Circuito “O”: 10 dias de viagem em Torres del Paine

Por Bruno Fonseca

Dia 1 | São Paulo – Parque Nacional Torres del Paine 18/10/19

Foto: Bruno Fonseca

Esse era o dia, uma sexta-feira, depois de 2 anos planejando essa expedição até o Parque Torres del Paine no Chile para encarar o desafiador Circuito “O” a data de decolar havia chegado. Acordei para fazer pequenas coisas que faltavam e o Nunes foi lá para casa na sequência. Esse era o amigo que me acompanharia em toda a expedição. Saindo aqui da zona sul da capital paulista, minha esposa nos levou à Congonhas e de lá fomos para o aeroporto de Guarulhos com o ônibus da companhia aérea. Tudo normal no embarque as 20:10. Descemos em Santiago de madrugada e fizemos a conexão para a cidade de Punta Arenas, pisamos na região patagônica as 8:20 da manhã na província de Magallanes já no dia 19/10.

No próprio aeroporto de Punta Arenas pegamos o ônibus da empresa Bus-Sur e pagamos 8.000 Pesos Chilenos (CH$) por pessoa e seguimos para a pequena cidade de Puerto Natales. Chegando na rodoviária da modesta cidade onde os guichês da direita vendem a passagem para a portaria Laguna Amarga. Já no Parque Torres del Paine, nesse pagamos mais CH$ 15.000 cada um por fecharmos ida e volta. O preço normal seria de CH$ 16.000 comprando separadamente, mais 110 km pela frente e estávamos chegando finalmente a portaria do parque.

Fizemos o cadastro e pagamos a entrada, que para estrangeiros é de CH$ 21.000. Da portaria para o acampamento Central pegamos a van que leva a 5 km dali e aí se foi mais CH$ 3.000 cada um.

Foto: Bruno Fonseca

Para se ter uma boa ideia de preços, nossa conversão foi de R$ 6,81 = CH$ 1.000.

O acampamento central é enorme e com uma baita estrutura. Tudo muito bem cuidado e bem bonito. Fizemos o check-in e como estávamos muito empolgados com a chegada, a única coisa que podíamos fazer naquele resto de dia foi achar um bom local para montar as barracas na área de camping.

Jantamos e irmos dormir para iniciar a caminhada no outro dia, pois estávamos praticamente virados da viagem.

Dia 2 | Central – Serón 20/10

Foto: Bruno Fonseca

Saímos das barracas às 10:00. Foi uma noite em que dormi em parcelas, mas fiquei feliz por ter sonhado em uma dessas parcelas com meu irmão Marcio. Não consegui me despedir dele antes da viagem, seu trabalho está o exigindo muito.

Fizemos o café da manhã e o Nunes comentou que dormiu a noite inteira. Ele sabe que isso me deixa puto e fala para me provocar. No meio do café uma raposa grande e ruiva passou a um metro e meio da gente, como se não estivéssemos ali. Que animal bonito! Parecia que tinha saído de um desenho.

Mochilas prontas, partirmos rumo ao acampamento Serón que fica a 13 km de distância. Começando oficialmente o trekking, subimos um pequeno morro para esquentar as pernas! Como eu estava ansioso por esse momento de iniciar a caminhada! Andar com a sua casa nas costas, olhando para aquelas montanhas nevadas ao redor me fez ficar pensativo de como temos que presenciar isso pelo menos uma vez na vida.

Andamos em um vale estreito e já era meio dia e meia. Passamos uma porteira de madeira esbranquiçada e entramos em uma floresta na qual a beleza era difícil de se acreditar. Mmuitos troncos com barba de velho e um gramado baixo, tocas de lebre por todos os lados e o vento soprava por cima da copa das árvores. O Nunes a comparou com as florestas inglesas do seriado Vikings.

Foto: Bruno Fonseca

Saindo dali, começamos a descer bastante até que avistamos um vale que me deixou sem palavras. Ao fundo dele o grande rio Paine com sua água turva azul. Parecia que estávamos na frente de um enorme quadro. Descemos a ravina e pisamos no vale e logo um riacho surgiu à frente. Procuramos um jeito de atravessá-lo equando já estávamos quase tirando as botas, meias e a calça para passar por aquela água gelada, encontramos uma pequena ponte escondida na trilha dos cavalos e atravessamos!

Cortamos o vale em um ritmo maior, mas ele não acabou rápido. Antes de chegar no objetivo do dia, nos deparamos com outro riacho e a ponte estava quebrada a leste. Tivemos que improvisar e procurei algo pela esquerda e o Nunes foi pela direita. Achei um local onde o riacho ficava mais curto, mas nem um cara de 2 metros conseguiria atravessar em uma passada. Só e o nível da água cobriria facilmente os joelhos.

Avisei o Nunes e fomos tentar passar. As margens estavam lotadas de plantas espinhosas e isso me trouxe uma lembrança desagradável do pico Santo Agostinho em MG, onde fiquei uma semana com um espinho no dedo sem ver a sua ponta. Botei um pé na raiz que descia pela margem e o outro em um tronco que estava metade mergulhado no riacho. O tronco virou e dei uma lavada no pé, recuei e vi uma tábua jogada do nosso lado mais à direita e coberta com espinhos. Mostrei para o Nunes e ele deu a volta para pegar. Quando me passou a tábua, eu a finquei na raiz para sua ponta cair até a outra margem e deu certinho, escapamos de molhar os pés e seguimos.

