Dia 1 no Tour du Mont Blanc: De Les Houches (1.007 m) a Les Contamines (1.167 m)

Finalmente havia chegado o dia e em 28 de Agosto de 2017 às 8h da manhã, eu estava oficialmente começando o Tour du Mont Blanc (TMB). Tudo planejado, tudo reservado nos refúgios, acreditava ter comigo tudo que eu precisava e só havia uma coisa fora de controle: os climas que eu iria enfrentar. E foi justamente isso que já me deixou apreensiva no primeiro minuto de trilha porque naquela manhã o tempo estava nublado e havia uma garoa.

Tour du Mont Blanc

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Em 11 dias de trilha, seria exigir muito nenhum dia de chuva, mas este não era o dia que podia chover. Além de ser o primeiro e tão esperado dia, também era o dia que havia a possibilidade de uma variante. Mas o que é uma variante? Em diversos pontos do TMB, existem bifurcações (que depois voltam para a mesma trilha) que levam a caminhos mais altos pelas montanhas, enquanto a outra opção segue mais próxima ao vale. As variantes pelo alto das montanhas costumam ser mais bonitas, porém trazem maiores dificuldades por trazerem subidas mais íngremes além de terrenos mais perigosos e, em alguns casos, navegações não tão óbvias. Pensando nisso, a regra básica é: não faça a variante com chuva!

Todo o meu planejamento foi feito considerando tentar o roteiro mais bonito/difícil, ou seja, passando sempre pelas variantes mais altas. Para garantir isso, meus refúgios foram reservados sempre antes ou depois das bifurcações e nunca no meio dos trechos. Pois é… reservas! É importante reservar os refúgios com antecedência porque a janela de temporada do Tour du Mont Blanc é curta (meados de junho a meados de setembro) então os refúgios tendem a ficar lotados. Quase todas as reservas podem ser feitas pelo site do TMB e lá também se encontram estimativas de quantas horas se leva para ir de um refúgio a outro. Não queria perder a oportunidade da variante justo no primeiro dia.

Comecei a andar na esperança de que ao chegar na bifurcação o tempo melhorasse e comecei a minha jornada rumo ao Col de Voza (1.653 m) que seria o primeiro ponto deste dia. O “Col” é como se fosse o colo da montanha ou o que chamam em alguns lugares de “Passo”, ou seja, é como se fosse um ombro entre dois cumes, a forma de cruzar aquelas montanhas sem, necessariamente, chegar ao cume delas. Como é algo que vai cruzar a “crista” entre duas montanhas, você terá uma grande subida até ele e logo em seguida uma grande descida. E posso dizer que os Alpes não brincam em questão de subida/descida. Elas são sempre íngremes e lá segui eu para meu primeiro ganho de altitude, esse de 650 metros.

Tour du Mont Blanc

Foto:
Thaís Cavicchioli Dias

Eu estava com o kit navegação completo: mapa, GPS e guia, mas foram quase desnecessários. O mapa ou um guia já são mais que suficientes. A navegação é muito clara principalmente com placas – cruzei a placa indicando “Col de Voza”, a indicação de quanto tempo levaria e comecei a segui-la. Esse é um trecho que muitas pessoas fazem de bondinho por ser uma subida pesada e íngreme (são aproximadamente 650 metros em quase 5 km), mas esse era meu primeiro dia, meus primeiros passos e eu não iria já “roubar”, né? Comecei a subida da trilha que saía de Les Houches e percebi que seria um começo bem entediante porque segue, principalmente, por uma estradinha de terra e boa parte da vista linda estava fechada por trás das nuvens. Sem vista, sem “trilha, e eu lá já morrendo na subida e aí começava a chover – coloca casaco impermeável (e a variante? Quero tanto ela!)

