A história das viagens de mochilão

Entrando na segunda década do século XXI é relativamente fácil entender o que significa um mochileiro. Viagens de mochilão, que pressupõe ser de gastos comedidos e carregando somente uma mochila, são comuns nos dias de hoje. Mas como surgiu as viagens e turismo mochilão?

Aqui mesmo na Revista Blog de Escalada, há diversas histórias de objetos ligados ao estilo de vida de mochileiros (pessoas que fazem viagem de mochilão). Portanto, o artigo a respeito de viagens neste estilo é para escrever sobre um retrato da história. A história do turismo como um todo é muito maior que as viagens de mochilão.

Para entender as viagens de mochilão vamos determinar alguns parâmetros. Entenda com um mochileiro típico aquele que:

  • Viaja da maneira mais barata possível para um determinado destino
  • Se hospeda prioritariamente em hostel ou em couchsurfing
  • Utiliza somente uma mochila (preferencialmente com mais de 40 litros)
  • Possui um orçamento apertadíssimo (portanto, não viaja para realizar compras)
  • Não come em restaurantes caros e geralmente prepara sua própria comida.

Grand Tour

Antes dos séculos XVII, a ideia de viajar era culturalmente considerada como algo negativo. Porque, na época, alguém que viajava deveria estar fugindo de guerras, doenças e tragédias.

A partir do século XVII que viajar se tornou uma forma de educação e formação cultural. Tudo graças ao iluminismo, um movimento cultural que se desenvolveu na Inglaterra, Holanda e França nesta época.

Muito parecido com o Ano Sabático que muitos europeus realizam hoje, muitos homens europeus ricos do século XVII faziam uma “grande viagem” (Grand Tour) pelos países vizinhos antes de se estabelecerem em casamento.

Sim, a despedida de solteiro da época era uma viagem chamada de Grand Tour. Esta prática foi identificada como um marco essencial na existência do turismo moderno. A prática foi estabelecida pelos filhos da aristocracia nos finais do século XVII e se consolidou como um complemento indispensável à educação de um gentleman.

Como pode ser percebido, desde aquela época a oportunidade de viajar era vista como um privilégio. Com o passar do tempo, não somente a nobreza viajava, mas também a burguesia (que começou a ficar independente).

Todas as pessoas que realizavam os seus Grand Tour começaram a ser chamado de turistas.

A revolução industrial

Thomas Cook, o primeiro agenciador de viagens do mundo

A Revolução Industrial foi decisiva para o desenvolvimento do turismo, pois todas as invenções oriundas dela transformaram as viagens. O desenvolvimento tecnológico, tanto nos transportes como nas comunicações, facilitou o aumento generalizado da capacidade de mobilidade dos indivíduos.

Como pode ser percebida na história das mochilas de trekking, a revolução industrial criou materiais e técnicas de fabricação que permitiu que mochilas ergonômicas e de qualidade fossem fabricadas. Além disso, as guerras, especialmente no século XX, ajudaram a desenvolver a cultura de carregar o necessário nas costas.

Por causa dos processos de urbanização e a consolidação de direitos de trabalhadores, tempo de descanso e férias foram concedidos aos trabalhadores para descanso e atividades de lazer.

O foi quando o empresário inglês Thomas Cook em 1841, organizou uma viagem de trem, entre as cidades inglesas de Leicester e Loughborough. A viagem foi para levar um grupo de participantes a um encontro médico. Esta é considerada a primeira excursão da história.

Cook foi um dos primeiros agentes de viagens do mundo.

A ideia de Cook de oferecer excursões apareceu enquanto “caminhava de Harborough até Leicester para participar de uma reunião da Temperance Society” (uma espécie de alcoólatras anônimos). Dedicando-se à exploração da atividade de turismo, criou inovações como o cupom de hotéis em 1968, válidos para uma refeição em um restaurante ou para uma noite no hotel.

A trilha hippie

De acordo com relatos históricos, em 1955 um grupo de estudantes universitários da Inglaterra embarcou em uma expedição terrestre para seguir a trilha liderada por Marco Polo 700 anos antes: a famosa Rota da Seda.

A rota conectava o Oriente ao Ocidente e possuía mais de 7.000 km Os estudantes documentaram suas viagens e publicaram diversos livros sobre o assunto. Foram estes relatos, quando lidos por jovens da épica, que incentivaram o início da “trilha hippie” (Hippie trail).