Entramos em um bosque e paramos para comer. Percebi que dali para a frente o belo rio Paine nos acompanhava sempre na direita. Saí um pouco do caminho para ir mais perto, apreciá-lo e tocá-lo.A beleza de tudo nesse lugar é surreal. Depois de mais 4 km chegamos ao acampamento Serón.

Dia 3 | Serón – Dickson 21/10

Foto: Bruno Fonseca

Acordei cedo de uma noite mal dormida, fez muito mais frio aqui no Serón do que no Central, os pés demoraram esquentar, saí da barraca as 7h50 e dei uma volta sozinho no camping, o sol já estava alto, acordei o Nunes com um chacoalhão na barraca.

O Serón é modesto, mas nada para reclamar. Uma tenda grande formava a cozinha e tinha dois banheiros e uma ducha quente para cada gênero. É importante sempre procurar saber o horário que é disponibilizada a água quente. Montamos as barracas nas plataformas de madeira, mas não gostei. A sensação foi do habitáculo ficar muito ventilado e isso rouba a temperatura interna. O Nunes concordou comigo. Fizemos o café, lavei a “louça” naquela água de doer de tão gelada. Equipamos e partimos para o objetivo do dia, o acampamento Dickson.

Começamos em uma planície e logo reencontramos o rio Paine novamente.Caminhamos do lado dele por uns 6 km e depois subimos uma colina bem íngreme de uns 200 metros de altura em zigue zague.Quando chegamos no topo tomamos dois socos, um dos ventos mais fortes que já experimentei na vida e o outro da paisagem.Quando chegamos nesse ponto culminante avistamos a imensidão do lago Paine.

O vento era tão forte que me desequilibrei várias vezes perto da encosta do penhasco onde a trilha percorria.O Nunes me chamou para mostrar seu cuspe pegando voo, mas não o ouvia até que ele teve que berrar para eu poder escutar. Essa parte do trajeto vibrei muito e me fez lembrar a subida ao Pico da Bandeira no ES, que fiz com meu velho amigo Luis Urzedo. Continuamos percorrendo a trilha na encosta escarpada do lago Paine até ele acabar. Nesse momento do trajeto para o Dickson tínhamos percorrido uns 8 km e ainda faltavam 11 km, andamos, andamos e andamos.

Foto: Bruno Fonseca

O Nunes tinha um corte profundo na falange do seu dedo indicador esquerdo, que ele fez com sua própria faca no Serón. Isso o fazia andar com o dedo esticado apontando o caminho sem necessidade por conta do curativo, gerando muitas risadas ao longo do trajeto. Chegando a Guardería Coirón, onde passaríamos direto, o lugar estava quieto, paramos um pouco lá e desequipamos. A verdade é que o local estava totalmente abandonado.

Consegui entrar por uma porta dos fundos para procurar sinais de alguém por ali.Mas o cenário era de que não aparecia ninguém há muito tempo. Equipamentos de pintura e ferramentas de marcenaria jogados, tetos caídos e vários focos de mosquitos se reproduzindo em baldes de água suja parada. Vi a luva de alguém jogada com uma foto de criança ao lado. Sai dali, fechei a porta e continuamos a caminhada.

Deixado o Coirón para trás, ainda faltavam 9,5 km para nosso descanso. O tempo passava e os 24 kg das nossas mochilas pareciam que aumentavam a cada passo dado. O fato de levarmos tudo estava se fazendo presente, lembrando que muita gente consegue viajar mais leve por alugar barraca, saco de dormir e isolantes térmicos com as empresas que gerem os refúgios. Mas esse era um fardo que carregamos com gosto. Como dizem meus amigos milicos de infantaria, inclusive o Nunes, “o infante carrega seu conforto nas costas”.

Paramos várias vezes sem desequipar para aliviar a dor nos ombros, que já estavam “gritando”. Minha barrigueira começou a machucar minha cintura por estar muito apertada na intenção de aliviar os ombros. A situação era uma faca de dois gumes.As conversas e risadas já tinham parado faz tempo, o silêncio total era o que se presenciava entre nós.

A caminhada continuava parecendo sem fim. Com os ombros atormentados pela dor, atravessamos um trapiche que parecia novo e cruzava um charco extenso em comprimento. Ali agradeci a Deus por não ter que passar por aquilo na situação de cansaço que já estávamos.

Foto: Bruno Fonseca

A caminhada prosseguia árdua pela exposição grande por causa do peso nas costas. Faltando 2 km para o Dickson tivemos que vencer uma elevação não tão íngreme, mas que naquela altura parecia o final para o cume do pico dos Marins em SP. Perguntei para o Nunes como ele estava. Ele respondeu com poucas palavras, “sugado e com os ombros zuados”. Respondi de volta a mesma coisa.

Pouco antes do topo o caminho virou para direita e eu o pude ver primeiro o camping Dickson. Nunca esquecerei a vista, pois foi um alívio. A surpresa é que ele fica ao pé de um lago onde tinham pequenos icebergs azuis da cor de cialumes. Meu corpo relaxou para aqueles últimos 900 metros. Na descida da encosta escorreguei 2 vezes, mesmo sabendo do perigo desse relaxamento. Não tive como evitar.

