A história da camiseta e seu impacto cultural na sociedade

Praticamente todas as pessoas possuem em seu armário uma camiseta. No Brasil, sobretudo no interior, este item básico é chamado erroneamente também de camisa ou blusa.

Para qualquer esporte outdoor, a camiseta é um item básico e praticamente obrigatório. Não é nenhum exagero afirmar (como poder ser lido abaixo nesse artigo) que essa peça de roupa representa as diversas revoluções culturais do século XX, quando deixou de ser uma peça básica no guarda-roupa para ser a peça-chave.

Diferenças entre camiseta, camisa e blusa

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Entender as características de cada modelo de roupa é essencial para saber o que vestir e comprar. Em tempos de ebulição de comércio eletrônico, a troca dos nomes afeta os resultados de busca.

Saber as diferenças entre camiseta, camisa e blusa é fundamental para entender que tipo de equipamento outdoor deve ser comprado. A principal diferença entre camisa e camiseta pode ser observada pelos botões e abertura central.

As camisas apareceram pela primeira vez em trajes europeus no século XVII, como uma espécie de roupa íntima, projetada para proteger coletes e sobrecasacas (que eram itens caros) do suor e da sujeira. No início do século XVIII, foi quando as camisas assumiram mais importância como vestimentas.

Antes de meados do século XIX, apenas aqueles considerados cavalheiros podiam usar camisas brancas, pois somente eles tinham os meios para comprá-las, trocá-las e lavá-las regularmente. Como as camisas se sujavam com facilidade, as pessoas envolvidas com trabalho manual (e de baixo poder aquisitivo) achavam totalmente impraticável usá-las.

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Somente com o desenvolvimento de técnicas mais aprimoradas de lavanderia, em meados do século XIX, que expandiu o mercado de camisas. Atualmente, camisas são peças de roupa mais formais e possuem botões e gola.

Brown, Davis & Co. era uma empresa da Tailors and Gentleman’s Outfitters e, em 1871, registrou a primeira patente para uma camisa que abotoava toda pela frente (como a conhecemos hoje). Sim, as camisas com colarinho e tudo eram vestidas e tiradas como camisetas no final do século XIX.

Portanto, as camisas que se abriam totalmente na frente eram desconhecidas antes de 1871, quando a Brown, Davis & Co. de Aldermanbury registrou o primeiro “estilo de casaco” de camisa. O tecido da camisa geralmente é feito com opções mais nobres, como a seda, flanela ou linho.

Muitas pessoas consideram a camisa feminina como blusa, especialmente em Portugal. No entanto, enquanto a camisa possui cortes precisos e retos, a blusa é mais solta e despojada e, em geral, não possuem botões.

A blusa possui maior número de detalhes e adornos que a camisa, além de possuir também um enorme leque de variedade em tecidos, cortes, mangas, babados e rendas. Por fim, as blusas são voltadas para o público feminino, com diversas variações e são modelos que não se encaixam nas classificações de camisa.

Camiseta: A camisa do solteiro

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union suit

No início do século XX, e até boa parte dele, havia uma cultura machista muito forte. A mulher sempre dedicava parte da sua vida, ou a maior parte dela, à criação dos filhos e cuidados do marido.

Eram tempos do patriarcado, quando os homens possuíam o poder primário e predominam em funções de liderança política, autoridade moral e repleto de privilégio social. Uma das frases mais faladas pelas nossas avós quando queriam se referir a uma “solteirona” era de que “fulana não sabia pregar nem um botão”.

Da mesma maneira que existiam as “solteironas”, também existiam os “solteirões”. Estes “solteirões” não tinham (nem sabiam como fazer) quem “pregasse os botões das camisas” e todos também usavam o que era conhecido como union suit, que em português é conhecido como ceroulas, e pode ser considerado o ancestral das cuecas masculinas.

Na verdade, a ceroulas union suit eram roupas íntimas femininas durante os esforços de reforma do vestuário dos EUA no século XIX, como uma alternativa para as roupas íntimas da época e logo ganhou popularidade também entre os homens. O primeiro modelo de ceroula union suit foi patenteado em 1868. Hoje essa peça é conhecida como Long John.

Union suit de duas peças

Os modelos eram feitos de flanela vermelha com braços e pernas longas. O union suit abotoava na frente e tinha uma aba de botão na parte traseira cobrindo as nádegas. Com o tempo, foram sendo fabricadas com tecido branco quando cresceram em popularidade.

Mas havia um problema: a ceroula union suit era eficaz em manter alguém quentinho em temperaturas frias, mas não era confortável para climas quentes. Frustrados com seu design, os trabalhadores braçais da época, que eram pessoas de baixa renda, as cortavam ao meio, enfiando a parte superior na parte inferior.

Foi aí que a PH Hanes Knitting Company lançou sua própria versão, com duas peças, na parte superior e inferior, com a roupa de cima longa o suficiente para dobrar na cintura da parte inferior. Logo os fabricantes experimentaram fazer com que a parte de cima fosse algo que uma pessoa pudesse vestir pela cabeça, em vez de abotoar.