Cruzei com um francês que também estava fazendo sozinho e ele logo me deixou para trás. Bateu o desespero. Será que eu não estava então preparada? Será que eu não ia dar conta? Eu tinha planejado o roteiro pelas indicações de duração do site deixando os dias mais longos com 8h/9h de trilha pensando que se algo desse errado, era tranquilo trilhar 12h por dia. Realmente fiquei com medo e comecei a me perguntar o que eu estava fazendo ali e todos os meus demônios internos me encontraram durante essa subida inicial.

Tour du Mont Blanc

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Até que cheguei no Col de Voza 2 horas depois, exatamente o tempo previsto na plaquinha! Ufa! Pelo visto, eu não estou nada lenta… Aquelas pessoas que estavam rápidas demais. Hora de celebrar nosso primeiro Col… Serão vários! Cruzei com a galera que subiu de bondinho já descendo para a rota tradicional a Bionassay (1.314 m), mas para minha felicidade, parou de chover e o tempo havia dado uma firmada!

É hora de partir para minha primeira variante e chegar ao Col de Tricot (2.100 m) e foram logo nos primeiros minutos da variante, que a resposta à pergunta “O que eu estou fazendo aqui?” foi respondida com um magnífico mirante com o maciço do Mont Blanc e apenas o cumezinho do Mont Blanc escondido por uma nuvem. Existe até uma expressão que fala “O Chapéu do Mont Blanc” porque na maioria das vezes tem uma nuvem acima dele e, nesse dia, ela tinha descido um pouco.

Tour du Mont Blanc

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Segui a trilha sentido ao próximo Col pela variante e agora tudo estava se encaixando, tinha a certeza que o meu ritmo era bom, não estava chovendo e agora estávamos em uma trilha propriamente dita por entre as árvores, diversas pedras e até penhascos. Eu estava maravilhada e verdadeiramente feliz. Comecei a revisitar meus monstros internos de forma que eles deixassem de serem monstros como a dor da morte do meu pai 12 anos antes que, de alguma forma, foi o que me motivou a questionar os meus sonhos e eu me descobri a filha montanhista de uma família tradicional; ou então o relacionamento ruim do ano anterior, que se não fosse por ele, eu talvez não tivesse aprendido tanto de montanha em curto espaço de tempo. As cicatrizes das dores então começaram a se transformar em um formato de gratidão porque tudo que eu já passei foi o que me levou a estar ali naquele momento e pronta para superar tudo sozinha.

O caminho vai agora seguindo cada vez mais lindo com sobe-desce por entre florestas e encostas até chegar a uma ponte que cruza por cima de uma linda cachoeira, certamente, formada de degelo dos cumes. Ao chegar do outro lado, para arrumar a minha polaina que o fecho havia quebrado, quando uma dupla formada por uma mãe e sua filhinha com aproximadamente 7 anos me abordam. Elas estavam trilhando pelo dia e precisavam voltar e queriam olhar meu mapa para saber se conseguiam voltar por outro caminho sem ter que dar meia volta no mesmo caminho. Infelizmente, não havia um outro caminho e, ao informar à filha que teriam que voltar, a menina abriu um bico! Isso sim é criança que ama montanha!

Tour du Mont Blanc

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Eu segui meu caminho rumo ao Col de Tricot que agora tornou-se uma subida constante, mas com vistas cada vez mais lindas do Glaciar de Bionnassay que era sempre usado como desculpa interna para uma paradinha para tirar fotos e recuperar o folego. Em uma dessas paradas, conheci um casal Israelenses que decidiu me adotar sem me avisar. Seguimos andando e caminhando com eles um pouco a minha frente, quando eu encostei numa pedra para pegar algo para comer, sentei e comi. Pronta para voltar à minha jornada naturalmente em solitude, quando vejo o casal me esperando e seguimos juntos nessa subida íngreme final até chegar ao primeiro grande Col do Tour du Mont Blanc onde fica muito clara a definição de Col. Eram alguns metros no “cume” e em seguida a trilha já seguiria por uma descida ainda mais íngreme do havia sido a subida. Banhado por 2 vistas de vales fenomenais e 2 cumes de montanhas.