Quando finalmente chegamos fizemos o check-in e tiramos a mochila, a dor nos ombros era descomunal. Depois de montar as barracas e tomar um banho quente podemos relaxar com o pouco de sol que nos restava e apreciar a beleza do vale, que dessa vez era bem próximo das montanhas nevadas.

Foto: Bruno Fonseca

Dia 4 | Dickson – Los Perros 22/10

O dia amanheceu e dessa vez o Nunes que me acordou com um berro. Dormi essa noite que nem criança, graças a Deus!

Saímos das barracas no meio de um gramado imenso no camping Dickson.Estávamos longe da casa da cozinha, pois na noite anterior tinha um gerador de energia barulhento lá por perto, onde a atendente me disse que funcionaria a madrugada toda. Quando retiramos as barracas e levamos todos nossos equipamentos para longe do barulho o funcionário foi lá e desligou o maldito gerador.

Olhamos um para o outro e soltamos alguns xingamentos.

Foto: Bruno Fonseca

Tínhamos avisado no check-in que comeríamos o café da manhã que eles oferecem. Lá estávamos no horário combinado e famintos. Quando terminaram de por toda a mesa, o Nunes e eu comemos como se não houvesse amanhã. Devoramos tudo que tinha ali. O valor foi de CH$12.000 para cada um.

Esse era o primeiro refúgio da empresa Vértice Patagônia que chegamos. Os dois últimos eram da Fantástico Sur. Nele tinha o mini market com doces, comidas de camping, refrigerantes e cervejas com a opção de compra com o cartão de crédito. Na janta comprei uma lata de cerveja Austral que custava CH$4.000 ou R$ 27,00.

Equipamos e estávamos prontos para o novo alvo do dia, o acampamento Los Perros a 12 km dali. Não esperava muito daquele trecho, pois meus ombros estavam muitos melhores comparado ao dia anterior. Mas minha pele da cintura ainda estava irritada, como se tivesse passado uma lixa fina. Não tinha muito o que fazer, o sofrimento faz parte e partimos.

Foto: Bruno Fonseca

Erramos um pouco o caminho assim que entramos na floresta, mas o GPS do grupamento logo nos pôs no caminho certo. Os próximos 10 km seriam dentro daquela floresta lotada de árvores caídas. Imaginei o perigo de estar ali e ter o azar de uma dessas cair em cima de nós. As paradas eram rápidas e pegamos algumas subidas difíceis.

No decorrer do caminho as conversas fluíam naturalmente de novo, contamos muito do passado e das coisas boas e ruins já vividas. Lembramos como seria excelente ter todos os caras do Grumesp reunidos ali. Grumesp é a sigla para Grupamento de Montanha e Expedição São Paulo, no qual fundei no começo desse ano de 2019 e que o Nunes é também um integrante, contando com mais 3 grandes amigos.

Cruzamos alguns lamaçais e outros riachos e o rio Los Perros em pontes fixas de madeira, a floresta demorou acabar até a subidas forradas de pedra solta aparecerem.

Vimos no GPS que o mirante do glaciar Los Perros estava próximo. Subimos uma elevação de pedras soltas bem inclinada e eu já o via de longe. Quando chegamos vimos aquela geleira montada em cima de uma montanha e um braço gigante de gelo saindo dela e descendo, criando um lago na base.

Foi espetacular e logo o vento nos deu um soco. Já estávamos nos acostumando com isso. Relaxando com a vista do glaciar, quis aliviar o peso da mochila sem tirá-la, mas só dá para fazer isso sentando em algum lugar. Achei uma pedra traiçoeira e fui descansar um minuto enquanto o Nunes apanhava da sua Gopro. Quando sentei e joguei o peso para trás, caí sem controle nenhum e fiquei parecendo uma tartaruga virada. Os risos foram altos.

Por um minuto pensei o quão privilegiado éramos de poder estar ali. Agradeci a Deus mais uma vez e continuamos seguindo para o acampamento.Antes do glaciar sumir de vista o olhei por uma última vez, pois sabia que não voltaria ali. Da mesma maneira que faço com algumas montanhas que sei que não vou pisar novamente.

Andamos mais 1 km e chegamos no acampamento Los Perros, que ficava embrenhado em uma floresta lotada de malditos mosquitos e o pior sem água quente para tomar banho. A noite foi complicada.

Dia 5 | Los Perros – Grey 23/10

Foto: Bruno Fonseca

Levantamos das barracas as 7h para tomar o café da manhã do refúgio. Ttambém custava CH$ 12.000 por pessoa. Hoje iríamos precisar mais do que nunca. O céu estava fechado e muito frio. Enquanto comíamos, começou a chover e isso colocaria uma dificuldade a mais no trajeto.

Começamos a analisar no mapa para ver o que nos aguardava. Ganharíamos 1.000 metros de altitude em pouco deslocamento linear (isso quer dizer que é bem inclinado) e depois perderíamos 1200 metros de altitude com menos deslocamento linear ainda. Esse era o desafiador Paso John Gardner, o ponto mais alto de todo circuito “O” e automaticamente do “W”. Logo depois vimos que de onde estávamos para o acampamento Grey seriam 16 km.