Assim, em 1904, a Cooper Underwear Company (que mais tarde se tornou Jockey) começou a anunciar suas peças como “union suit de solteiro”. A empresa defendia a ideia de que essas “camisas sem botões” eram mais duráveis ​​e exigiam menos manutenção do que as versões anteriores.

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Em outras palavras: não havia mais necessidade de um “solteirão” se esforçar para costurar um botão que faltasse. Quase um ano depois, a Marinha dos EUA (que empregava muitos “solteirões” com habilidades limitadas de costura) começou a fabricar as “camisas sem botões” como roupas íntimas para serem usadas sob o uniforme.

Essas “camisas sem botões” de manga curta de algodão branco tornaram-se comuns entre os marinheiros norte-americanos. Embora fosse exigido pela cartilha militar ser usada sob a farda, exceções foram concedidas em condições de calor.

Assim, em 1913, a Marinha dos EUA adotou a clássica camiseta branca lisa como a sua roupa de baixo oficial, pois secava mais rápido e era mais confortável do que as camisas de flanela usadas anteriormente.

A critério dos oficiais comandantes, os marinheiros às vezes podiam usar apenas a camiseta. Assim a primeira camiseta fabricada propriamente dita foi entre a Guerra Mexicano-Americana até o início da Primeira Guerra Mundial, quando a Marinha dos EUA começou a fabricá-la como padrão de vestimenta do soldado.

Na Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918), o uso de camisetas já havia se espalhado por todo as forças armadas dos EUA, e elas eram usadas por dezenas de milhares de recrutas. Ao término da guerra, os soldados trouxeram suas camisas de volta para casa e elas logo se espalharam por uma ampla variedade de indústrias.

No entanto, a camiseta ainda era vista principalmente como uma roupa interior na sociedade normal. Sim, nessa época a camiseta era vista como uma “roupa de baixo”, roupa interior ou roupa íntima.

A camiseta até então era vista como uma peça de vestuário usada diretamente sobre a pele e sob outras camadas de roupa. Baratas e fáceis de limpar, até as mães entraram em cena e vestiram seus filhos com camisetas para as tarefas domésticas e para brincar.

Mesmo assim, demorou até 1920 para que o termo “t-shirt” fosse incluído no dicionário de inglês, graças a Francis Scott Fitzgerald ser a primeira pessoa a publicar a palavra em seu romance This Side of Paradise (Este Lado do Paraíso) quando se referiu ao personagem Amory. Na década de 1920, a palavra “T-shirt” tornou-se oficial em inglês e foi incluída no Merriam-Webster Dictionary.

Logo depois, na década de 1930, a Universidade da Carolina do Sul, nos EUA, começou a dar a seus jogadores de futebol “camisetas de gola redonda” para usarem por baixo do uniforme, a fim de evitar que as proteções de impacto machucassem a pele. A equipe adorou as camisetas e logo os alunos as usaram para passearem pelo campus.

Na época em que a Segunda Guerra Mundial começou, as camisetas haviam se espalhado entre os estudantes de todo o país. Elas ainda não estavam, entretanto, totalmente adotadas como uma vestimenta externa (exceto por trabalhadores de baixa renda, como fazendeiros e mineiros).

Na época da guerra, os marinheiros começaram a ser fotografados vestindo apenas uma camiseta, quando estavam vadiando pelo navio ou fazendo tarefas simples. Isso levou a Sears e Roebuck & Company a anunciarem a camiseta como uma peça externa pela primeira vez em 1938.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a utilidade da camiseta tornou-se seu maior patrimônio e propaganda. Raramente uma peça de roupa era usada simultaneamente como travesseiro, toalha, máscara protetora, chapéu, sombrinha, torniquete, proteção contra queimaduras e insetos, e até mesmo como bandeira de rendição.

Mas, no final da Segunda Guerra Mundial, com os soldados voltando para casa e incorporando-os em suas roupas do dia a dia, as camisetas como vestimentas externas tornaram-se mais comuns e aceitáveis ​​para os “adultos”. A camiseta estava rapidamente se tornando um item básico da roupa masculina em todo o mundo.

Tanto a camiseta regata quanto, em um grau maior, a camiseta clássicac om mangas passaram a dominar as roupas íntimas masculinas como itens essenciais para uniformes, macacões e até ternos.

Marlon Brando e James Dean

Marlon Brando

Embora a camiseta tenha sido criada no início do século XX, era raro vê-la usada como outra coisa que não uma camisa. Não era incomum ver veteranos vestindo uma camiseta enfiada em suas calças após a Segunda Guerra Mundial, mas fora disso, as camisetas eram quase exclusivamente usadas por baixo de roupas “adequadas”.

Embora as camisetas usadas por Amory, personagem do livro de Scott Fitzgerald, pudessem, nos anos 1930, serem encontradas em lojas de departamento em todos os EUA, assim como em todas as escolas norte-americanas nos anos 1940, foi o cinema hollywoodiano que popularizou a peça de roupa.

