Como iniciar na alta montanha: Parte II – Autoavaliação

No artigo inaugural da série apresentamos uma proposta de autoavaliação para que os interessados na alta montanha possam determinar se possuem o perfil desejável para realizar atividades esportivas nesse tipo de ambiente. Devido às condições rigorosas e extremas da alta montanha, querer participar de uma expedição sem ter o perfil adequado significa perda de tempo e dinheiro, além de sofrimento e decepção.

Nesse segundo artigo vamos propor uma nova autoavaliação, desta vez para que cada um análise se possui os requisitos mínimos para uma iniciação à alta montanha.

Eu tenho a experiência mínima para partir para a alta montanha?

Vista do Sairecabur – https://www.denomades.com

Ir para a alta montanha deveria corresponder a um estágio a mais, em um processo contínuo de aprendizagem no contexto das atividades de montanhismo, escalada e trekking, que pressupõe estágios anteriores que deveriam ter sido previamente superados. Por ser um ambiente cujos fatores como altitude, clima, topografia acidentada, etc. trazem novos tipos de problemas e dificuldades para a prática de esportes de montanha, o ideal seria ir para a alta montanha com um mínimo de conhecimento e experiência, para que as atividades possam ser executadas com segurança e prazer.

Com a maior oferta de expedições comerciais nos dias atuais, muitos partem direto para a alta montanha, pulando os estágios iniciais do processo de aprendizagem que mencionamos, às vezes sem ter nem mesmo um perfil adequado (quem não leu, recomendo que leia o artigo anterior).

Os requisitos que vamos apresentar são uma base mínima para uma autoavaliação. Vários outros tópicos deveriam ser levados em consideração, antes de uma decisão final sobre se estamos preparados para uma expedição de alta montanha, como aspectos relacionados ao estado de saúde, fatores psicológicos, disponibilidade de orçamento para viagens internacionais e investimento em roupas e equipamentos, etc.

1 – Preparo físico

Foto: Marcelo Delvaux

O requisito básico para participar de uma expedição de alta montanha é ter um bom preparo físico, principalmente uma boa capacidade aeróbica. Foge dos objetivos e dos limites do artigo definir o que é um “bom preparo físico”. Mas podemos fazer uma definição “por exclusão”: se você não tem o hábito de praticar esportes, não possui um bom histórico esportivo ou não realiza atividades físicas com regularidade, nem pense em ir para a alta montanha.

Devido à baixa pressão de oxigênio, é muito mais difícil realizar uma mesma atividade acima de uma determinada altitude do que no nível do mar, por exemplo. Seu corpo sofrerá muito mais, e as exigências físicas serão bem maiores, no ambiente de alta montanha.

A recomendação é fazer avaliações físicas, médicas, fisioterápicas, etc. com profissionais qualificados e especializados. E treinar de forma específica e orientada, visando objetivos previamente determinados. Vá para a alta montanha quando sentir que sua capacidade física e aeróbica está acima do que seria a sua média de desempenho, com o necessário aval dos profissionais envolvidos em sua preparação.

2 – Experiência em acampamentos

Foto ; https://www.camptocamp.org

Pode parecer um detalhe sem importância, mas ir para a alta montanha sem nunca ter acampado na vida pode significar noites de insônia devido à sensação de desconforto trazida pela falta de costume de dormir em uma barraca, sem uma cama com colchão.

Mesmo tendo o preparo físico e aeróbico adequado, procure acumular experiência em acampamentos, ganhando familiaridade com o dia a dia em uma barraca e outros detalhes relacionados à vida ao ar livre.

3 – Experiência em trekking

Trecho do Circuito Ausangate | Foto Marcelo Delvaux

Ter experiência em trekking ajuda bastante em um melhor desempenho na montanha, já que o trekking trabalha o tipo específico de exercício que fazemos quando estamos nos deslocando no ambiente de alta montanha. É uma das atividades recomendadas e que deveriam ser incluídas em um plano de treinamento visando a subida de alguma montanha. Não basta ter um bom preparo físico e aeróbico, caso esse condicionamento tenha sido adquirido em atividades urbanas, como em academias, corridas de ruas, etc. É importante ter contato com o ambiente natural durante os treinos, incluindo condições climáticas desfavoráveis (sol, vento, chuva, frio, etc.).

Roteiros de trekking de vários dias também permitem ganhar experiência em acampamentos, caso sejam realizados em regiões sem infraestrutura hoteleira, além de proporcionarem uma atividade extensiva, e não somente intensiva, como é o caso dos treinos concentrados em algumas horas, durante os dias de semana.

Não ter experiência em trekking não seria uma condição impeditiva para quem desejar ir à alta montanha, dependendo do histórico esportivo e do condicionamento físico de cada um. Mas, pensando em um processo de aprendizagem evolutivo, ganhar experiência em trekking antes de ir para a alta montanha seria bastante desejável. Uma ideia interessante seria, após um período praticando trekking no Brasil ou em locais de baixa altitude, realizar alguns roteiros de trekking em alta montanha, antes de programar objetivos de montanhismo e escalada em altitude, visando a ascensão de alguma montanha.

