Como são os desafios de se ter um muro de escalada

Foram muitos anos de sonho. E sonho mesmo. Daqueles que você fica se colocando na situação, pensamento em loop, criando soluções para os possíveis problemas que surgirão, imaginando-se na rotina. Houve tentativas (mais de uma!), mas todas frustradas. Mas aconteceu, com sabor de cadena, tamanha a dedicação: consegui ser proprietário de uma academia de escalada.

Fiquei feliz, claro, com a realização do sonho. E por isso atendi prontamente o convite da Revista Blog de Escalada para falar sobre como tem sido, e compartilhar um pouco dessa experiência.

Desafios prévios à abertura

O processo não foi nada fácil. A começar pela filosofia do projeto: onde seria, qual tamanho, o que ofertaria. Quais públicos atenderíamos, que tipo de aulas, que tipo de boulders. Ai vem a parte física do muro mesmo. Pensar no layout, estabelecer as inclinações, distribuir no espaço. Pensar na usabilidade das paredes, quem seriam os escaladores que mais se beneficiariam. Pensar em como as aulas estariam inseridas nesse espaço, pensar em como o parkour e outras atividades poderiam se comunicar.

Para suprir essas necessidades, decidimos contar com uma empresa de arquitetura especializada. Queríamos um espaço aberto, confortável e funcional, sem perder a estética, até porque um objetivo nosso era permitir que nossos alunos não tivessem pressa para sair do local. Aproveitar a escalada, aproveitar o dia.

E ainda temos o planejamento das agarras. Na Eleva utilizamos um padrão de cor similar ao que se faz nos muros de escalada europeus: os boulders/vias são marcados com agarras da mesma cor, sem uso de fitas coloridas como era padrão nos muros nacionais; também utilizamos a mesma cor para o mesmo nível, ou seja, todos os boulders verdes tem níveis similares, todos os rosas também, e assim por diante. E a escolha por esse layout também foi difícil porque teríamos que selecionar as agarras antecipadamente por nível, tornando as agarras de uma determinada cor exclusivas para aquele nível, inviabilizando o uso para outros níveis.

Outro ponto-chave foi a equipe. Alinhamento com nossa filosofia era crucial, e não foi tão simples encontrar colaboradores que se enquadrassem em nossos objetivos, especialmente por que não queríamos abrir mão de alguns quesitos chaves. Um quesito, por exemplo, (e soará bastante óbvio!) mas não queríamos abrir mão de ter escaladores no grupo. E não apenas escaladores, mas escaladores apaixonados! Pode parecer que não, mas profissionais que entendessem de escalada, fossem atuantes no esporte, responsáveis e profissionais, e transmitissem nossa filosofia a cada atendimento não é algo tão fácil de se encontrar. Engajamento com o projeto, ‘positive vibes‘ e outros itens também pesaram, e não poderíamos estar mais satisfeitos com nossos monitores, professores e profissionais.

Também podemos mencionar aspectos de planejamento empresarial: marketing, serviços ofertados, financeiro, sistemas informatizados, gestão de pessoal. Definir o local do muro de modo que pudéssemos atender bem nossos clientes, com estacionamento adequado, por exemplo. Lidamos com burocracia bancária, cartorária, empresarial; burocracias, inclusive, que teriam sido muito mais complicados se nós não tivéssemos na equipe um contador (eu) e um advogado (Hugo).

Com planejamento feito, hora de implementar. Por mais que o planejamento tivesse sido cansativo, ele não deixava de ser prazeroso. Mas quando iniciamos as obras, ai nos deparamos com o primeiro crux.

 

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Nós definimos um tempo total para planejar, executar e inaugurar de 75 dias. Prazo bastante curto para repaginarmos 500 m² de galpão, especialmente para executar um projeto de escalada no qual não é tão fácil encontrar serralheiros, marceneiros e outros trabalhadores do ramo conhecedores do tema. Sem falar que tínhamos recursos escassos, então o preço era sim fator decisivo.

Mas tocamos para frente: nós quatro nos revezávamos constantemente na obra. E tome trabalho. Não é exagero dizer que performamos um pequeno milagre! Não foram poucas as noites que viramos pregando placas de madeira, furando vigas, cortando placas, carregando material. E acordando no dia seguinte para mais reuniões.

E dessa primeira parte do projeto, ficou claro alguns problemas sérios no nosso país para quem vislumbra empreender na escalada. Nossa prestação de serviços, via de regra, é muito ruim. Foram vários problemas que tivemos com vários tipos de prestadores. Ora o prazo era bastante ruim, hora o preço era bastante elevado, hora o serviço em si era péssimo. Variáveis diversas tornavam o cotidiano em uma constante reflexão sobre as melhores decisões a se tomar. E não me refiro apenas a serviços da obra como vidraçaria, marcenaria, serralheria. Outros prestadores demonstram bastante inabilidade comercial, o que torna todo trabalho lento, estressante, complicado, como por exemplo a demora para encaminhar uma proposta, e para o comerciante esse tempo é normalmente mortal. Também vale ressaltar nossa famigerada burocracia. E que burocracia! Junta Comercial, Secretaria de Fazenda, Receita Federal. Órgãos redundantes, procedimentos ineficazes.

Mas entregamos. Fizemos nossa inauguração. E adoramos, por fim, o resultado. Queríamos mais, claro, mas a receptividade da comunidade foi fenomenal. E esse talvez seja um dos fatores mais gratificantes da Eleva, nossos clientes, amigos, parceiros. Tivemos problemas com a lona, por exemplo, o que obrigou as espumas ficarem aparentes (hoje resolvido). Tínhamos uma área de treino que gostaríamos que estivesse pronta para uso, mas também ficou para depois (hoje resolvido). Mas tudo isso foi irrelevante ao final. Recebemos diversos feedbacks positivos, muito apoio. Visitas de amigos, praticantes, leigos.

E o pós?

 

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Funcionamos há apenas 4 meses, mas que 4 meses. Todos os dias trabalhamos para fortalecer o que não está bom. Pensamos nas aulas, melhorar o atendimento, aprimorar a infraestrutura. Focamos muito na qualidade de nossa montagem de boulders para garantir qualidade, diversão. E somos reconhecidos por isso!

Apoio e good vibes tem sido uma constante em nosso dia a dia. Recebemos pessoas diversas, todas sempre com palavras amigas e de motivação. Elogiam o espaço, nos posicionam quanto nossos serviços, nos incentivam quanto a novas ideias. Nossos alunos tem voz ativa conosco, e isso ajuda nosso espaço a estar sempre melhorando.

E não há problemas?

Falar que não há problemas é reducionista, mas não consigo também citar grandes e complicadas situações a resolver. No que tange os clientes eu diria que inexistem questões complicadas. Mesmo as “reclamações” tem muito mais tom de sugestão e incentivo. Até porque focamos muito em transparência, além de estarmos constantemente aprimorando os serviços, o espaço.

Problemas encontramos quando lidamos com os prestadores de serviço de infraestrutura. Reparo na parte hidráulica, elétrica, física, sempre trazem um pouco de dor de cabeça. Encontramos problemas quando temos que lidar com burocracia e legislação: tributos abusivos, legislação complexa. Mas nada que não seja parte do trabalho.

Enfim, o que posso garantir para vocês é que o trabalho é constante. Independente do ramo, empreender requer bastante “resiliência”. Mas para nós que batalhamos em cada projeto, e sabemos que o preço da cadena é muitas vezes alto, não nos abalamos.

Te esperamos na Eleva.

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