As camisetas nessa época eram quase exclusivamente brancas, não costumavam vir em cores diferentes e quase nunca tinham qualquer tipo de desenho neles. A primeira aparição conhecida de uma camiseta como uma vestimenta externa em um filme foi em O Mágico de Oz, em 1939.

James Dean

Quando a personagem Dorothy e seus amigos visitaram a Cidade de Oz, os três personagens podem ser vistos enchendo o Espantalho (1:01:17) vestindo camisetas verdes com a palavra “OZ” (provavelmente pintada ou costurada). No entanto, esses personagens ficaram na tela apenas por cerca de 9 segundos, então o impacto cultural disso, mesmo em um filme tão grande, era inexistente.

Os atores Marlon Brando em Uma Rua chamada Pecado (1951), Montgomery Clift em A Um Passo da Eternidade (1953) e James Dean em Juventude Transviada (1955) vestiram camisetas para seus personagens e fizeram que a peça se tornasse um item independente no vestuário do século XX. Graças a esses “pais fundadores”, a popularidade da camiseta como uma peça de vestuário independente disparou.

Não apenas a camiseta estava se tornando aceitável, mas também estava sendo associada a um movimento de rebelião. À medida que as vendas de camisetas aumentavam, as marcas perceberam que poderiam capitalizar no tecido essencialmente branco e camisetas estampadas se tornaram mais comuns.

Plataforma de mensagens

Mais tarde, na década de 1950, um empresa conhecida então pelo nome de Tropix Togs, detinha a licença original para imprimir personagens de Walt Disney. Foi aí que por volta dessa época, as pessoas começaram a perceber o tamanho do lucro que seria obtido com camisetas gráficas e com desenhos.

Inovações no campo da impressão, incluindo o nascimento da serigrafia, ajudaram a transformar a indústria de camisetas no que ela é hoje. Foi um candidato derrotado à presidência dos EUA, na década de 1950, que teve a iniciativa de colocar dizeres escritos e, a partir disso, foi considerada uma ideia excelente.

A década de 1960 foi marcada pelo fortalecimento dos movimentos de esquerda nos países do Ocidente, tanto no plano político, quanto no ideológico. Assim projetos culturais e ideológicos alternativos lançados durante os anos 1950 encontraram nas camisetas um lugar de maior expressão, tornando-se essencialmente “arte vestível”.

As camisetas começaram a apresentar slogans, logotipos, cartuns políticos e muito mais. Camisetas personalizadas continuaram a crescer em popularidade nos anos 1970 e 1980. Do ponto de vista industrial novos métodos de impressão foram desenvolvidos.

Conforme explicado no artigo A história das fibras sintéticas e de como revolucionaram a indústria têxtil , a invenção da camiseta sem rugas, feita a partir de uma mistura de algodão e poliéster criou um outro conceito de usar essa peça de roupa.

No início dos anos 1970, a camiseta finalmente foi aceita como uma vestimenta unissex.

Embora a impressão de camisetas tenham começado nas décadas de 1950 e 1960, foi só nos anos 1970 que se tornaram a poderosa plataforma de mensagens que conhecemos hoje. Para isso, temos agradecer ao movimento punk, quando surge um nicho de mercado: camisetas com estampas de bandas.

A popularidade crescente dos logotipos de bandas de rock, junto com os protestos da Guerra do Vietnã nos EUA, ajudaram a solidificar a camiseta como uma plataforma de mensagens. Os primeiros acordos de licenciamento começaram a surgir nessa época, e as camisetas se tornaram uma grande fonte de dinheiro.

Marcas de luxo, como Yves Saint Laurent e Dior, também começaram a vender camisetas de alta qualidade nessa época.

No final dos anos 1970 e início dos anos 1980, a impressão de camisetas para pequenos eventos locais, como maratonas e ralis, também se tornou uma prática normal. No final dos anos 1990, a camiseta se tornou uma ferramenta de marketing, uma forma de fazer uma declaração política, um pedaço de nostalgia e muitas outras coisas.

Camiseta e sustentabilidade

Uma das maiores mudanças veio no final da década de 1990, quando a costura de camisetas mudou de um ponto único para um ponto duplo para tornar a peça mais durável e também diminuir a possibilidade da costura se desfazer durante o processo de fabricação agora mais automatizado. Essa diferença na costura, embora nem sempre confiável, é uma das maneiras mais fáceis de diferenciar uma camisa vintage de uma mais moderna.

No entanto, o impacto ambiental e social das camisetas baratas tem sido enorme. O algodão para uma camiseta leva 2.700 litros de água para ser criada. A cultura de algodão também é responsável por 24% do uso de inseticidas e 11% dos agrotóxicos.

A maioria das camisetas também é feita em fábricas de mão de obra barata, o que significa que pessoas trabalham praticamente sem dinheiro em condições terríveis. Além disso as camisetas baratas fabricadas nessa mão de obra análoga à escravidão são enviadas para todo o mundo antes de chegarem ao seu destino final, desperdiçando valiosos combustíveis fósseis.

Muitas camisetas também são usadas apenas algumas vezes antes de serem doadas ou jogadas fora.

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