Uma análise sobre Foco e Quedas para a escalada e a vida

Sobre Foco e Quedas

As Quedas

Desafiamos a vida. Confrontar a morte é digno dos inertes, pois é disso que ela se nutre – de toda apatia, toda inércia e toda imobilidade que portamos ao temer a queda. E num contrassenso  é justamente a queda que denuncia que estávamos de pé.

Rastejantes não caem porque já ocupam seu lugar de merecimento, o último estágio de subserviência de nossa espécie, o chão. E o caminho entre a queda e o chão é longo, tão longo que temos tempo de saborear o momento e traçar a melhor estratégia para nos reerguermos. Não devemos jamais temer a queda, uma vez que não há evolução e aprendizado sem perdas, danos e… quedas. Devemos, sim, preparar-nos para levantar cada vez mais rápido, mais fortes e mais sábios.

Quando Rocky Balboa o emblemático boxeador do filme Rock II a revanche final, interpretado pelo ator Sylvester Stallone, balbucia para Mickey, seu treinador, a frase ‘’I ain’t going down no more ‘‘, algo do tipo ’’Eu não vou cair mais, não’’, soou prepotente, até mesmo arrogante, para aqueles que acompanhavam o filme, pois nos últimos minutos de luta a coisa que ele mais fazia era cair.

Estava apanhando mais do que tambor de macumba como dizem em Minas Gerais (rsrsrs). Porém ele resolveu traçar uma estratégia. E de todas as dezenas de escolhas que poderia ter adotado, optou por não cair mais, não importando daí por diante o quanto apanhasse, se também golpearia ou se se esquivaria dos golpes do gigante negro chamado Apollo Creed,‘’ O Doutrinador ’’.

A isso a psicologia esportiva chama de “foco“.

O Foco

No campo da fotografia foco é um ajustamento para dar mais nitidez ao objeto que terá mais importância na foto. Já psicologicamente falando, foco é ter um objetivo; determinar-se a alcançar ou atingir uma meta; ter como prioridade fazer algo não desvirtuando para outro caminho.

escalada

Foto: Rui Paulo

Sendo a escalada um constructo complexo, ou seja, constituída de vários elementos, pois a corda isolada não é a escalada, a montanha também não é a escalada, a sapatilha, os mosquetões e o capacete sozinhos também não são a escalada. A somatória de todas essas e outras partes, sim, caracteriza-se como o constructo complexo denominado escalada. Logo a expressão ‘’foco na escalada’’ passa agora a não fazer muito sentido, pois não da para focarmos tanta coisa ao mesmo tempo.

Estava certa vez no Sítio do Rod, pico de escalada em Minas Gerais, de beleza indescritível, e resolvi entrar numa via negativa chamada Gaybous in the laipous. Em determinado momento ela se tornou inacreditavelmente difícil pra mim. Percebi que, para triunfar, teria que alcançar uma agarra que parecia extremamente longe, bem acima da minha cabeça. Então tracei a meta: alcançar aquela maldita agarra.

Minhas retinas focalizaram-na impiedosamente; todo o restante do universo em volta daquela agarra deixou de existir, de fazer barulho, de respirar, só havíamos eu e o meu foco. Fosse uma película cinematográfica, com certeza, eu teria alcançado a agarra e tocaria uma música inspiradora ao fundo. Mas, como era vida real, eu não consegui. Saí de lá, no entanto, com a certeza plena de que havia dado o meu máximo e de que, em nenhum momento, havia perdido meu foco.

A escalada – como outro constructo complexo qualquer de nossas vidas – é constituída de elementos, partes ou particularidades que fragmentadas não significam muita coisa. Então é errôneo quando nos pedem que foquemos em nosso trabalho, por exemplo. Como assim? A qual parte, elemento ou particularidade do trabalho, do relacionamento, da dieta ou da escalada se referem? Seria desastroso despendermos tanta atenção e energia, durante tanto tempo, em coisas tão amplas e complexas, pois com toda certeza os pormenores, digamos assim, que estão à volta do foco recebendo pouca ou nenhuma luz (atenção) seriam facilmente negligenciados, levando-nos ao fracasso.

O foco age em contraposição a algo que a psicologia do esporte chama de Ansiedade de Desempenho.

A ansiedade considerada por muitos o mal do século, origem de várias patologias inclusive, de forma geral é o medo daquilo que ainda não aconteceu. Quando a controlamos, passamos a não sentir mais esse medo. Então nosso desempenho é sobrevalorizado uma vez que, sem medo, respiramos mais suavemente, ficamos mais relaxados e concentrados, temos nossa freqüência cardíaca e pressão arterial diminuídas, tornamo-nos inatacáveis por descargas de hormônios como a dopamina e a adrenalina (não adrenamos).

Assim, os movimentos fluem naturalmente. Sem esforço consciente, o cérebro ignora dados irrelevantes à obtenção de nosso foco e se concentra integralmente numa única tarefa.

Foto: Rui Paulo

Por isso, sendo você sabedor de que tem dificuldade para escalar paredes lisas com poucas agarras, foque seu treinamento prioritariamente em regletes (saliências em que só cabem as pontas dos dedos); aumente a resistência dos músculos extensores e flexores de seus antebraços; treine em equipamentos específicos em ginásios de escalada, ou no batente de sua porta; mas, o principal, seja lá qual for sua deficiência, sua necessidade e, por conseguinte, o alvo de seu foco, pratique sempre que puder, de forma a aproximar-se o máximo possível da realidade de sua dificuldade.

Costumo dizer que não podemos aprender a dirigir um trator pilotando um kart, embora os dois possuam motor, quatro rodas, volante, acelerador, etc. Se sua dificuldade na escalada são quedas, atire-se de paredes em ginásios de escaladas, ou em rochas de paredes negativas ou protegidas, aumentando a queda gradativamente. Caso sejam longos lances em exposição, experimente inicialmente escalar paredes que já conhece e que sejam bem abaixo de seu nível técnico, no estilo free solo (sem cordas).

Foco tem a ver com especificidade; não admite rodeios ou estratégias que o distanciem dele. Detecte e foque naquilo que realmente importa em cada momento específico de suas escaladas pela vida. Isso talvez não lhe dê garantias de sucesso absoluto, mas a música que tocará ao fundo será, sem dúvida, a fanfarra da vitória, porque ao não se desviar de seu foco, terá dado o seu melhor, que é o que importa na maior parte dos casos.

P.S. : E sobre o duelo entre Rocky Balboa, o garanhão italiano, e Apollo Creed, o doutrinador, adivinhem quem venceu?

Os dois se digladiaram até o último segundo do último round. O foco de Creed era surrar Balboa; já o foco de Balboa era não cair.

E no boxe, de forma muito parecida com a vida ou a escalada, não ganha quem bate mais ou fica por mais tempo de pé, ganha aquele que aprende com suas quedas e se levanta quantas vezes for preciso. Ao não abandonar seu foco, permanecerá assim, em pé, no momento crucial.

Rui Paulo é escalador, formado em educação física e trabalha como Personal trainer na região metropolitana da cidade de São Paulo

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