Novamente, consegui fazer dentro do tempo da plaquinha. Aproveitei o bom ritmo, me despedi do casal e segui pela descida rumo ao Refuge de Miage (1.560 m). Descidas sempre foram meus fortes e eu desci em ritmo sensacional, era a minha vez de ultrapassar todo mundo na trilha. Foi uma descida muito íngreme (aproximadamente 500 metros em 2 km) e nesse trecho eu pude ver os primeiros animais na montanha ao lado. Eram ovelhinhas escaladoras – lindas e inspiradoras, já pensou como elas chegaram ali? É tão íngreme e eu estou andando pela trilha, elas não. Nesse momento pude perceber o quanto o Abacatinho estava realmente recuperado porque descidas são os trechos que costumam pegar os joelhos, mas eu não senti nada no meu.

Tour du Mont Blanc

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Perto das 14h, eu cheguei ao Refugio Miage quando realizei um dos primeiros sonhos da jornada tão planejada e pesquisada. Conheci as vaquinhas das montanhas e os seus sinos que são realmente especiais e, quando tocam, tocam na alma. Estava tão encantada com elas que por alguns segundos não observei o maravilhoso glaciar que estava atrás fazendo moldura de um cenário para elas. Eu já estava morrendo de fome e, apesar do tempo meio nublado, com calor então comprei um refrigerante no refúgio e almocei o lanche que eu havia encomendado no refúgio anterior. A maior parte dos refúgios oferece esse “piquenique” que cada um compõe de uma forma, mas sempre tem um bom sanduíche de presunto e queijo e uma fruta.

Descansei alguns minutos após almoço e parti para mais uma subida desse dia e foi então que eu aprendi uma lição importante para a trilha: não espere a fome e nem almoce tarde. Em diversos dias do TMB, tem refúgios no meio que são boas opções para almoçar pela estrutura, bebidas e até possibilidade de lanches/comidas e foi o que eu havia me planejado nesse dia. Porém, devido à grande fome, acabei comendo um pouco mais e, obviamente, não caiu bem no estomago vazio.

Aquela nova subida foi um desastre para o ritmo que estava se firmando bom. A subida de quase 200 metros acabou sendo mais pesada que as anteriores, e me levou a Le Truc (1.730m) com um mirante para o Aiguille de Bionnassay e o cume do Mont Blanc que continuava em se esconder. Virando de costas para esse grupo de montanhas que haviam me acompanhado pelo dia, vou seguindo o caminho e encontro o refúgio desse “cume” e um momento especial repleto de vaquinhas tilintando os seus sinos a canção das montanhas.

Tour du Mont Blanc

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Era hora de se despedir das senhoras vaquinhas e enfrentar a grande descida rumo a Les Contamines que estava no vale 500m abaixo e lá seguia eu com meu ritmo de descida quando recebi o presente por estar completando esse primeiro dia tão puxado: saiu o sol! Tudo que eu podia fazer era diminuir o ritmo e aproveitar a mistura dos ventos da montanha com os raios de sol no rosto. A trilha chegando próxima ao vilarejo fica muito bonita por entre árvores altas que fazem parte de um parque nacional. Ali existem diversas opções de trilhas curtas que não fazem parte do Tour du Mont Blanc, mas que podem fazer a felicidade de quem chegar ao vilarejo de outras formas.

Depois de descer mais saltitando de felicidade que trilhando, cheguei a Les Contamines (1.167m), um vilarejo maravilhoso com casinhas e flores lindas em um vale realmente circundado por montanhas por todos os lados. Novamente, fiquei pasma como as montanhas são próximas umas das outras nessa região. Não era exatamente ali que eu ficaria esta noite porque o meu refúgio ficava mais de 2km a frente já na saída da cidade. Como em alguns vilarejos existem diversas opções de refúgios, eu realmente pesquisei avaliações para tentar achar os melhores e não me meter em roubadas.