O Nunes fez uma boa comparação de uma expedição que fizemos meses antes: “é um cume do Pico Paraná ida e volta no mesmo dia”. Nossos psicológicos estavam blindados quanto as elevações, arrumamos as mochilas e partimos as 9:10 da manhã.

Como estava chovendo, a floresta que começamos a subir estava um lamaçal total. Cheia de charcos e obstáculos em forma de raízes. Atravessei um charco e por erro enfiei os 2 pés inteiros dentro da lama. Sorte que estava com uma boa bota e não entrou nada.

Antes da floresta chegar ao fim, presenciamos de perto, pela primeira vez, um bloco de gelo que ali derretia. Mais a frente, quando saímos debaixo da copa das árvores, pudemos ver o tamanho do que viríamos a enfrentar. Podíamos ver o Paso John Gardner quase por completo, o maior obstáculo a se cruzar para quem vem para esse parque.

Nessa hora a vibração e o moral veio em nós com tudo! Sabia que caminharia em cima da neve e gelo pela primeira vez escalando uma grande elevação. As montanhas nevadas tão próximas, me fizeram querer trazer minha esposa, pai, mãe e irmão para poder apreciar por um minuto ali comigo e depois eles fossem para a segurança de casa em um tele transporte. Foi um pensamento doido.

Continuamos avançando e subindo o Paso. Fzemos a primeira caminhada em cima do gelo. Eu fui na frente e vou lembrar para sempre do barulho e sensação do primeiro passo que dei. O Nunes voltou a infância tacando bolinhas de neve para cima, foram momentos de descontração que estávamos precisando.

Foto: Bruno Fonseca

A chuva parou e troquei de jaqueta. Continuamos a subir pegando uma neve bem fofa em alguns pontos. Tinha lugares que afundávamos na neve até quase a virilha. Para sair dali era difícil. Dávamos mais 4 ou 5 passos e a mesma situação voltava a se repetir. Começamos a pegar o jeito de dividir peso nas passadas. Ainda assim a maioria dos passos o pé afundava e a neve cobria toda a bota. Em outros a neve vinha até o meio da canela. Tentamos acelerar mas sem sucesso, percebi que teria que ter paciência com aquilo.

Quando estávamos no meio da subida, pegamos uma inclinação em cima da neve de doer. Era tão íngreme que dava sensação de que se esticasse o braço para frente poderia tocar o chão. Estava muito feliz de estar ali. Era o lugar que mais me chamou atenção no circuito “O”. Olhava em volta devagar para gravar o máximo possível dos detalhes em minha memória. Eu estava alto, no gelo, no vento, no frio, com um amigo e em uma inclinação de respeito. Passamos por aquilo e as subidas com neve iam e vinham. Comecei a pensar no perigo de tanto tempo ali exposto e minutos depois o Nunes me disse: “É! O amor pela neve dura pouco, vamos sair logo daqui”.

Enfim chegamos no topo do Paso John Gardner! Antes de chegar, vi um pássaro gigante sobrevoando por ali. Poderia ser um condor, que é o maior pássaro do planeta. Peguei a bandeira do grupamento para tirarmos uma foto no totem que marcava o ponto culminante.

Depois das fotos, olhei lá para baixo e já não dava para ver de onde viemos. Logo depois que você alcança o topo do Paso, a descida já vem em seguida e com a vista surreal e grandiosa da geleira Grey. Azul quase do tom do céu. Eu gritei “olha a geleira lá Nunes!”.

Na hora em que ele bateu o olho, reparei a sua falta de reação por estar vendo aquilo. A ficha dele demorou um pouco cair e ele chegou a comentar: “Que rio gigante congelado é esse?!!!!”.

Eu rachei de rir e disse que era o Glaciar Grey!

Foto: Bruno Fonseca

A descida começou e mal sabia que estava prestes a pagar meus pecados, o solo era intercalado entre neve e pedras grandes, assim como na subida, porém a descida era íngreme demais. Talvez em uns dez passos descíamos uns 5 a 7 metros. Começamos a escorregar nas partes nevadas e foram alguns capotes.

Lembro de um que escorreguei entre a neve e o barro, deslizando uns 5 metros abaixo, ficando todo sujo das costas até a perna.A descida não acabava e isso estava destruindo meus dedos dos pés. A cada passo descendo, a cada freada, era um pequeno chute interno que eu dava na biqueira da minha bota, que não estava laceada.

A neve ia desaparecendo enquanto perdíamos altitude, mas a descida só estava no início.Entramos em uma floresta lotada de árvores destroçadas, como se um gigante as tivesse puxado e jogado no chão. Na hora percebi que aquele rastro de destruição eram obras de avalanches vindas do Paso J. Gardner e das montanhas em volta.

A descida continuava sem fim e meus dedos já começavam a me incomodar, tirando minha velocidade normal. O Nunes assumiu a frente e tentei ir descendo de lado, para economizar meus pés. Ao todo, descemos 1.200 metros em pouco menos de 2,5 km de caminhada. Para quem não é montanhista o Pico Paraná, por exemplo, tem um desnível de quase 1.000 metros, porém você desce essa altitude andando 8 km no total, dividindo a altitude com mais distância, assim não ficando tão íngreme.

Chegamos perto do nível da geleira e já estava ficando tarde. Já acumulávamos quase 6 horas de progressão. Paramos para analisar no mapa onde estávamos. Ainda faltavam 10 km para chegar no acampamento Grey.

