Egito: Como unir trekking, escalada, religião e história da humanidade

Quando se pensa a respeito do Egito logo vem à mente as referências a respeito da civilização da antiguidade, que mais desperta o interesse do público em geral. Os motivos para este interesse são muitos: arqueologia, templos antigos, múmias, pirâmides, esfinges e as ruínas de construções milenares demonstram a existência de uma cultura incrível e única. Nenhuma outra sociedade da antiguidade possui, hoje, tantas referências como a egípcia.

Oficialmente chamada de República Árabe do Egito, o país não consta em muitos lugares como destinos interessantes para a prática de trekking, escaladas e montanhismo. Todo o atrativo de sua história, parece ofuscar as opções de práticas de esportes outdoor. A principal vantagem da procura do Egito para estas atividades, é que pode ser encontrada atividades em locais e trajetos inteiramente vazios e com poucos turistas. A viagem ao país, em termos de passagem e etc, é relativamente barato, se comparado a Europa e EUA.

Egito é perigoso?

Muito deste temor, de que o Egito seja um lugar perigoso, é o risco de atentados no país, pois o Egito está em uma área que constantemente aparece nos noticiários com conflitos e práticas de atentados, principalmente por Jihadistas. Esta sensação de risco, infelizmente, acontece porque os jihadistas entendem que a luta violenta é necessária para erradicar obstáculos para a restauração da “lei de Deus na Terra”. No final de 2017, Jihadistas colocaram uma bomba e abriram fogo contra fiéis em uma mesquita, em um atentado que ficou marcado como o pior da história do Egito, matando 305 pessoas.

Aliado a esta triste realidade, lembremos que a Primavera Árabe, uma onda revolucionária de manifestações e protestos políticos que aconteceu nos países árabes entre 2010 e 2012, deixou marcas profundas no país. Uma destas marcas profundas foi a instabilidade econômica, fazendo o país perder mais da metade do valor em relação ao dólar em 2016. Caso você tenha curiosidade de saber mais desta Revolução Egípcia de 2011, assista ao documentário “A Praça Tahrir”, disponível no Netflix, que foi indicada ao Oscar de melhor documentário. A produção acompanhou um grupo de revolucionários e registrou manifestações na Praça Tahrir, que na ocasião chegou a ser ocupada por mais de um milhão de pessoas.

Mulheres que participaram da última eleição no Egito

Mas atualmente existe risco de atentados? Sim, como em todo lugar do mundo, especialmente na Europa. Se repararmos as estatísticas, os atentados a bomba na Europa, infelizmente, tornaram-se comuns. Mas nem por isso o continente é considerado “perigoso” e “inseguro” para o turismo. Pois esta mesma lógica vale para o Egito. É claro que as regras do uso bom senso e prudência, que valem para qualquer viagem, valem também para o Egito. Da mesma maneira que o ditado muçulmano diz que “confie em Alá, mas amarre seu camelo primeiro, porque Alá não tem outras mãos a não ser as suas“, o mesmo se aplica a qualquer viajante ao Egito.

Mas, diferente do que muitos pensam, o Egito não é um país perigoso para turismo. O motivo desta segurança, é que o governo egípcio tem fortalecido a segurança nas áreas turísticas. O país, que tem área total de duas vezes o estado de Minas Gerais e possui uma população de mais de 92 milhões de habitantes, é bastante receptivo a estrangeiros, principalmente sul-americanos. Com uma segurança bastante reforçada por conta do terrorismo, o país é relativamente seguro até mesmo fora das áreas turísticas.

Ao contrário do que pode-se pensar, no Egito há opções interessantes para esportes outdoor, sobretudo trekking e escalada. Em uma viagem ao país é possível unir história, visitando pirâmides e andando de camelos, com escaladas de qualidade e trekkings em paisagens únicas. Estas opções são, curiosamente, em áreas de importância cultural e religiosa.