4 – Experiência em terrenos acidentados

Foto: Marcelo Delvaux

Esse é outro tópico que parece banal, mas muitas pessoas que vão para a alta montanha têm dificuldade em caminhar pelas trilhas acidentadas desse tipo de ambiente. Por isso, diríamos que não basta ter um bom preparo físico, um excelente condicionamento aeróbico e experiência em trekking, se não temos o costume de transitar por terrenos que oferecem algum tipo de obstáculo. Infelizmente, no Brasil não temos nenhum ambiente que se pareça com a alta montanha para treinarmos esse aspecto e, geralmente, só quem pratica esportes mais técnicos, como os escaladores de rocha ou espeleólogos, tem o hábito de percorrer caminhos irregulares.

A maioria das trilhas usadas pelos praticantes de trekking no Brasil (com exceção de alguns roteiros em locais como a Serra do Mar, Mantiqueira, Itatiaia e Serra dos Órgãos) não possui dificuldade técnica e poderiam ser melhor enquadrados em uma categoria que em espanhol se chama “senderismo”, ao invés de trekking. Com isso, quase não se desenvolve a habilidade de percorrer trechos acidentados nas trilhas brasileiras. Quem conhece o que é se deslocar acima dos 5 mil metros por entre sedimentos glaciares sabe bem a diferença.

No ambiente de alta montanha, mesmo montanhas não técnicas requerem uma aproximação que implica em caminhar por grandes pedras, trilhas desniveladas, muitas vezes expostas a abismos, trechos desmoronados, moraines (morrenas) glaciares, etc. Quem não tem a habilidade requerida para esse tipo de terreno, mesmo possuindo um condicionamento físico acima da média, pode ter sérios problemas durante uma caminhada de alta montanha, implicando em baixa performance e, até mesmo, desistência.

O ideal, antes de tentar a ascensão de uma grande montanha, seria praticar trekking em ambiente de alta montanha, em roteiros de dificuldade progressiva, para familiarizar-se com os obstáculos comuns a esse tipo de ambiente.

5 – Experiência em escalada

Paso Campa a mais de 5 mil metros de altitude, com as típicas apachetas para afastar os maus espíritos | Foto: Marcelo Delvaux

Ter experiência em escalada não é um requisito obrigatório para ir à alta montanha, mas é bastante recomendável por três motivos. Primeiro, porque é uma atividade excelente para se trabalhar o lado psicológico. No artigo anterior comentamos que os aspectos mentais e psicológicos correspondem a 50% dos fatores envolvidos na ascensão de uma grande montanha. Não basta estar bem preparado fisicamente, é preciso ter o domínio psicológico para enfrentar os rigores encontrados na alta montanha. E ter experiência em escalada pode ajudar a desenvolver esse autodomínio.

Conhecer as técnicas básicas de escalada também ajuda em nosso deslocamento no ambiente de alta montanha. Muitas vezes, para nos aproximarmos a uma parede de escalada em rocha no Brasil, é necessário passar por obstáculos muito parecidos com aqueles que encontramos na alta montanha. E a prática da escalada aumenta nossa coordenação motora, ampliando o leque de movimentos que somos capazes de executar.

Por fim, para aqueles interessados em subir montanhas técnicas que envolvem escalada em gelo, é imprescindível saber escalar em rocha, antes de entrar em uma expedição com essas características. Buscar uma iniciação na alta montanha através de um curso de escalada em gelo, sem ter um mínimo de experiência e conhecimentos em escalada, significa uma menor capacidade de assimilação do conteúdo do curso. E a habilidade para se escalar em gelo será maior, já tendo uma vivência prévia na escalada em rocha. Vale lembrar que, na maioria das rotas técnicas, não encontraremos somente gelo, mas terrenos mistos, com gelo, rocha e neve. Voltando a falar sobre o processo de aprendizagem evolutiva, que mencionamos no início do artigo, a escalada em gelo deveria ser um estágio posterior ao domínio das técnicas de escalada em rocha.

6 – Experiência em altitude

Vista do Artesonraju

A aclimatação à altitude é um tema complexo, que ultrapassa os objetivos do artigo. Por ora, diríamos, somente, que ter experiência prévia em altitude também não seria um requisito obrigatório para quem deseja iniciar-se na alta montanha, mas bastante recomendável, pelo seguinte motivo: a única forma de sabermos se nosso corpo vai adaptar-se bem às condições de baixa pressão de oxigênio encontradas na alta montanha é indo para a altitude.

Há quem se aclimata com facilidade e há quem não aclimata de maneira nenhuma. E há aqueles que se aclimatam somente depois de um período mais longo. Mas para saber isso é preciso subir, não existe nenhum exame médico que possa fornecer essa informação de antemão, no conforto de um laboratório.

Por isso, a recomendação, antes de tentar a ascensão de uma grande montanha, seria realizar alguma viagem em locais situados acima dos 3.000 m e dos 4.000 m, para ver como o corpo se comporta. Cidades como La Paz, na Bolívia, e Cusco, no Peru, oferecem essa possibilidade sem necessidade de se submeter aos rigores de uma expedição de alta montanha. Nesses locais é possível contratar passeios turísticos convencionais que superam os 4.000 m e, até mesmo, os 5.000 m (como no caso da estação de esqui de Chacaltaya).

O próximo passo poderia ser algum roteiro de trekking em alta montanha. Nos Andes peruanos e bolivianos é possível fazer trekking acima dos 5.000 m, sem necessidade de subir nenhum cume. Pensando em um processo evolutivo, seria a melhor maneira de ganhar experiência em altitude, antes de partir para as grandes montanhas andinas ou do Himalaia.

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