A distância faltante foi um bom teste para o meu psicológico, por causa das dores no pé que estavam cada vez piores. Cada degrau de raiz que eu descia era uma dor considerável. Geralmente rezava por alguma subida para aliviar por um momento.

Foto: Bruno Fonseca

Alcançamos o acampamento Paso que estava desligado como o Coirón a dias atrás. Achamos uma torneira, enchemos os cantis, colocamos clorin e continuamos. O caminho sempre margeava o imenso glaciar Grey e o terreno era uma encosta de subidas e descidas. O tempo todo com várias e várias árvores arrancadas do chão por avalanches, a força desse golpe de neve deve ser assustador de se presenciar.

Faltando ainda uns 6 km, meus pés estavam me matando e não via a hora de chegar no acampamento Grey. Porém ainda estava distante. O Nunes começou a reclamar de dor nos ombros. Toda vez quando tirávamos as cargueiras era de não se acreditar no tamanho que elas estavam. Faltando 2 km tive que tentar pensar em algo que me fizesse esquecer da maldita dor nos pés. Lembrei das boas viagens relaxantes que já fiz com minha esposa e isso me distraiu por alguns bons momentos.

O trajeto do acampamento Paso até o Grey há no caminho três pontes enormes e bem famosas nas fotos que rodam na internet. Pontes feitas de cabo de aço e madeira onde se pisa. Ao atravessar, elas balançam bastante e quando você chega no meio se dá conta do motivo dela ter sido construída: o mini cânion, se é que posso chamar assim é alto para caramba e levaria tempo demais para passar por eles sem as pontes.

Chegando finalmente no acampamento Grey olhei para o relógio e falei para o Nunes fazer as contas de quantas horas estávamos caminhando. Ele parou, pensou e disse espantado: “Pqp quase 12 horas!”.

No Grey reservamos o quarto do alojamento e dormimos em camas decentes. Esse dia elegemos como o mais difícil de todo trekking até então.

Dia 6 | Grey – Paine Grande 24/10

Foto: Bruno Fonseca

Tivemos aquela noite de sono merecida, dividimos o quarto com um mexicano e um alemão, e as tentativas do Nunes de se comunicar me fez chorar de rir! Eu arranhava algumas coisas no espanhol e no inglês, mas a conversa não era tão duradoura.

O acampamento Grey é o último para quem faz o circuito W no sentido horário e é extremamente notável a diferença de estrutura se comparado aos acampamentos que são exclusivos no circuito O, enquanto no O se tinha um banheiro e um chuveiro no Grey tinha-se 6 de cada gênero e ainda com água bem quente, tirando o bar chique onde parecia que estávamos na Vila Madalena, quando chegamos ontem a noite passava o jogo da Libertadores entre Flamengo e Grêmio e os chilenos e os gringos assistiam comendo pizza e bebendo cerveja, ainda na noite de ontem lá estávamos fazendo o check-in todo sujos e sugados, desacostumados a ver tanta gente, já que no circuito O não víamos quase ninguém, exceto 2 casais e o mexicano que dividiu o quarto conosco.

Devoramos o café da manhã no refúgio e partimos para o acampamento Paine Grande, dali para frente começamos o circuito W sentido acampamento Central onde demos início no dia 20/10. A caminhada para o Paine Grande foi de 11 km, e esse percurso elegemos o mais “chato” até então, a paisagem era muito abaixo do que já havíamos visto anteriormente, uma coisa bem diferente é o fluxo de pessoas que era muito maior, em especial vimos muitos idosos fazendo essa última perna do W, para muitos ali era o fim de uma jornada, pois do acampamento Grey se pode pegar um barco para o Hotel Lago Grey e de lá com um ônibus ou taxi voltar para a civilização, os parabenizava nos meus pensamentos quando passavam, um dia idoso talvez eu o faça também.

Saímos cedo para chegarmos cedo, apertamos o passo e chegamos mais cedo que o normal, meu pé estava bem melhor se comparado ao dia anterior, cuidei das duas bolhas, uma em cada calcanhar e a caminhada foi sem dificuldades, foi o dia mais fácil depois do mais difícil, um contraste grande até agora entre o O e o W.

Dia 7 | Paine Grande – Los Cuernos 25/10

Foto: Bruno Fonseca

O acampamento Paine Grande é um dos mais bonitos, a beira do lago Pehoé e o espaço paras as barracas é bem amplo, tem vista para a montanha Punta Bariloche e para os Cuernos del Paine mais ao fundo, uma paisagem de cair o queixo.

No check-in do dia anterior pedimos ao funcionário se poderíamos nos comunicar com nossa família, ele deixou que mandássemos um e-mail cada um dá sua conta pessoal, enviei para minha esposa que já não tinha notícias há 6 dias, rezei para que o e-mail não fosse para o spam.

De café da manhã tomado e equipados começamos a caminhada de 15 km até o acampamento Los Cuernos e no meio do caminho teríamos o acampamento Italiano, onde passaríamos direto. A caminhada até o Italiano foi meio sem novidade, beirando do lado direito o lago Sköttsberg e do lado esquerdo avistando os Cuernos del Paine, quase sempre o terreno plano sem dificuldades, o fluxo de pessoas vindo na direção oposta ainda era grande, uns mal-humorados outros nem tanto, mas a maioria fazia questão de dizer buenos dias ou um hola.

