A perigosa Houte Route: Um dos trekkings mais desafiantes da Europa

Combinei com um grupo de amigos no final de 2017 uma viagem à Europa para fazermos o Tour du Mont Blanc, todos estavam animados, mas eu já sabia o resultado desse fogo de palha. Então, paralelamente comecei a pesquisar outras trilhas longas próximas a Chamonix considerando fazer o Tour em 8 dias sozinho ao invés de 11 com o grupo.

Descobri uma tal de Houte Route que terminava em Zermatt, cidade ao lado do majestoso Matterhorn. Porém haviam poucas informações disponíveis na internet. Consultei sites, grupos de montanhistas, amigos, mas não consegui informações suficientes a ponto de me sentir seguro.

Basicamente existem duas trilhas altas partindo de Chamonix na França com destino a Zermatt na Suíça. Uma mais longa, feita comercialmente em 10 dias e que passa em várias cidades, colos e glaciares, e outra mais curta que passa no vale de Mauvoisin, feita comercialmente em 8 dias passando em áreas urbanas apenas no terceiro dia e também cortando glaciares e cruzando colos altos.

Como iria fazer sozinho e não teria muito tempo, optei por fazer a mais curta pensando ser fácil. A dificuldade de obter informações precisas era um mistério para mim, por isso tracei várias rotas de fuga e caprichei no sistema de navegação – NÃO PODIA ERRAR – estaria sozinho, no exterior, em ambiente de alto risco e com dificuldade de resgate.

Como previsto, todo o grupo de amigos desistiu por diversos motivos, achei ótimo, poderia impor meu ritmo e minhas práticas de baixo custo.

Passei dias estudando imagens de satélite e um relato de travessia guiada. Fiz os tracklogs e gravei-os no GPS, wikiloc, smartphone e na nuvem. Apesar de não gostar de usar mapas, imprimi vários e levei na mochila.

Tenho um pouco de experiência em alta montanha, sei usar os equipamentos e sei caminhar em neve, gelo e morena. Não levei bota plástica porque só faria a travessia com tempo bom e sempre dormiria em barraca ou abrigo nas partes baixas. Também não levei jaqueta de pluma porque nessa época a mínima não costuma baixar de -5º C.

Devido aos riscos inerentes e mitigáveis, decidi só fazer a Houte Route se a previsão do tempo na véspera das passagens dos glaciares fosse a melhor possível. Passaria em glaciares no primeiro, quarto e quinto dias além de uma longa morena no último dia. Poderia nem iniciar a travessia ou iniciar e retornar no quarto dia na cabana Chenrion em Mauvoisin. Passei boa parte do Tour du Mont Blanc desejando tempo ruim, mas não deu certo!

Fiz os 160km do Tour du Mont Blanc em 8 dias terminando em les Houches no dia 03/09/2018, passei o dia 04 em Chamonix lavando roupa, comprando comida e passeando. A previsão do tempo era de tempo bom no dia 05, nublado com chuvas dias 06 e 07, e ensolarado dias 08, 09 e 10, o que viabilizaria uma travessia segura.

Dia 1: 05/09/2018

Foto: Orlandinho Barros

Comecei bem, perdi o trem que me deixaria em Vallorcine já no meio da subida do primeiro dia. Peguei um ônibus até Le Tour (quem se hospeda em Chamonix, tem direito a transporte gratuito em todo o vale) e subi toda a barranqueira até a trilha do abrigo Albert 1st (2.702 m).

Dia ensolarado, mas a temperatura estava agradável. Haviam poucas pessoas na trilha, a maioria com mochilas pequenas de um dia. Minha mochila Low Alpine Expedition 75:95 devia estar com 18 kg, tinha barraca de alta montanha, saco de dormir de -8º C, crampons, comida e demais equipamentos, mesmo pesada estava confortável, peso para mim não é problema.

Estava bastante ansioso, sozinho, sem experiência suficiente para aventura desse porte e sem falar inglês direito. No penúltimo dia do Tour du Mont Blanc, passei próximo ao início da Houte Route e pude contemplar por muito tempo o glaciar du Tour (o primeiro dos 10 da travessia), lindo e ao mesmo tempo assustador.

Subida suave com vários cotovelos. Saí da estação final de ônibus de Le Tour às 8:25. Durante a subida até o abrigo ocorreram cinco avalanches pequenas, porém barulhentas, na base do glaciar du Tour, assustador mesmo estando longe.

Cheguei no refúgio às 12h, estava bem apesar de um pouco tenso devido ao atraso. Me abasteci de água, comi uma banana e segui em frente. A partir do abrigo “Albert 1st”, praticamente só tem uma trilha que segue em direção ao alto do glaciar. Não cansava de contemplar o cenário alpino! Montanhas com as mais variadas formas cercadas de neve com o glaciar abaixo.

