Como contornar o medo de não poder cair durante uma escalada

No mês passado David Villegas, nosso treinador espanhol, e eu estávamos lecionando clinicas em Chacabuco, no Chile. Durante nossa última clínica, ouvimos uma garota perguntando ao seu assegurador: “Eu posso cair aqui”? Ela estava fazendo uma travessia desde a última chapa, bombada, e encarando uma queda em pendulo. David virou para mim e disse: “Acho que você tem outro assunto para suas lições por e-mail. Como queremos saber se podemos cair? Por meio de outra pessoa ou por nossos próprios critérios? ”.

Fazer uma pergunta infere que uma decisão deve ser tomada; estamos decidindo se vamos nos comprometer ou não com a ação. As decisões separam a preparação e a ação. Nos preparamos ao pensar sobre o risco, coletando informação. Agimos fazendo-o, escalando através do risco. O propósito das decisões é medir o que descobrimos na preparação com nossa experiência e tomar um risco apropriado.

O que significa tomar um risco apropriado? “Apropriado” aponta em nossa direção, riscos que nos levam para fora de nossas zonas de conforto, mas também diminuem a possibilidade de lesão. Ir muito além de nossa zona de conforto pode causar lesões, medo aumentado ou até mesmo a morte.

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Portanto, como decidimos o que é um risco apropriado para nós? Primeiro, avaliamos se estamos em uma zona de queda-sim ou de não-queda. Zonas de queda-sim são as que não corremos um grande risco de nos lesionar se cairmos. Nas zonas de não-queda, é provável que nos lesionemos ou pior se cairmos.

É agora que fica complicado. Como sabemos se podemos nos lesionar? A palavra chave aqui é saber. O caminho do guerreiro enfatiza que o conhecimento intelectual é apenas o começo. Para saber algo verdadeiramente devemos ter a experiência. Portanto, para saber o que é uma zona apropriada de queda-sim devemos ter experiência com o tipo de quedas que estamos encarando.

Também, a tomada de decisão sobre o que é um risco adequado não é um processo analítico, e sim intuitivo. A decisão inclui mais do que uma avaliação analítica de todas as quedas passadas comparadas com as estatísticas da queda atual. Ela também inclui a nossa frequência de treinamento de quedas, quais tipos de quedas e aonde as estivemos praticando. É muita informação para medir analiticamente.

Intuitivamente, no entanto, podemos medir com precisão. Fazemos isto prestando atenção à quantidade de resistência que sentimos sobre o risco. Se há muita resistência, significa que o risco está muito fora de nossa zona de conforto. “Apropriado”, portanto, significa riscos que nos empurram um pouco além de nossas zonas de conforto, onde sentimos um nível moderado de resistência.

Foto: http://health.usnews.com/

Foto: http://health.usnews.com/

A queda é a consequência das decisões que tomamos na escalada. Se dependermos de outros para realizar estas decisões por nós, então é provável que nos lesionemos, pois o que é apropriado para os outros não é apropriado para nós. Vamos acabar culpando os outros se nos lesionarmos porque dependemos deles para fazer a análise dos riscos em vez de aceitar a responsabilidade de fazê-la nós mesmos.

É melhor aceitar a responsabilidade por nossas decisões e depender de nós mesmos para determinar o que é apropriado. Fazer isso retêm nosso poder e nos da informação direta sobre as consequências de nossas escolhas. Não há ninguém para culpar. Somos capazes de focar mais diretamente no que podemos aprender da situação que nós criamos.

Se temos que perguntar para outra pessoa se “podemos cair aqui”, então devemos criar uma consciência. Estamos dando nosso poder aos outros e devemos retomá-lo. Fazemos isto realizando treino de quedas para obter conhecimento experimental sobre elas, treinamos medindo os riscos com nossa experiência de quedas, e prestando atenção ao nível de resistência que sentimos sobre tomar o risco.

Fazer isto foca nossa atenção em nós mesmos, em um processo que nos ajudará a tomar um risco apropriado. Faz nossa atenção voltar a nos mesmos para que possamos aumentar nosso poder mental e saber o que é apropriado.

Dica prática: A sensação da resistência

A tomada de decisões não é um processo analítico, mas sim um processo intuitivo. Sintonize sua intuição para a tomada de decisões de risco de maneira apropriada. Para isso preste atenção ao nível de resistência que sente (não que que está sentindo):

  • Nível alto de resistência: O risco não é adequado
  • Nível médio de resistência: O risco pode, ou não, ser apropriado
  • Nível baixo de resistência: O risco é provavelmente adequado

Quando é sentido um nível médio de resistência, busque “pequenas maneiras de conclusão”, para ajudar a empurrar a sensação para mais perto de “alto” ou “baixo”.

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Tradução do original em inglês: Gabriel Veloso

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