Um paraíso da escalada esportiva chamado Espanha

Para nós escaladores é muito legal ver uma reportagem ou vídeo de escalada, é uma troca de experiência a distância. Mas quando você é um escalador fissurado no esporte esta questão já muda.

Um mesmo vídeo de escalada você assisti várias vezes e aquilo não te cansa, ver o vídeo pela 35º vez do Chris Sharma entrando na via Realization é uma emoção, nunca cansa. A gente muda um pouco os personagens e os locais mas sempre estamos ligados ali na telinha vendo o que ta rolando em outros cenários da escalada mundial.

Foi isso que me levou a programar minha viagem para Espanha, já que esse é o cenário de grande destaque na escalada mundial de hoje.

Foto : Acervo Pessoal Felipe Alvares

Foto : Acervo Pessoal Felipe Alvares

A cada ano faço uma viagem internacional de escalada, quando falo de viajar para escalar é praticamente somente isso, somente escalada. Pode ser até um erro meu, mas minhas viagens de escalada são de escalada. Todos os dias dedicados a escalada, quase não sobra tempo para turismo convencional ou outro tipo de atividades.

Para se ter uma ideia da obcessão nesta última viagem para a Espanha foram no total 23 dias, sendo que 2 dias foram para aéreo de ida e volta, 1 dia de compras de equipamento, mais um dia de turismo em Barcelona e 19 dias de pura escalada.

Infelizmente a nossa viagem já tinha data marcada de ida e volta, com isso a única coisa que eu podia fazer era aproveitar cada minuto e todas as vias que viessem pela frente. O nosso foco principal era Rodellar mas também conhecer outros picos de escalada ao redor como Siurana, Oliana, Santa Linya, Margalef.

Era a minha oportunidade de ver e sentir na ponta dos dedos o que a gente vê nos videos de escalada. Todas as vias clássicas que deliramos através dos videos estavam ali na minha frente.

Durante muito tempo escutei parceiros que estiveram em Rodellar falando que a escalada lá é de paredes super negativas, agarrões e muita resistência. Isso é tudo que eu queria, é o estilo que mais encaixa com o meu perfil, onde me sinto bem a vontade. Realmente é tudo verdade, você não encontra regeletes pequenos e muito menos aqueles que abrem as pontas dos dedos.

No geral são agarras de pegas grandes como pinças de todos os tipos, mais conhecida como as chorreras.

Foto : Acervo Pessoal Felipe Alvares

Foto : Acervo Pessoal Felipe Alvares

Tem também os batentes, mais conhecidos como tacos. E no geral as vias são longas e com negativos constantes, o que proporciona no final da escalada as vias mais perfeitas que já fiz.

Para esta viagem uma barreira que queria ultrapassar era mandar o meu primeiro 9c a vista, já mandei alguns 9c de flash mas queria evoluir neste ponto para escalada a vista. A Espanha é o lugar perfeito para esta evolução da escalada a vista, mas para você conseguir a evolução você tem que fazer por onde e ai que foi o meu erro.

Nos últimos 3 meses antes da viagem que foram julho, agosto e setembro eu tive um recaída na motivação e nos treinos, algo que não tem explicação e isso afetou diretamente para alcançar este objetivo.

O primeiro ponto da viagem foi Rodellar e por la comecei a “probar” as vias, sentir o encaixe e tudo mais. Neste momento percebi que teria que fazer escolhas, focar 100% no meu objetivo especial ou focar 100% na escalada de Rodellar.

A verdade é que a escolha não foi difícil, são tantas vias clássicas que não tem como passar essa vida sem escalar elas, me joguei em tudo em Rodellar. Não significa que tinha desistido do projeto mas estava menos focado nisso e isso me permitiu conhecer vias extraordinária como Gemnis, Espirit Rebeld, Gladiator, Mal de Amores, Aporia, e por ai vai…..

São vias mais duras mas que eu conseguia fluir naturalmente por elas, nem tentei cadenas ou mais de um pega o objetivo era ter aquele repertório de movimentos comigo.

Além da escalada de Rodellar ser perfeita e com muita diversidade de vias clássicas não posso deixar de mencionar a cidade, que na verdade é um vilarejo pacato e bem simples mas onde você encontra escaladores do mundo inteiro, pessoas acolhedoras e um ambiente tranquilo.

Depender de carro para ir aos picos de escalada as vezes pode demorar mais na logística ou até gerar mais stress e esse é um fato super agradável em Rodellar, estando la você não precisa de carro para nada.

Tudo se faz a pé, tudo muito simples. Esqueci, além disso tudo ainda tem o rio Mascun que corta todos os setores de escalada e que forma piscinas naturais de água cristalina. É tudo perfeito, paradisíaco.

Foto : Acervo Pessoal Felipe Alvares

Foto : Acervo Pessoal Felipe Alvares

Tivemos que deixar esse paraiso e por indicação da turma fomos direto para Margalef para aproveitar que o Ricardo Schen, parceiro nosso da escalada estaria la. Demos um salta impactante, das grandes chorreras de Rodellar passamos para escalada de vias mais técnicas, uma escalada com buraquinhos, bidedos e monodedos.