Para ir ao Egito é necessário visto

 

Antes de planejar ir ao Egito, saiba que não é simples quanto ir a um país sul-americano, pois não basta apenas comprar a passagem, fazer as mochilas e partir. Antes, o turista precisa de visto para entrar no país. No Brasil existem somente dois lugares que pode ser feito o pedido de visto: Consulado Geral do Egito, no Rio de Janeiro, e Embaixada da República Árabe do Egito no Brasil em Brasília. O Consulado do Rio de Janeiro somente emite visto para os estados do Sudeste e Sul do Brasil. Já a Embaixada emite visto para habitantes de todo o resto do país. O escritório existente na cidade de São Paulo e apenas um “escritório comercial”, voltado somente para a área de negócios.

  • Embaixada do Egito em Brasília: SEN Avenida das Nações, Lote 12 – Brasília-DF
  • Consulado-Geral do Egito no Rio de Janeiro: Rua Muniz Barreto, 741. Botafogo. Rio de Janeiro

No Consulado, o visto é liberado em até três dias úteis, portanto, programe-se antecipadamente para realizar este trâmite. Mas em geral, especialmente na embaixada, o período de emissão do visto para o Egito é de uma semana e, dependendo da localidade do solicitante, pode levar até 15 dias por causa da entrega dos Correios.

A validade do visto para o Egito é de três meses para o tipo de visita “única entrada” e seis meses para visita “múltipla entrada”. Este período de permissão de entrada é contado a partir da data de emissão do visto. Quem achar que pode contornar esta burocracia tirando o visto quando chegar no aeroporto do país, uma má notícia: não é mais possível solicitar o visto na chegada ao Egito. Até existem casos de pessoas que conseguiram, mas melhor não arriscar a ficar detido no aeroporto.

O tempo de permanência no Egito é de um mês para os vistos de única e múltipla entrada.

A contratação de um despachante de visto para o Egito é altamente aconselhável, para não ter chances de erros, transtornos e gastos desnecessários. Dentre as exigências, está um comprovante de vacinação contra febre amarela internacional. Para despachantes de vistos para o Egito, existem muitas empresas, as que recomendamos por ter expertise com este país são:

Como Chegar

Para chegar no Egito, o mais recomendado é ir de avião. Parece uma afirmação óbvia, mas levando em consideração a vizinhança do país, com Líbia, Sudão e Israel, tentar chegar de carro ou ônibus a este lugar pode ser bastante arriscado. Sobretudo pela Líbia, que vive uma situação política bastante delicada. Além disso, Egito e Israel não possuem uma relação muito próxima. Isso porque desde a ascensão da Irmandade Muçulmana no Egito em 2011, Israel se distanciou na relação com o Egito (apesar de manter relações diplomáticas). Por este motivo, ir de carro ou ônibus desde Israel ao Egito, pode ser uma experiência, no mínimo, penosa quando cruzar a fronteira.

  • Ônibus

Caso insista nesta ideia de ir de Ônibus, a melhor alternativa, fica a dica de tentar ir de Israel. Como dito anteriormente, a Líbia vive uma situação bem delicada politicamente. Portanto, dificilmente alguém estará visitando este país, para depois ir de ônibus para o Egito. Além disso a região é alvo de constantes ataques, além de atualmente possuir um fluxo de refugiados intenso.

Para sair de israel, vá até a cidade de Eliat, cidade no extremo sul de Israel, é destino obrigatório para quem quer percorrer a fronteira do país até a Jordânia. No inverno, a cidade atrai principalmente turistas europeus. Eilat fica a quase 350 km de Tel Aviv, a segunda maior cidade de Israel. Para lá é possível chegar até lá de carro, ou pegando um voo doméstico. Porém, como Israel e Egito não possuem “fronteiras abertas” como na Europa, muito provavelmente não poderá seguir de lá para o Egito com o carro.

Para sair de Israel é necessário pagar uma taxa de ILS$ 104,00. Como não há um ônibus que faz o trajeto, o viajante deve tomar um transporte público até a divisa. Após os trâmites de imigração, adentra-se no Egito caminhando. De dentro do Egito toma-se um outro ônibus para Dahab. Desta cidade é possível ir a vários destinos dentro do país.

