pessoas que têm nas competições o seu foco principal.

Acredito ainda que o melhor teria sido criarmos um braço dentro da própria CBME ou das federações, mas entendo que às vezes as opiniões entre os grupos são divergentes e acho muito sadio que novas associações sejam criadas para representar os seus interesses.

Isso amplia o nível da discussão, agregando novos pontos de vista, e possibilitando uma evolução mais representativa do esporte.

Hoje Minas Gerais conta com Clubes que funcionam como administradores de áreas de escalada. Como o MONTIS por exemplo. Este é um modelo que tende a se popularizar no Brasil?

Essa é uma excelente pergunta!

Acho que só o tempo dirá. Esse modelo de associação/clube funcionou realmente muito bem em MG, é só dar uma olhada nas últimas três associações filiadas à FEMEMG: Montis, AENMG e AESC.

As três têm mais ou menos o mesmo foco e foram criadas com os mesmos anseios: cuidar de alguns picos de escalada aos quais os associados se identificam mais.

É um modelo bem diferente do tradicional modelo de clubes excursionistas europeus que deu muito certo no Rio de Janeiro (presumo eu que pela característica mais forte do montanhismo tradicional do RJ).

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

O que temos visto é que esse tipo de associação cria um vínculo muito forte dos seus associados com essas áreas de escalada, e acredito que isso possa ser muito benéfico principalmente na relação dos escaladores com os proprietários das terras.

O Montis, por exemplo, desenvolveu uma relação muito forte de parceria com os proprietários da Lapa do Seu Antão, e isso acaba tendo reflexos muito positivos para a visão da sociedade em relação aos escaladores. Além disso, as chances de os proprietários fecharem o acesso caiem drasticamente nesse caso.

A AENMG e AESC têm feito a mesma coisa, e com muito êxito.

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

É tudo muito novo, e estamos ainda em fase de descobrimento e adaptação em MG. A escalada em MG começou a se popularizar há pouco mais de 20 anos, e ainda estamos descobrindo a nossa identidade. Muitas associações e clubes foram criados e extintos, tanto em BH quanto no interior, ao longo desses 20 anos.

Minas é um estado muito grande e a diversidade é enorme.

Cada região vai precisar passar por um processo de amadurecimento para entender qual o melhor modelo para cada caso.

Felizmente, temos tido um número muito grande de novos praticantes em todas as regiões do estado, e acredito que a federação tem um desafio muito importante de divulgar os preceitos básicos do montanhismo (mínimo impacto, respeito ao meio ambiente, respeito ao direito autoral, etc) e ao mesmo tempo atender aos anseios das novas gerações que possuem necessidades específicas que precisamos entender para nos adaptarmos.

Acredito que essas associações têm um papel muito importante nessa interface da federação com os novos praticantes.

Algumas áreas de escalada que estavam fechadas para a comunidade escalar estão sendo abertas. O que representa estas vitórias para você?

Essa é a parte mais gratificante do todo o nosso esforço!

Acredito que a abertura dos locais fechados é prova da legitimidade do nosso movimento. Digo movimento porque a escalada é muito mais que um esporte, para não usar o clichê “estilo de vida”.

É uma luta constante para tirar as pessoas do pseudo conforto e segurança das cidades e colocá-las de volta em contato com o ambiente natural.

É muito gratificante que as instituições governamentais e a sociedade em geral estejam mudando o seu ponto de vista sobre a escalada.

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

 

Hoje já somos convidados pelas instituições para fazermos parte dos conselhos consultivos dos parques, antes mesmo da formação destes, e de maneira geral, os gestores dos parques em MG têm se mostrado muito abertos a receberem a atividade de escalada.

Mas acima de tudo, acho que a abertura das áreas de escalada tem mostrado uma importante evolução quanto ao uso público das unidades de conservação. Após muitos e muitos anos de muita conversa entre as associações/federações e os órgãos públicos, conseguimos passar o nosso recado e estamos sendo finalmente ouvidos.

Mas mais do que isso, acho que conseguimos mostrar os benefícios que as atividades dentro dos parques podem proporcionar para a sociedade em geral.

Em alguns países cursos de escalada são regulamentados, e quem não é credenciado não pode ministrar aulas de escalada. Você acredita que em breve estaremos com esta realidade implantada no Brasil?

Não acho que isso vá acontecer muito em breve. Acredito que esse movimento só vai acontecer quando tivermos um mercado, e sociedade, suficientemente maduros para exigir isso dos profissionais.

A escalada ainda é um esporte muito desconhecido e mistificado, e acima de tudo muito pouco divulgado.

Á medida que aumentarmos o número de praticantes, e a quantidade de informação sobre o esporte, poderemos divulgar um pouco mais os riscos que estão envolvidos, e a importância de se procurar profissionais qualificados para fazer um curso.

As eleições de 2014 fizeram algum candidato querer se aproximar da FEMEMG, ou este tipo de realidade ainda é distante?

Felizmente (acredito eu), não sei de nenhum candidato que procurou algum clube ou a FEMEMG para fins eleitoreiros (ainda).

Tivemos alguns contatos de vereadores no passado mas que não deram muito certo.

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

 

Mas, após as eleições, tivemos conhecimento de um deputado estadual, irmão de um montanhista, que já se dispôs a nos ouvir e nos ajudar com o que for necessário.

Acho que este é um passo muito importante para nós, pois pela primeira vez teremos acesso livre a alguém do legislativo e poderemos encaminhar nossas demandas de forma mais direta (sem precisar mendigar) a alguém que conhece o nosso esporte e poderá entender melhor as nossas necessidades.

Os organizadores do guia da Pedra Rachada realizaram um trabalho final exemplar. Como a FEMEMG visualiza esta nova safra de guias de escalada para os locais de Minas Gerais?

Isso é fantástico!

Tive a oportunidade de ver o guia da Pedra Rachada, e os organizadores fizeram um trabalho exemplar!

Não vejo como o nosso esporte possa crescer sem esse tipo de iniciativa.

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

Foto: Acervo Pessoal Rafael Gribel

Disponibilizar a informação, e em alta qualidade, é o primeiro passo para a popularização e massificação do esporte. Além disso, esses guias sempre têm uma parte dedicada à história e ética do local.

Esse tipo de informação é muito importante para que todos possam usufruir dos picos de escalada, entendo as suas especificidades e contribuindo para que os acessos se mantenham sempre abertos.

 

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