Foto: Bruno Fonseca

O acampamento Italiano foi o primeiro gerido pela Conaf (órgão do governo chileno) que não estava abandonado no nosso caminho, deve ser por estar no W e não no O, de graça, porém muito mal cuidado e sujo, não recomendo ninguém ficar lá, paramos apenas para comer algo e esquentar um café, deixei minha mochila perto de um casal de aspecto de uns 65 anos que estavam comendo por ali, quando terminamos fui pegá-la e quando coloquei nas costas eu falei baixo “oh god” o casal olhou espantado e disse “your bag is big” eu respondi “Yeah” e perguntei de onde eles eram, responderam que eram da Nova Zelândia, eu disse que era do Brasil e a mulher se espantou, “Você é do Brasil!!?” talvez por não ser muito normal ter brasileiros por aqui e realmente não é, estávamos a quase uns 80% do trajeto total e não encontramos nenhum, em seguida eu disse que estava fazendo o circuito O e a mulher se espantou mais ainda e perguntou “vocês estão dando a volta no parque???!!” disse que sim e que estávamos cansados e ela fez uma cara de “nossa deve ser difícil” o homem me perguntou quantos dias estávamos andando e respondi que tinha começado no dia 20, me retirei do espaço de cozinhar e desejei boa sorte para eles e eles me falaram “enjoy”.

Saímos do Italiano faltando 5 km para os Los Cuernos, mais adiante paramos para observar ao longe uma montanha gigante cheia de blocos de gelo prestes a cair, era o Cerro Paine Grande e é o ponto do parque que se têm mais chances de ver avalanches, ouvimos alguns barulhos parecidos com trovões, mas nenhum deslizamento, tiramos algumas fotos e demos no pé, passamos o acampamento Francês e seguimos apertando o passo. Depois disso o caminho foi bem monótono até chegar ao Los Cuernos, a não ser pelo fato de um trecho passar pela praia de pedras pretas do lago com uma cor esmeralda chamado Nordenskjöld, chegando no acampamento Los Cuernos montamos a barraca do lado de um pequeno riacho que vinha da montanha, fizemos a higiene e fomos para o refúgio.

Todos os acampamentos do W geridos por empresas privadas têm uma estrutura excelente no refúgio, comemos quesadillas e tomamos coca-cola. Encontramos nosso amigo mexicano que não víamos a 2 dias e conversamos por horas, consegui me comunicar com a minha esposa graças a ele pelo seu Instagram.

Exclusivamente nesse acampamento todos falam para não deixar a barraca aberta e também nada para fora por conta dos ratos que aparecem a noite. O dia se foi e entramos nas barracas para dormir.

Dia 8 | Los Cuernos – Chileno 26/10

Foto: Bruno Fonseca

Dormi bem e dessa vez fui acordar o Nunes batendo na barraca dele, dormimos com protetores auriculares por conta do barulho do riacho, o destino hoje era o acampamento Chileno, o mais próximo das Torres, até lá tínhamos 16,5 km pela frente, tomamos o café do refúgio pois a caminhada seria longa.

O café da manhã aqui no W é sempre espetacular, nesse tinha até doce de leite para passar no pão e uma geleia de uva gostosa demais, equipamos e partimos.

O mexicano passou por nós e fez questão de parar para nos cumprimentar, tiramos umas fotos com ele e falamos que nos víamos nas Torres, os primeiros 11 km foram monótonos, sempre atravessando riachos que desciam para o lago Nordenskjöld e subindo e descendo pequenas elevações, até um momento que avistei de muito longe o acampamento Central onde pernoitamos 7 dias atrás, pareceu uma eternidade, mas fiquei feliz por conseguir dar toda a volta no parque, ao todo seriam mais de 100 km de caminhada.

Entramos finalmente na trilha a esquerda que seguia para as Torres e no meio dela estava o acampamento Chileno. A subida começou, foi íngreme e com muito vento, mas estávamos tão acostumados que já parecia algo natural o esforço dia-a-dia, a mochila já parecia parte do corpo, o peso era quase o mesmo do começo, mas já não doía como foi no segundo dia de caminhada, o Nunes disse que o corpo se acostuma com o sofrimento diário e tive que concordar.

Foto: Bruno Fonseca

Chegamos na encosta do famoso vale que vemos nas várias fotos a caminho das Torres, onde dá para enxergar a trilha ao longe serpenteando pelo meio do declive, mais 2 km a frente estávamos alcançando o refúgio Chileno.

Fizemos o check-in e nossa plataforma era a 17, o normal é se montar apenas uma barraca em cada plataforma, mas nós demos um jeito e montamos duas, ao fazer a reserva está escrito ‘’plataforma dupla’’ isso faz você se confundir e pensar que são duas plataformas ou uma grande para duas barracas, mas na verdade é uma plataforma para uma barraca para duas pessoas, fica a dica. Quando acabamos de armar tudo começou a nevar, nem acreditei pois tinha comentado dias antes isso com o Nunes “irmão só faltou nevar né”. A neve veio com uma garoa fina antes e em seguida comecei a ver flocos brancos caindo e ficando no teto da barraca, eu berrei “Nunes tá nevando!!” ele olhou, saiu da barraca e começou a girar e gritar “Tá nevando! Tá nevando!” Me rachei de rir. Depois do banho vimos a tempestade de neve aumentar pela janela do refúgio, o Nunes gravou tudo.