Vários grupos com guia chegavam da geleira retornando de escaladas. A trilha continuava sem neve após o refúgio, meia hora depois do abrigo tive que colocar o crampon. Fiquei observando as pessoas que desciam pela neve a fim de identificar a melhor passagem. Estava tarde para cruzar o glaciar, a neve que cobria as fendas (crevasses) estava inconsolidada pelo calor representando um risco grande de queda fatal dentro delas, por isso improvisei uma cadeirinha com 2 anéis de fita de fita de 1,2m e 2 mosquetões com rosca, toda vez que entrei em glaciares eu usei essa cadeirinha.

Mesmo desviando bastante e seguindo estritamente os rastros na neve, caí em duas bordas rasas, o que me assustou bastante e me fez redobrar o cuidado. As trilhas no glaciar seguiam para a direita onde estão os principais picos, quando conferi no GPS, já tinha passado 200m da entrada do Col do Aig. du Tour. Retornei e fui subindo, a inclinação era grande, uns 70º, de vez em quando, passava uma pedra desmoronando e escorregando pelo gelo misturado com cascalho e neve (morena). Não era a melhor hora do dia para passar ali, mas não podia escolher e o perigo não era grande, pois não haviam fendas (crevasses) e a subida era curta.

Foto: Orlandinho Barros

O final da subida era uma parede de gelo coberta de cascalho, muito difícil de subir. Escorreguei e rolei por cinco metros sem maiores consequências. Não tinha como seguir fielmente o tracklog (isso não era preocupante) pois ali o ambiente muda a cada ano e a melhor passagem varia conforme as condições do terreno. Apesar de ter estudado bastante as imagens de satélite, a paisagem não era bem a esperada, mas eu já sabia que isso poderei acontecer.

Próximo ao Col tem uma corda fixa que muito me ajudou na subida sobre as rochas com crampon. Cruzei o Col (3.300m) às 13h quando parei para comer e descansar antes de entrar em território suíço. À frente, uma infinidade de neve do Plateau du Trient, tive que consultar o GPS e o Google Earth no smartphone várias vezes para poder cruzá-lo em direção ao glaciar d´Orny. Triste ilusão a de que cruzaria facilmente sem olhar os equipamentos. Na imagem parecia bem fácil, mas a realidade se mostrou o contrário.

Fora do rastro correto na neve, era muito difícil avançar pois a neve estava fofa e tinham várias ondulações. A bota começou a molhar por dentro e esfriar o pé, mas com tempo quente, não foi problema,

além do mais, dormiria na parte baixa com certeza. Haviam muitas fendas perigosas no Plateau, nem tive coragem de me aproximar para observar, sempre passava longe.

Estava a 3.200 metros quando comecei a descer o glaciar d´Orny por volta das 16:30h, sempre pela esquerda perto das pedras a fim de evitar os cravasses e neve funda, tentava me manter nos rastros visíveis na neve. Eventualmente via uma lata velha ou outros pequenos lixos no glaciar, sinal de que ali passava montanhista com certa frequência.

Próximo à Cabana du Trient, no começo da longa descida de quase três quilômetros, era possível ver todo o glaciar até o final, isso permitia não usar equipamento de navegação com o tempo bom. Do lado direito do vale, ouvi e vi várias avalanches de pedras do Le Potalet, o barulho é diferente de tudo que tinha ouvido.

Às 18h cheguei no final do glaciar, tirei o crampon e segui perdendo e achando as trilhas entre os blocos de pedra. Peguei erradamente uma trilha que seguia para a direita, mas logo atalhei para a correta que passava bem próxima ao paredão da esquerda. Meu destino do dia era uma área aberta no Val d´Arpette no Tour du Mont Blanc, tinha que seguir até a estação de teleférico la Breya e de lá descer a estrada. Mas estava atrasado, por volta das 19h cheguei em uma bifurcação onde tinham placas que indicavam la Breya e Champex Lac à esquerda por trilha larga e Osierés para a direita entre grandes blocos de pedras. Segui para a direita pois o teleférico estaria fechado e já era muito tarde.

Descida íngreme com muita pedra solta e sinalização pintada nas pedras, certamente era uma trilha pouco usada. Estava muito lento, via luzes ao fundo do vale muito distante, tinha certeza que iria bivacar. Quando passou das 19:30 comecei a procurar local plano e com água para acampar, o sol se poria às 20:00 e haveria claridade até 20:30. Encontrei fonte de água, mas local plano estava muito difícil. Por volta das 20h, achei uma grande pedra ao lado da trilha e armei a barraca toda torta colada à pedra. Tomei cuidado para não causar muito impacto e nem ficar exposto, pois não é permitido camping selvagem na Suíça. Nas proximidades não havia casas, nem animais, nem cercas o que indicaria propriedade privada.

