A história e a evolução do boulder (Bouldering)

Há muitas pessoas que praticam boulder (também conhecido como Bouldering), mas grande parte delas desconhece a história da modalidade. Assim, algumas lendas e inverdades foram perpetuadas ao longo do tempo, às vezes de maneira leviana e outras até pueril.

Tecnicamente falando, o termo bouldering vem do inglês boulder, que significa literalmente grandes blocos de pedras. Por definição, bouldering (a escalada em um boulder) é uma forma de escalada livre realizada em pequenas formações rochosas ou paredes artificiais de rocha, sem o uso de cordas ou cadeirinhas.

Importante salientar que a medida usada para saber o tamanho de um bloco de pedra, ou um boulder, é metros. Não se deve confundir a linha de percurso (a extensão) de um boulder com o tamanho (a altura), mas ambos são medidas em metros, não em “movimentos”.

Qualquer que seja a medida de uma linha de boulder, o estilo é uma derivação da escalada livre a qual é praticada na rocha (depois, nos anos 1980, migrou para as academias também).

Bouldering no século XIX

bouldering

Oscar Eckenstein

A escalada em rocha apareceu pela primeira vez como esporte no final do século XIX. Os primeiros registros descrevem escaladores praticando o que agora é conhecido como bouldering.

A prática não era encarada como uma disciplina separada (como é conhecido hoje), mas como uma forma lúdica de treinamento para escaladas em montanhas.

Foi nessa época, final do século XIX e início do século XX, que as palavras bouldering (a escalada em um boulder) e problem (designada para alguma linha) apareceram pela primeira vez na literatura de escalada. Esses termos são usados até hoje pelos praticantes.

O inglês Oscar Johannes Ludwig Eckenstein foi um dos primeiros defensores da atividade na Inglaterra e considerado por muitos historiadores como o ‘pai’ do boulder. O montanhista inglês era sempre visto praticando a modalidade em rochas do Lake District e do País de Gales na Inglaterra.

Oscar Eckenstein, que possuía habilidades atléticas excepcionais segundo historiadores, foi o pioneiro do boulder e também o inventor do crampon. Além disso, também foi um inovador nas técnicas de escalada e equipamentos de montanhismo, sendo o líder da primeira expedição a tentar escalar o Monte K2 (8.611 m).

Eckenstein era um defensor da escalada sem guia, em um período em que o pensamento convencional nos clubes alpinos exigia que os cavalheiros escaladores fossem conduzidos ao topo dos picos por guias profissionais pagos. Sua longa longa rixa com o Clube Alpino Britânico fez com que muitos de seus membros o denegrissem.

Eckenstein tinha duas irmãs, Amelia e Lina. Lina, e como Oscar, eram politicamente ativas, especialmente nos movimentos pela Liberdade das Mulheres durante a primeira parte do século XX. O britânico vestia-se desleixadamente (ele afirmava enfaticamente que “um montanhista deve ser um vagabundo”), exibia uma barba espessa e tinha, segundo a maioria dos relatos, uma personalidade agressiva e não demorava a mostrar seu desagrado.

Eckenstein não tolerava o Alpine Club, o Clube Alpino Inglês, com seus montanhistas vitorianos envelhecidos. Muitos de seus membros também o evitavam, desconcertados por seu comportamento, suas inclinações socialistas e sua ancestralidade germânica e judaica.

O britânico era bem empregado e recebia um salário regular da International Railway Congress Association, por isso pôde viajar para o exterior em primeira classe, sempre que quis. Seus companheiros de viagem erroneamente o consideraram um excêntrico milionário inglês.

Por estranho que possa parecer agora, Eckenstein foi o primeiro escalador a propor que não é necessário ter mãos e pés grandes para escalar, mas, em vez disso, seria suficiente alguém treinar os dedos e estudasse o papel do equilíbrio na escalada. O britânico se opôs seriamente a divulgar a escalada para um público de massa.

Owen Glynne Jones

Por causa disso, talvez, e de uma natureza briguenta e não complacente, encontra-se pouca referência a ele na literatura de montanhismo daquele período. Essa atitude o colocou em oposição a Owen Glynne Jones, que aproveitou todas as oportunidades para divulgar suas aventuras.