O refúgio aqui é lotado como quase todos do W, mas esse é mais, pois muita gente vem para o parque e não faz nem o circuito W e muito menos o O, realizam apenas a caminhada do acampamento Central até aqui, pernoita, caminha até as Torres e vai embora no mesmo dia, por isso têm até crianças no meio de tudo, de todos que estão aqui no refúgio e acampamento só o Nunes, eu e mais 4 pessoas fizeram o circuito O.

A expectativa máxima e o desejo de ambos é que amanhã o dia esteja bem aberto para subirmos nas Torres e fechar com chave de ouro toda a expedição.

Dia 9 | Chileno – Torres del Paine – Chileno 27/10

Foto: Bruno Fonseca

Acordei e estava quente dentro do saco de dormir e o rosto que fica para fora estava gelado, dessa vez mais do que o normal, quando sai da barraca o teto e o chão em volta estava com uma cobertura razoável de neve e ela continuava a cair, para quem nunca teve contato foi algo bem legal, mas que iria nos atrapalhar um pouco. Esse era o dia que subiríamos no principal símbolo e atração do parque, o mirante Torres del Paine, o tempo estava muito ruim, fechado, sem nenhum resquício de sol e um volume bom de neve caindo, decidimos esperar um pouco mais apostando que iria melhorar.

No dia anterior, tive a ideia de pedir para substituírem a nossa reserva no acampamento Central para mais um dia aqui no acampamento Chileno, isso por que é a mesma empresa que opera em ambos os acampamentos, assim poderíamos ter a segunda chance para ver as torres saindo do Chileno que é o mais próximo, conversei com o funcionário do check-in e deu certo, dormiríamos mais uma noite aqui e essa seria a última dentro do parque.

Entramos no refúgio e esperamos, a neve só aumentava, depois de algumas horas ela diminuiu, mas o tempo continuava ruim, esse estava sendo disparado o dia mais frio de todos, cansamos de esperar e partimos, dessa vez mais leves, apenas com água, chocolates e roupas para o frio intenso nas mochilas de ataque.

O caminho iniciava na margem do riacho que cortava o vale e depois subíamos pela floresta, até o final dela teve subidas leves e quando a vegetação ficou para trás começamos a ver o caminho bem íngreme que teríamos pela frente ao meio das pedras soltas, dava para enxergar as pequenas mochilas ao longe e ao alto se movendo com dificuldade e essa é uma imagem que destrói o psicológico de quem não é montanhista, quando se vê nitidamente o quanto de subida que ainda falta.

Foto: Bruno Fonseca

Começamos então a última subida que nos restava e o fluxo de gente indo e vindo era o maior do parque, sabia que estava um frio de lascar, mas não o sentia, essa subida com certeza era o trajeto mais difícil do circuito W. Adotamos a forma de subir sem parar e com passadas rápidas, nós passávamos todo mundo que vinha a frente, todos paravam para poderem serem ultrapassados e os que estavam descendo se esquivavam.

A caminhada até lá em cima era em média de 2 horas e meia, no final fizemos em 2. Aos poucos, em meio e tantas pedras fui vendo as pontas das torres, mas eu queria olhar só quando realmente chegasse, afinal estava prestes a ver uma das maravilhas do mundo, também tinha que me concentrar naquele terreno que era um convite ideal para torcer o pé, nos momentos de distração o risco se potencializa muito e eu não queria aquilo bem no final. Depois de vários zigue zagues subindo por aqueles amontoados de pedras eu as pude ver de frente……….

Naquele momento só me lembro que os pensamentos sumiram, a felicidade de estar e chegar ali era só o que eu sentia, a formação rochosa das torres e o lago verde nos seus pés mesmo com o tempo meio fechado era algo que fugia do padrão de belas paisagens, era espetacular, bonito, selvagem, natural e divino!

Andamos para mais perto do lago e encontramos nosso amigo mexicano, muito feliz também, o mirante estava lotado e fomos para uma parte que era proibida. Tinha pessoas de todos os lugares do mundo, vimos um casal de noruegueses bem idoso, o homem se abaixou perto do lago como se fosse fazer uma flexão e encostou a boca para beber um pouco da água do lago, depois levantou e deu risada com sua esposa, vimos outro cara barbudo e magro que lembrava o estilo do Raul Seixas chegando lá apenas de camiseta e calça comum, ele subiu em uma pedra grande e tirou foto com seu pequeno urso de pelúcia, “que cara louco!” nós comentamos, eu estava com luvas para -4°C e quando as tirava aguentava ficar uns 5 minutos no máximo batendo as fotos, depois disso a sensação era que a mão estava em um balde com água e gelo há muito tempo, como aquele cara estava ali só de camiseta no vento, caindo neve e na temperatura que estava???

