Agarras cavadas: Por que alguns escaladores estão abdicando de utilizar a inteligência?

Desde meados do ano passado, quando por algum acaso um escalador resolveu expor a sua “arte” de cavar uma agarra de escalada em uma rede social, uma discussão que estava enterrada acabou por ser ressuscitada. Por algum motivo, muitos escaladores que se autoproclamaram rebeldes do status quo da escalada e decidiram defenderem a prática. Justificativas foram jogadas em todas as redes sociais, com o explícito objetivo de apenas gerar comentários raivosos. Nada mais que uma pratica comum no espírito do indivíduo moderno: zueira sem limites. O antigo espírito juvenil de tem carência afetiva e quer apenas chamar a atenção e se divertir falando sandices, para provocar o ódio e indignação em outras pessoas. Uma atitude semelhante à de uma criança falar um palavrão que acabou de aprender, para ver a indignação de um adulto a proibindo de repeti-la.

Infelizmente nos dias de hoje, a preocupação com a educação e cultura está sempre em segundo plano. Basta olhar a nossa volta e verificar que este é um problema real, que afeta duramente nossas vidas todos os dias. Não somente porque mais e mais pessoas estão saindo com uma educação ruim das escolas, colégios e faculdades, mas porque muitos pais falham miseravelmente na hora de preparar os filhos para a vida e para viver em sociedade. A adolescência tardia, aliada ao crônico analfabetismo funcional, despertou um pensamento torpe e equivocado da realidade da escalada e de como abordar temas como cavar agarras na escalada.

Para compreender a profundidade da ignorância, e para aprender a combatê-la, é importante também entender a análise que um escalador faz da realidade para cavar uma agarra na rocha. Entendendo o lado desta pessoa, por mais estapafúrdio que seja, é um caminho a se percorrer para ensiná-la a entender sobre o que é errado. O primeiro, claro, é mostrar a esta pessoa que tudo à nossa volta é uma evolução do que existiu no passado e que, por vários motivos, evoluiu ao que temos hoje.

Portanto, é necessário explicar a estas pessoas, que muito provavelmente possui um intelecto limitado e a autoestima inversamente proporcional (como um Forrest Gump que se sente um Che Guevara), com exemplos palpáveis e simples. Exemplo que mostrem a elas o quanto estão equivocadas de interpretar a realidade à sua própria conveniência e que, por ser uma pessoa que vive em sociedade, deve também aprender a respeitar as outras pessoas. Pois então, vamos ao primeiro argumento destes “cavadores de agarras”: se já existem vias com agarras cavadas, então é somente uma prática impopular, não exatamente uma lei.

Na visão torpe e bocó de um cavador de agarras, ele cavando uma rocha é apenas fazer algo “impopular”, não exatamente está descumprindo nenhum princípio, regra ou lei. Afinal, ele mesmo, que não tem definido o que é se bom caráter em sua personalidade, algo de ruim que existiu serve de justificativa para implementar o que ele quer para si (mesmo que desrespeite imensamente os outros). Explica-se a esta pessoa intelectualmente limitada com um exemplo simples: Nos dias de hoje não mais temos escravos em nossas casas, muito menos vivemos em um regime escravagista. Há pouco mais de 100 anos isso era amplamente aceito, mesmo sendo impopular. Os donos de escravos utilizavam a mesma desculpa de escravizar um semelhante, para garantir a ele o conforto. Conforto adquirido sem qualquer preocupação com popularidade ou ética.

Hoje, no século XXI, é inconcebível uma pessoa ter escravos. Com o tempo, a sociedade percebeu que não mais era aceitável escravizar o seu semelhante, muito menos considerá-lo inferior por sua raça, origem, nacionalidade e religião. Por mais que existam pessoas com preconceito na sociedade atual, todos concordam ao menos no ponto de que é inaceitável existir uma economia escravocrata, muito menos alguém possuir escravos. Atualmente, mesmo sem existir escravos, foram conversados alguns pelourinhos, fazendas cafeeiras e outros lugares que eram centros de concentração escravagista. Esta conservação é para todos lembrarem de como é absurdo o que existiu e nunca esquecer, mas não para lembrar alguém que aquilo pode ser praticado. Deve ser encarado como uma espécie de monumento à estupidez humana.

Esta é a mesma lógica com relação às agarras cavadas na rocha. Uma prática que em algum lugar do mundo, não importa onde, era aceita largamente. Mas atualmente, com a evolução do esporte, a população aprendeu que não mais é algo aceitável. Praticar o ato de escavar uma rocha, para fabricar uma agarra de escalada, é perpetuar uma prática nefasta e vergonhosa que alguns escaladores fizeram no passado. Uma prática, para o bem, ou para o mal, acabou ficando em desuso e condenada pela comunidade de montanha de todo o mundo.

Há exemplos por toda a história da humanidade de práticas realizadas no passado, mas que hoje são consideradas inaceitáveis. Exemplos que passam por todas as áreas: político (como o nazismo e apartheid), religião (inquisição), arte, alimentação, etc. Colocar todos em um texto, ficaria extenso e cansativo. Mas para estas pessoas que gostam de falar de maneira pomposa e supostamente rebuscada, usando palavras elegantes para disfarçar a ignorância cultural e intelectual que possui, sempre haverá uma desculpa para desrespeitar o que quer que seja. Não importa se a prática é aceitável ou não, desde que ela, acima de todas as outras, se beneficie. Seria como tentar ensinar a um cachorro a entender um programa de televisão sobre ficção científica.

Pois, infelizmente, para a resposta à pergunta ao título deste artigo, “Por que alguns escaladores estão abdicando de utilizar a inteligência”, é até simples: porque estes escaladores não a possuem. Porque por mais exemplos que se use para impedir que alguém, ou um grupo de pessoas, sem caráter e educação, a ausência de intelecto irá impedir que elas entendam. Pois para estas pessoas, sempre haverá um exemplo, ou um caso, a citar para que possa cometer absurdos, como a de cavar uma agarra em uma rocha.

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