A trilha hippie tornou-se uma forma de turismo alternativo. Um dos elementos-chave era viajar da forma mais barata possível, principalmente para estender a duração do tempo longe de casa. Assim nasceu os fundamentos da viagem de mochilão atuais.

Os hippies tendiam a interagir mais com a população local do que os turistas tradicionais, não se preocupavam com dinheiro, reservas de hotel ou outro tipo de planejamento de viagem padrão.

A rota que se estendia da Europa à Índia. Este é o momento da história da humanidade em que a ideia de usar como bagagem somente a “mochila” realmente começou a surgir. Como o custo das viagens aéreas era muito alto para estudantes universitários, os potenciais turistas ficaram empolgados com a noção de viajar por terra, por transporte local, trilhas para caminhada e até de carona.

Tudo o que precisavam cabia em uma mochila escolar.

Pelo visual pouco aristocrático, sempre usando roupas baratas e não formais, logo foram identificados por serem “hippies”, pessoas que seguiam comportamento coletivo de contracultura dos anos 1960.

Os hippies usavam roupas velhas e naturalmente rasgadas, para ir em oposição ao consumismo, ou então roupas com cores berrantes para fazer apologia à psicodelia, além de diversos outros estilos incomuns.

Hippies no Afeganistão em 1977 – Foto: Bruce Barrett | https://allthatsinteresting.com/

Os “hippies” (que curiosamente era derivado da palavra em inglês hipster) eram principalmente europeus, japoneses, americanos, canadenses, australianos e neozelandeses, começaram sua aventura em Amsterdã, Paris ou Londres, antes de seguirem para Istambul (Turquia), para começar sua viagem por terra até o Nepal ou à Índia via Irã, Afeganistão e Paquistão.

Conversas sobre o paraíso, praias e drogas legalizadas despertaram o interesse da contracultura e os jovens ansiosos por romper com as estruturas da sociedade. A viagem dos Beatles à Índia em 1968 alimentou ainda mais o desejo de explorar o Oriente por parte dos hippies. Foi o início da Indomania.

Além disso, na época a maconha estava livre para o consumo no Afeganistão, Caxemira e Nepal até 1973.

Com a onda de contracultura e do movimento hippie, as empresas independentes de ônibus começaram a oferecer transporte e muitos compraram minivans e motos para fazer esta longa jornada. Alguns nunca voltaram, pois a viagem era de 10.000 quilômetros e, às vezes, atravessava montanhas e desertos.

No ano de 1972, Maureen e Tony Wheeler viajaram por terra de Londres para a Austrália. Depois de chegar a Melbourne, Tony escreveu o guia “Across Asia on Cheap”, o primeiro guia da editora Lonely Planet. Os autores listaram, com alguns detalhes, a qualidade da droga oferecida ao longo da rota e deu conselhos sobre os melhores lugares para os viajantes doarem sangue por dinheiro se estiverem com pouco dinheiro.

A “trilha hippie” terminou em 1979, quando a revolução iraniana e a invasão soviética do Afeganistão fecharam a rota. Mas a Ásia ainda é o lugar mais popular para os mochileiros.

A mochila com estrutura interna

Ao falar sobre usar mochila, é importante observar o impacto que a National Scenic Trail Act nos EUA foi o que impulsionou práticas de trekking e hiking em geral. A lei, proposta pelo presidente norte-americano Lyndon Johnson em 1965, incentivou os indivíduos a redescobrir a natureza e, sempre que possível, a apreciar a beleza natural que os cerca.

A lei criou uma série de trilhas nacionais “para promover a preservação, o acesso público, as viagens internas e o prazer e a apreciação das áreas ao ar livre, ao ar livre e dos recursos históricos da nação”.

Como explicado no artigo sobre a história da mochila, as viagens de mochilão começaram a ganhar forma quando as mochilas com estrutura interna foram inventadas por Greg Lowe em 1967. A partir de então, usar uma grande mochila para carregar o básico para uma viagem de custo mínimo era a nova moda.

Como a “trilha hippie” estava fechada, outros destinos começaram a ser procurados. Agora, não era obrigatório ir a um trajeto para especificamente consumir drogas. Mas para fazer um imersão cultural.

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