Um setor imenso e com todos os tipos de vias. Em Margalef tive que fazer turismo convencional mas não foi para nenhum museu, foi na base da via First Round First Minute e da via Demencia Senil. São vias super clássicas e que aparecem no filme Progression, mas além de ser vias clássicas são vias que fazem parte da historia da escalada mundial.

Margalef foi um passo rápido de apenas 2 dias de escalada.

Agora chegou a vez de Siurana que fica bem próximo de Margalef, um setor super clássico e com vias mais de placas, vias de muita técnica. Além de técnica o clima também faz a diferença, pegamos uma temporada que ainda estava quente e a grande maioria das paredes estavam viradas para o sol o dia inteiro.

Isso atrapalhou um pouco para curtir a escalada em Siurana, ficamos desviando do sol em busca da logística da sombra.

Queríamos ficar mais tempo mas por causa do clima decidimos que não tava valendo muito a pena, foi muito rápido mas ficou boas memórias. Uma dessas foi a via La Rambla (12a Brasil ou 9a+ Frances), uma via super famosa e que faz parte de vários videos de escalada, não perdi tempo queria conhecer essa via, queria sentir as agarras.

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Foto : Acervo Pessoal Felipe Alvares

Dito e feito, foi uma experiência incrível, todos os moimentos da via são viáveis de ser feitos isolados mas a continuidade da via é muito pesada, com certeza um 12a não seria de graça.

Essa escalada foi muito importante para minha motivação, ver que não é coisa de outro mundo e que com muito treino agente pode chegar quase lá…

Estar em território novo é momento de aprender com quem sabe.

Tivemos a indicação de conhecer a região de Terradets que fica próximo também, mas antes de chegar lá fizemos um pit stop para conhecer e escalar na imensa cova de Santa Linya, uma cova única, algo que nunca vi no Brasil, é uma onda enorme e cheio de vias.

Infelizmente ainda não estava na temporada ideal para escalar no setor porque a parede fica virada para o sol, e somente no inverno que o pessoal escala la, pois no frio pesado o sol intenso é bem vindo.

Já na parte da noite partimos para Terradets, ainda não sei o significado deste nome mas se tivesse que chutar algo eu falaria que era a terra de pedras.

É muita rocha para todos os lados de um lado ao outro da estrada, seguindo por todos os lados do vale e o mais impressionante é que todas as paredes tem gigante potencial para escalada.

Paredes negativas, cheia de chorreras e tudo muito bonito. Estava no lugar perfeito, mais uma vez a escalada me despertou. Agarras perfeitas e paredes negativas, era tudo que eu queria. E olha que este é um pico de escalada que quase ninguém conhece aqui no Brasil, um pico que não se tem muitas noticias.

O resultado da viagem foi uma experiência única, curtir a meca da escalada mundial e viver a cultura da Europa. Esta parte da Europa é algo que me encantou, estar num pais onde as coisas funcionam, os preços são justos e a qualidade de vida esta sempre em primeiro lugar. Foi tudo muito bom e infelizmente quando voltamos ao Brasil nos deparamos com essa realidade “tosca” em que vivemos.

Em relação a escalada no Brasil X Espanha nós podemos fazer comparações de uma para outra mas ambas são feitas de escalador para escalador, tem uma atenção especial e cada uma tem seus pontos positivos.

Porém se formos comparar a vida na Europa X a vida no Brasil bate uma tristeza porque é muito discrepante o modo como as coisas são tratadas no Brasil, os preços, os impostos, os “benefícios” como cidadão que paga impostos, tudo no geral em relação de consumo como cidadão ou como cliente é bem precário e injusto.

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Além da imensa saudade de escalar nas chorreras perfeitas destes picos da Espanha fica também a saudade de ter vivido bons momentos em relação a vida na Europa.

A melhor dica que tenho para vocês é que não deixe as viagens para depois, se programe e faça. Seja com muito ou pouco tempo, com grana para esbaldar ou para uma viagem mais na”zela”.

O que realmente importa é sair da rotina que vivemos, sentir uma nova forma de viver a vida e poder olhar de forma mais critica sobre o mundo em que vivemos. As vezes nos fechamos demais em nossa cultura, acostumamos com o que é colocado pra gente e vamos levando este estilo de vida que as vezes esta além das nossas escolhas.

A realidade é que viajar e conhecer novos lugares te da uma opção maior de escolhas e uma visão mais critica.

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Sobre o Autor

Felipe Alvares

Felipe Alvares

Escalo pela simples razão de querer subir qualquer tipo de rocha, boulder, escalada esportiva ou grandes paredes. E o que mais me motiva na escalada no Brasil é participar de uma história que ainda tem muito para evoluir. Moro em Belo Horizonte por ser uma região cercada de rochas e perfeito para viver esse sonho. Com equipamentos de qualidade e todo o suporte da Conquista continuo a realização desse sonho.

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