Tomei banho de lenço umedecido, fiz sopa rapidamente por causa do frio e fui deitar depois de 17km nesse primeiro dia.

Dia 2: 06/09/2018

Acordei cedo depois de uma noite mais ou menos naquele piso irregular cheio de pedras. Fazia frio, desarmei logo a barraca porque certamente ali não era permitido acampar. Antes de cruzar o rio d´Orny, fiz meu desjejum, em seguida continuei descendo aquela trilha irregular cheia de pedras soltas. Na saída do vale, cruzei o traçado do Tour du Mont Blanc entre Champex Lac e Osierés, tirei a segunda pele quando alcancei uma área plana na região de Som-la-Proz próximo a Osierés.

Dali em diante, segui por estradas, atravessei Prassurny e desci facilmente até a estação de trem de Osierés, total de 6km apenas. Eram 12h, nesse ponto a travessia segue por asfalto por 19km até o camping em Bonatchiesse, a maioria dos montanhistas opta por fazer de trem pois os dias seguintes são duros e andar em asfalto sem acostamento é monótono além de perigoso. Decidi então pegar o trem. Fiz mercado (3 refeições prontas, sucos, pasta de amendoim e bolo), peguei um jornal para fazer de sanitário na montanha (shit News) e fui comer uma pizza com cerveja.

Peguei o trem para Cablê por volta das 13h, não saltei em Sembrancher como deveria, com isso perdi mais de uma hora retornando. Em Cablê peguei o ônibus 253 para Bonatchiese, tarde chuvosa, estrada sinuosa e estreita. Cheguei no Camping Forêt des Mélezes às 17:00, depois de alguns desencontros, fui atendido muito bem por Vera que falava português e me explicou algumas coisas da Houte Route. Tomei aquele banho e carreguei as baterias dos equipamentos. Dormi em um Tipi (tenda indígena), com isso não armei barraca, excelente noite.

Dia 3: 07/09/2018

Acordei com o tempo frio e fechado como previsto, não dava para ver os cumes das montanhas, porém a previsão era de tempo bom à tarde e ensolarado nos próximos 3 dias. Saí às 9:20 do camping seguindo o desértico asfalto até a barragem de Mauvoisin, 4 quilômetros de sinuosidade subindo o fundo do vale. Próximo à barragem, uma indicação em francês para entrar em um pequeno túnel. A porta era do tipo de estação de trem sem retorno.

Não havia ninguém para pedir informações, confiei na sinalização e entrei no túnel úmido, estreito e inclinado, se não tivesse saída, eu estaria em situação difícil. Muitas subidas depois consegui sair daquela situação, foram momentos tensos. Cruzei a famosa barragem de Mauvoisin com seus 250 metros de altura por 520 metros de largura. Eram 11:00, do outro lado uma estrada de terra que entrava em vários túneis frios e úmidos.

Foto: Orlandinho Barros

Na margem esquerda da barragem há uma grande cachoeira que surge do meio da montanha, algo impressionante pois não é possível ver o rio por cima.

Esse seria um dia tranquilo, sem dificuldades apesar das subidas. O dia seguinte seria decisivo em relação à travessia dos glaciares, seguir com tempo bom ou retornar. Ainda tinha esperanças de mudança no tempo, mas a meteorelogia mantinha a previsão de tempo bom.

Segui a estrada de terra até uma cancela, a sinalização indicava virar à esquerda para uma trilha de subida forte. Consultei o GPS e confirmei a subida sinuosa. A vista aérea da barragem era linda. À medida que a tarde passava, o tempo abria cada vez mais. Fui seguindo facilmente a trilha até o refúgio Chanrion, nas imediações várias marmotas brincavam. Cheguei no refúgio às 15:25 totalizando os 13 km em 6 horas de subida desde o camping.

Foto: Orlandinho Barros

Lugar lindo, visual fantástico a 2.460 metros aos pés do Pointe d´Otemma, cercado por outros imponentes nevados.

Conversei com o gerente do refúgio que era guia e me tirou várias dúvidas afirmando ser possível fazer a travessia em 3 dias como eu pretendia.

Fazia frio do lado de fora, uma pena porque não pude curtir os arredores, mesmo assim fiz várias comparações do cenário com as imagens de satélite (o sinal 4G estava bem fraco).

Aproveitei a tarde livre para escrever e rever o planejamento e as estratégias, os próximos dias seriam bem puxados.

