Uma vitrine chamada corpo

Os defensores da simplicidade, não consumismo, anticapitalistas ou qualquer outro sinônimo que represente causas voltadas ao desapego dos bens materiais podem espernear, gritar aos quatro cantos e tentar argumentar, mas sinto constatar que provavelmente isso será em vão.

O corpo não é só um humilde veículo para transportar cérebros altamente desenvolvidos, mentes intelectualizadas e cheias de virtudes como alguns podem se achar detentores.

O corpo não serve só para procriar, trabalhar, sofrer e ser desvalorizado porque alguns acreditam que pensar em corpo, beleza, estética é quase um pecado.

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Ilustração: Luciana Moro

Não podemos acreditar ainda, como na idade média, que só assuntos relacionados à pureza da alma, nobreza e dignidade devem fazer parte da nossa vida.

No discurso pode até funcionar e bastar para supostamente nos colocar em um patamar “mais evoluído” que outros, mas certamente é uma forma de mascarar a verdade que teimamos em esconder, até de nós mesmos.

Nosso corpo é uma vitrine de quem somos e do que acreditamos. Nossa representação aos olhos da sociedade nada mais é do que o resultado de nossas escolhas e das transformações que elas realizam fisicamente em nossa estrutura.

Nossa alimentação, por exemplo, causa reflexos a médio e longo prazo em nossa saúde e em nossas formas.

Se acreditarmos que ter um corpo mais forte e com menos gordura ajuda em nosso desempenho na escalada seguimos um padrão de alimentação, exercícios e estilo de vida que contribuam para a conquista deste objetivo.

Se acreditarmos que roupas de algodão com tingimento natural, antigas e desgastadas combinam com nossa personalidade e nos representam tudo bem, mas o corpo vestido desta forma não deixa de ser uma vitrine. Pode ser uma vitrine da simplicidade, mas ainda é uma vitrine e desempenha sua função de comunicar, informar e mostrar a todos quem é quem.

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Ilustração: Luciana Moro

Não há problema algum em se vestir com roupas batidas e camisetas furadas como não há problema algum em se vestir com roupas tecnológicas ou lançamentos de coleções.

Percebo que o real problema é se achar mais nobre e evoluído por escolher esta ou aquela opção.

Alguns afirmam que quando vão escalar só focam no esporte e não se preocupam com mais nada.

Dizem que o momento da escalada é uma forma de “libertação” das exigências da sociedade sobre a necessidade constante de estarmos bem vestidos, bem motorizados, em forma, etc., e que nada, além disso, pode estar em pauta.

A meu ver, essas pessoas criam uma “elite da simplicidade necessária” na escalada. Criam um grupo fechado e altamente excludente de todos aqueles que destoam desta forma de se vestir e pensar.

Sem perceber, deixam de refletir que a vitrine da simplicidade é quase tão superficial e perigosa quanto a vitrine da ostentação. Criam ao redor de si uma aura de superioridade por ser deste ou daquele jeito.

Ser simples não é ser melhor que ninguém.

Conheço pessoas que se vestem sem preocupação com moda, mas são altamente vaidosas, egocêntricas e esnobes. Da mesma forma conheço pessoas que seguem tendências, mas esbanjam simpatia, compreensão e humildade.

Independente de nossas opções estéticas, nunca deixaremos de ser uma vitrine.

Talvez um grande peso esse, tenho que concordar.

Da simplicidade à ostentação, seremos sempre vistos, lembrados e comunicaremos com intensidade quem somos.

Poder ser que a pergunta certa a se fazer seja: Qual a melhor vitrine? A do corpo ou a da alma?

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