Ficamos sentados ali nas pedras apreciando a paisagem todo empacotados, sem frio, mas não tão confortáveis, uma voz lateral cortou nossa conversa, “Vocês são brasileiros?”Para nossa surpresa nesse último dia acabamos de topar com um da nossa terra, na verdade uma brasileira de SC chamada Luriane, ela nos escutou conversando e foi pedir para tirarmos algumas fotos, estava sozinha e foi lá no parque apenas para subir no mirante das torres, depois das fotos conversamos e comentamos como aquele lugar era sensacional, depois de 9 dias eu podia falar português com outra pessoa que não fosse o Nunes.

Em um momento mais solitário quis fazer um vídeo agradecendo o meu grande e velho amigo Luís Urzedo que está na Austrália e foi quem me apresentou essa ideia de viagem há quase 3 anos atrás, fiz o vídeo e enviaria para ele na hora certa. Muito obrigado Lulu!

Já estávamos ali há mais de uma hora e decidimos descer, a Luriane decidiu vir conosco, pois estava acampada na barraca do refúgio Chileno. Fizemos a fila e eu fui por último, dessa vez não olhei para trás como nas outras vezes, naquele momento era somente um até logo para aquele lugar. A descida foi cheia de conversas, mas eu me afastava um pouco as vezes, gostava de analisar todos que estavam subindo, a mistura cultural nesse local é a maior de todo o parque, crianças, idosos, pessoas de todas as raças e portes, umas visivelmente abatidas com a subida, outras cheias de energia, umas com cara de ansiedade outras se hidratando e algumas perguntando quanto tempo faltava até o mirante.

Chegando no acampamento Chileno percebemos o quanto foi bom termos trocado a reserva do Central para cá, assim pudemos tirar as pequenas mochilas, ir tomar banho e depois se quiséssemos já ficar na barraca, mas combinamos depois do banho de comemorar o fim da jornada com bastante cerveja no refúgio e assim o fizemos, pedimos algo para comer e começamos a beber, quando estávamos na quinta garrafa de Austral a Luriane apareceu, ela puxou uma cadeira e sentou-se conosco, começamos os três a papear sobre as experiências anteriores e ela disse algo que me chamou atenção, enquanto fazia sua pós-graduação na Espanha ela fez o caminho de Santiago de Compostela, já tinha lido coisas sobre, mas pedi que ela falasse como foi e com detalhes, o trajeto feito era um dos vários possíveis e foram 400 km de caminhada, entre rodovias e trilhas conhecendo diversas cidades na Espanha durante 15 dias.

Foram mais 4 cervejas e quando vimos só tinha a gente no pequeno bar do refúgio, fizemos uma divisão na conta, pagamos e fomos dormir, a noite estava fria para caramba mas aquilo já não importava tanto, agora era praticamente só questão de tempo para estar de volta a Punta Arenas, de lá para Santiago e depois finalmente para o Brasil.

Dia 10 | Chileno – Punta Arenas 28/10

Acordamos da nossa última noite em barracas, fomos tomar café e a Luriane apareceu depois com um monte de coisas pedindo para que nós a ajudássemos a comer, ela tinha comprado muito e queria aliviar o peso, fizemos esse favor para a catarinense!

Depois fomos arrumar tudo dentro da mochila para ir embora, enquanto fazíamos aquilo o sentimento de que a viagem acabou começou a bater, era mistura de tristeza com missão cumprida e a felicidade de voltar para a família.

A Luriane nos esperou para descer para o acampamento Central, ela ficaria em Puerto Natales e dali iria para El Chatén na Argentina, o Nunes e eu seguiríamos de ônibus para Punta Arenas, a descida até o Central foi de 2 horas e no trajeto pudemos pisar onde acampamos há 9 dias atrás, oficializando assim a volta completa em todo parque Torres del Paine, pegamos a van até a portaria, lá nos despedimos da Luriane e pegamos o ônibus para Puerto Natales.

Na rodoviária em Puerto Natales usando o wifi grátis pude falar com a minha família e dar notícias com mais detalhes depois de 9 dias. Chegando em Punta Arenas encontramos o pequeno “hotel” Ely House, mas que nos serviu perfeitamente, nada a reclamar da dona Ely. Hospedado ali foi só esperar o momento de se deslocar até o aeroporto no outro dia e voltar para a casa.

Quero agradecer muito ao Nunes por ter me acompanhado nessa expedição, um amigo do meu melhor amigo Bruno Paulino, que conheci indo para o Pico dos Marins há 1 ano e alguns meses atrás, sem ninguém para topar a viagem comigo nesse ano de 2019 talvez teria vindo sozinho e não seria boa ideia, o circuito “O” foi difícil mas passamos por ele inteiro um ajudando o outro sempre, a camaradagem cresceu e assim podemos concluir com honras 115 km caminhados com mochilas pesando em torno de 24 kg cada uma, no frio, na neve, no vento, nas subidas e descidas e nas distâncias que pareciam as vezes sem fim.

Obrigado também ao nosso Grupamento de Montanha e Expedição São Paulo (GRUMESP) que são como irmãos para mim! Obrigado a minha família que teve que lidar com a preocupação da falta de notícias.

Muito obrigado Blog de Escalada que está publicando isso para o alcance de muitas pessoas que sonham e planejam fazer o mesmo, espero que tenha ajudado com algumas dicas e passado uma ideia de como é o circuito O em Torres del Paine!

Obrigado Chile, obrigado Deus!

Se alguma dúvida surgir, terei o imenso prazer de tentar ajudar.

Instagram – @brunovocative

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