Ao fazer isso, Jones iniciou uma mudança de paradigma e agora é lembrado como o primeiro grande escalador ginástico, enquanto poucos sabem das contribuições consideráveis ​​de Eckenstein para a prática de boulder, escalada em rocha e escalada no gelo.

Como escalador, no entanto, Owen Glynne Jones foi reprovado por alguns de seus colegas, particularmente Aleister Crowley, por usar uma corda em top rope para explorar passagens difíceis antes de tentar sem ela.

Supõe-se que os escaladores britânicos atingiram o nível 5 em boulder (V0 / V1) por volta de 1900. Em 1916 é publicado o Boulder Valley, um guia topográfico que descreve boulders e linhas em torno de Coniston.

No entanto, a grande maioria dos escaladores britânicos recusava-se a reconhecer o boulder como um esporte legítimo em si até recentemente. Por isso os franceses, especialmente nos anos entre as Guerras Mundiais, começaram a explorar a separação do boulder da escalada tradicional.

Há relatos históricos de escaladores praticando boulder sobre em pedregulhos em Fontainebleau, França, em 1874. Os escaladores dessa região foram os primeiros a documentar uma apreciação do esporte.

Boulder no século XX

BoulderingNo início do século XX as rochas da floresta de Fontainebleau se tornaram um lugar importante de bouldering. A prática foi popularizada na década de 1930 pelo Groupe de Bleau e liderado por Pierre Allain.

O Groupe de Bleau (ou Bleausards) era o principal grupo de jovens parisienses montanhistas que, nos anos de 1920 a 1930, iam aos domingos para escalar nas rochas da floresta de Fontainebleau, porque não podiam treinar nas montanhas. A menção mais antiga de escalada em Fontainebleau está no anuário do Clube Alpino Francês de 1910.

O grupo é de fato o sucessor do Groupe de Rochassiers, fundado em 1910 sob a liderança de Jacques Wherlin, e incluindo, em particular, Paul Chevalier, Jacques de Lépiney e seu irmão que deram à luz o lendário High Mountain Group (GHM).

O Groupe de Bleau (GDB) foi fundado em 1924 pela geração que sucedeu aos Rochassiers, com uma certa organização (condições de adesão, um boletim humorístico). O Groupe de Rochassiers dura até a Segunda Guerra Mundial e seu principal líder é Bobi Arsandaux, um dos melhores escaladores de sua geração, mas que morreu jovem nas montanhas.

Mais tarde, em 1931, seus amigos do Groupe de Bleau ergueram em sua memória o refúgio Bobi Arsandaux em l’Envers des Aiguilles de Chamonix. Mais tarde, Pierre Allain (oficialmente admitido em 1933) é que será a referência técnica do grupo.

A amizade dos membros do Groupe de Bleau de 1924 a 1939, nascidos nos primeiros anos do século XX, atravessou as gerações. As reuniões de anciãos ainda eram realizadas na década de 1980 e mesmo na década de 1990.

No ano de de 1913, Jacques de Lépiney, um dos principais protagonistas do montanhismo na França durante o período entre guerras, então com 17 anos, junta-se ao Bleausards. Foi justamente Lépiney que introduziu o uso de alpargatas (Espadrille), um calçado o de lona leve com solado de cânhamo trançado, ou corda tradicional, em muitas regiões quentes do mundo.

Bouldering

Pierre Allain, que começou a escalar em 1920, e seu companheiro de corda Robert Latour souberam por Maurice Paillon em 1929 “que se escala em Fontainebleau em pequenas rochas frequentadas por alguns iniciados”. Estava nascendo um movimento que iria impactar a escalada para sempre.

A prática de usar alpargatas pelos Bleausards inspirou Pierre Allain a desenvolver a primeira sapatilha de escalada (leia a história completa das sapatilhas de escalada aqui). Allain alcançou o nível 5 (V0 / V1) de boulder, na linha Fissure des Alpinistes, por volta de 1933.