  • Avião

De avião, a principal porta de entrada é a capital Cairo. A principal companhia aérea do país é a Egyptian Air, que não voa para o Brasil. Portanto as empresas que comercializam voos do Brasil para o Egito (muitas com mais de uma escala) são:

Escalada

Monte Santa Catarina | Foto: Mohamed Hamdy / Pixabay

No Egito e possível escolher alguns lugares interessantes para escalar. Sobretudo para escaladores mais religiosos, há locais que fazem parte de várias passagens da Bíblia. Sobretudo por estarem os locais considerados de grande qualidade na região do Monte Sinai (2.285 m). Esta região é considerada sagrada por três religiões: judaísmo, cristianismo e islamismo. Segundo a Bíblia e a tradição judaica, Moisés recebeu as Tábuas da Lei lá.

Os principais lugares da região para a prática da escalada são Dahab e Santa Catarina (Saint Catherine). O tipo de rocha é um granito vermelho que permite escalada tradicional com proteções móveis. São centenas de vias disponíveis em Santa Catarina com extensões de até 700 metros. Como Santa Catarina é um parque nacional e patrimônio da humanidade pela UNESCO, é proibido proteções fixas no local. Portanto, a escalada no local exige que tenha predominantemente proteções móveis.

Para organizar escaladas na região, há uma agência chamada Desert Divers Dahab. A melhor época para escalar é de meados de março até o final de abril e de outubro até o final de novembro. As vias estão voltadas para todas as direções, por isso é sempre possível escalar à sombra (lembre-se, lá é um deserto). A primeira coisa a ter em mente sobre a escalada em rocha no Sinai é que as condições do ar são secas durante todo o inverno.

Já em Dahab, uma aldeia beduína onde as montanhas do deserto encontram o mar, a prática de boulder e escalada esportiva é a principal atração em termos de escalada. Dahab é considerada a capital dos esportes outdoor do Egito. Com mais de 400 linhas de boulder e potencial para a abertura de muito mais que isso, a região faz a festa dos escaladores locais. Para chegar a estes lugares é necessário contratar um beduíno para guiar até os locais de escalada.

Para chegar na região, é necessário voar de Cairo até Sharm El Sheikh. De lá, toma-se um táxi é até Dahab (1 hora) ou Santa Catarina (três horas). Para realizar esta viagem de táxi, é necessário fazer reserva anteriormente. Não há muitas opções de hospedagem, por isso é necessário acampar nos ajuntamentos de beduínos. Caso não seja possível ficar em resorts (o que encareceria a viagem).

Monte Sinai | Foto: Mohammed Moussa

Apesar de parecer MUITO tentador, não é possível escalar no Monte Sinais ou Katrin, apenas trekking. Por ser um lugar extremamente sagrado para tantas religiões, a prática de escalada é vista como uma espécie de desrespeito.

Para saber detalhes das escaladas na região, há um guia especialmente para isso: Greece & The Middle East Rock Climbing Atlas.

Trekking

Cânion Colorido em Nuweiba | Foto: Tanya Dedyukhina

Se para a escalada não há muitas opções, se comparadas a outros países, já o trekking possui várias atrações para todos os gostos. Como dito no item anterior, um dos trekkings mais populares do Egito é o trekking no Mount Catherine (2.629 m). Também conhecido como Gebel Katherîna é a montanha mais alta do Egito, situando-se junto à cidade de Santa Catarina, no sul da Península do Sinai.

Neste trekking é possível ver ruínas históricas com possibilidade de acampar por lá. A duração desde passeio é de aproximadamente cinco dias. Uma outra opção de trekking bastante popular no país é o trekking ao Monte Sinai. Para muitos, é mais do que apenas uma caminhada, pois nela está seguindo os passos de Moisés.

Wadi El-Hitan | Foto: Dale Gillard

Talvez o lugar mais interessante da região é cânion Colorido em Nuweiba. As cores do canyon são resultado das marés vazias do Mar Vermelho, onde as paredes rochosas do cânion eram formadas por arenito, calcário e granito.

Uma outra atração é o Wadi El-Hitan. Patrimônio Mundial da UNESCO, o Vale das Baleias, conhecido como Wadi El-Hitan em árabe, é um dos trekkings mais fáceis do país, devido aos seus caminhos planos. O vale é um local comprovado em termos da evolução da baleia de um animal terrestre para um mamífero que vive no oceano.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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