Segui meu caminho rumo ao Camping Le Pontet sem ritmo e começando a ficar entediada por não estar mais em trilha quando eu cruzo com a Chloe que havia decidido pegar o bondinho e não nos cruzamos mais durante o dia. Ela havia conhecido o Paul de Londres e seguimos o três em direção aos refúgios. Nessa parte menos legal de trilha foi realmente bom poder ter um pouco de companhia para animar, só foi chato que eles ficariam um tanto ainda mais a frente no Refúgio Nant Borrant. O meu refúgio ficava junto ao camping em uma área deliciosa de lazer junto a um lago e fica a dica para quem for ficar lá: chegue logo e corra para dar um mergulho porque eles têm horário máximo para isso e eu não consegui.

Tour du Mont Blanc

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Deixei as minhas botas na salinha-de-botas que era no andar de cima e fui conhecer minha casa por esta noite. O refúgio tinha dois andares de camas e não sei explicar porque, mas eu era a única pessoa no andar de baixo enquanto haviam dois grupos no andar de cima. Sorte minha! Fui tomar meu banho no banheiro que lembrava vestiário de clubes e tive o meu primeiro “problema” com chuveiro: a água era quente, mas o sistema de abertura era igual àqueles de torneiras que fecham sozinhas. Precisei de algumas manobras físicas para deixar a água rolando para dar aquela relaxada, mas correu tudo bem. Aproveitei pós banho para assistir o colorido do pôr do sol pelas montanhas (o sol estava se ponto perto de 19:30) e fui jantar.

Desta vez, as mesas estavam com nomes marcados e, para minha felicidade, eu iria dividir o jantar com meu trio favorito de franceses e nossas mímicas. Mais um jantar delicioso e, dessa vez, poderia repetir o quanto quisesse. (exceto a sobremesa… Saco! Por que eles sempre têm sobremesas contadas?). Pedimos um vinho para compartilhar dessa vez e iniciamos novamente por uma boa salada! O que a fome da montanha não faz, né? Eu nem gosto de comer saladas por aqui. Depois tivemos frango ao molho de curry com arroz que foi finalizado com a sobremesa: torta de massa folhada com bananas e frutas vermelhas com molho inglês! Sim! Eu queria mais… não tinha =(

Antes de fechar a noite, curti um pouco das estrelas e aproveitei as tomadas sobrando para carregar tudo que eu precisava! Apesar das noites bem frias lá fora, os refúgios costumam ser quentes e o meu conjunto de segunda pele foi mais do que suficiente para dormir e, apenas pela higiene geral e porque alguns refúgios pediam, eu dormia com um liner. Se na noite anterior foi difícil fechar os olhos de ansiedade, nessa noite eu dormi com os anjos de tanta paz que eu sentia.


1º dia em números (valores aproximados)

Distância total 22 km
Aclive 1.460 metros
Declive 1.200 metros
Cols Col de Voza e Col de Tricot
Variantes 1
Duração 9 horas (com 1h de almoço no refúgio e outras paradinhas)

Gastos

Descrição Valor
Piquenique € 12,00
Acomodação € 14,00
Jantar € 16,00
Café da Manhã € 7,00
Coca-Cola no Almoço € 4,00
Vinho no Jantar € 7,00
Total € 60,00
Total ACUMULADO € 60,00

Tradicional garota da cidade grande (São Paulo – SP) teve seu primeiro contato com trilhas em 2013 no Peru, mas só veio descobrir as belezas da sua vizinha Mantiqueira em 2015.

Apaixonou-se pelas montanhas e passou a se dedicar ao trekking e à escalada por diversos cantos do Brasil além de Peru, Chile, Venezuela, França, Itália e Suíça. Completou os 180 km do Tour du Mont Blanc sozinha após uma cirurgia no joelho.

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