A sapatilha de escalada que Allain idealizou, foi batizado com as suas iniciais ‘PA’, foi o primeiro protótipo conhecido. A sapatilha foi fabricada em 1935, acrescentando sola de borracha às alpargatas, embora sua comercialização só tenha acontecido em 1948 por causa da Segunda Guerra Mundial que durou de 1939 a 1945.

O conceito do PA foi adotado pela primeira vez pelo modelo EB de Édouard Bourdonneau e depois por outros fabricantes de calçados de escalada. Entre os escaladores, o PA acaba sendo substituído pelo solado de borracha da Vibram, tornando-se mais adaptado ao aumento da dificuldade das escaladas.

Bouldering

Anos mais tarde, em 1946, René Ferlet estabeleceu o primeiro V3 de Fontainebleau, na linha La Marie Rose. Com o uso de alpargatas e os modelos de sapatilhas de escalada desenvolvidos por Pierre Allain, o boulder começou a ganhar identidade própria.

Em 1947, Fred Bernik idealizou os primeiros circuitos em Fontainebleau como exercícios de treinamento para escalada alpina. Os boulderistas britânicos provavelmente haviam praticado de forma semelhante, mas foram os franceses que formalizaram o conceito.

Curiosamente, foi nessa época aproximadamente, em 1941, que um escalador estabeleceu uma travessia ao longo dos penhascos em Harrison Rocks, perto de Londres, popularizando a prática de escalada em afloramentos de arenito semelhantes aos de Fontainebleau.

Por volta de 1950, Robert Paragot estabeleceu o primeiro V6 de Fontainebleau de com a linha Joker. Mas os Bleausards, trocadilho que serviu de apelido para os que requentavam a região, permanecem poucos em número e consideram sua atividade mais como uma espécie de jogo, na ausência de montanhas.

A moda chega aos EUA

John Gill

Percebendo a escalada como uma extensão da ginástica em vez de uma caminhada, o norte-americano John Gill iniciou uma abordagem de ginástica para escaladas curtas, especificamente o boulder, nos EUA na década de 1950.

Da academia da ginástica formal, Gill introduziu o carbonato de magnésio na escalada em rocha. Inspirado por dinâmicos e pegadas controladas na ginástica artística, Gill começou a praticar movimentos controlados, como uma técnica e também por necessidade.

Foi John Gill que criou a cultura de sequência de movimentos determinados (ao invés da simples subida da pedra), um sistema de classificação da sequência, a importância de treinamento de força (ao invés de apenas técnico) e o aprimoramento de movimentos “controlados dinamicamente” (arremessos).

Todos esses princípios, estranhos à prática clássica de montanhismo e escalada, gradualmente se tornaram o padrão para o boulder moderno. No final da década de 1960, John Gill encadenou linhas de boulder de dificuldade V7 a V9.

Nos anos 1970, o norte-americano Jim Holloway, um dos primeiros escaladores a se dedicar exclusivamente ao boulder, foi um dos primeiros a experimentar a ” trabalhar” um determinado boulder durante vários dias ou semanas. Holloway chegava a treinar para uma determinada passagem num simulador em casa. O escalador norte-americano, nessa época, encadenou a linha Trice, graduada como um V12.

A prática moderna e atlética do boulder, focada na dificuldade máxima e no treinamento físico específico, decolou também na Europa, consolidando a disciplina. A partir da década de 1980, uma nova geração de escaladores emerge em Fontainebleau.

Mas até a década de 1990, a disciplina ainda tinha relativamente poucos praticantes e era restrita a alguns locais de escalada como Fontainebleau (França), Yosemite (EUA), Peak District (Inglaterra) e Frankenjura (Alemanha). Porém, com a popularização do esporte locais que hoje sãoo conhecidos foram inaugurados, como Hueco Tanks e Bishop (EUA), Squamish (Canadá), Rocklands (África do Sul), Albarracín (Espanha), Ticino e Magic Wood (Suíça).

Algumas competições de bouldering também começaram a ser organizadas no final da década de 1990. No início dos anos 2000, o bouldering se popularizou muito com o compartilhamento de vídeos na internet no Youtube e Facebook, facilitando o aprendizado das técnicas e promovendo as conquistas mais difíceis.

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