Não havia chuveiro no refúgio nem água potável, pelo menos tinha aquecedor bom, cama e café da manhã.

Nos refúgios alpinos, dormimos bem cedo, acordamos ainda no escuro, há lugar determinado na mesa do café da manhã, todos fazem silêncio, não usam botas nem tênis do lado de dentro, há rigor nos horários e os dormitórios são compartilhados.

As tomadas elétricas para carregar os equipamentos ficam disponíveis das 18:30 às 19:30, com isso só consegui 80% de carga no celular!

Dia 4: 08/09/2018

Foto do Nevado Dent Blanche ao fundo| Foto: Orlandinho Barros

CHEGOU O DIA!!! Acordei antes das 6h, café na mesa já. Tempo aberto, sem nenhuma nuvem, sem chance de desistir! Vesti a capa de montanhista destemido e entrei no glaciar! Não fazia muito frio, talvez uns 12º C, estava bem dormido, bem alimentado e sem água porque tinha bastante nas montanhas.

Saí do refúgio às 6:50. Segundo o guia do refúgio, os montanhistas fazem a subida do glaciar em 6 horas, minha meta era chegar no platô em 7 horas. A trilha segue contornando o sopé do Pointe d´Otemma até a barragem do rio do glaciar, daí em diante margeia o rio até o começo do glaciar. Toda a suave subida até o platô tem 700 metros em 7 km, consegui subir até o início do Petit Mont Collon sem crampon seguindo pelas pedras sobre o gelo do lado direito. A neve estava bem dura, as poças congeladas, foi tranquilo. Me surpreendi com a suave aclividade do glaciar, nas imagens parecia bem mais inclinado.

Cheguei no platô em exatas 6 horas sem dificuldade mesmo parando para fotos e hidratação, então comecei a considerar a possibilidade de dormir além do ponto determinado porque o dia seguinte seria extremamente puxado. No platô, olhando na direção NE é possível avistar o refúgio cabana de Bertol. Consultei várias vezes os GPS por causa da vastidão e dos vários rastros na neve.

Imagem de satélite

Fui contornando o Petit Mont Collon seguindo os principais rastros, longe das fendas e próximo ao tracklog do GPS. A inclinação era suave, meu avanço tranquilo e seguro. O visual era muito lindo: glaciares e picos!

A certa altura do contorno do Petit Mont Collon, guinei para a esquerda passando próximo ao Col du Petit Mont Collon, cruzando o Col de l´Eveque (3.400 m), já contornando o l´Eveque (3.700 m) que estava à minha esquerda. Eram 13:00, agora estava na Itália no alto do glaciar d´Arolla, a fronteira com a Suíça estava poucos metros à frente.

Estava bastante adiantado, gastaria mais 1 hora até o ponto de dormida – o lago do Col Collon. Como estava me sentindo bem, o tempo estava bem aberto sem frio, várias fontes de água no caminho, decidi caminhar o máximo possível porque o próximo dia seria extremamente puxado. Até aquele momento não tinha visto ninguém no glaciar, nem ao longe. Comecei a entender o porquê de ter pouca informação sobre essa travessia.

Col de l´Eveque ao fundo, fronteira Suíça/Itália | Foto: Orlandinho Barros

Descida tranquila com algumas fendas bem visíveis e fáceis de transpor. Rapidamente saí da geleira e entrei na morena, nesse momento, já sem crampon, avistei bem longe 3 pessoas próximas ao Col Collon certamente acampando, pois estavam sem mochilas. Existiam várias trilhas entre os blocos de pedra, todas no mesmo sentido, era um vale fundo com o Mont Collon (3.630 m) à esquerda e o maciço do Bertol à direita.

O glaciar d´Arolla forma um rio raso e estreito. O tracklog indicava a margem direita do rio, porém não queria atravessar ali e fui seguindo pela esquerda mesmo. Teria mais 4km até a subida do Plans de Bertol. Pararia para acampar no próximo ponto de água, pois água de glaciar não se deve beber devido à grande quantidade de sedimentos dissolvidos. Incrivelmente, não havia água descendo pelas paredes do Mont Collon. O rio não tinha ponto de travessia, ou eu voltava 3 km para cruzá-lo ou atravessava a água gelada antes da subida. Segui em frente confiante de que acharia água, fui até o final da parte plana da morena que é uma pequena barragem com placas de passagem proibida, era o fim de linha!

Avistei uma fonte de água do outro lado do rio, teria que atravessar ali. Passava das 19h, tinha pouco tempo de claridade, tirei as botas e cruzei o rio, quase houve um congelamento instantâneo dos pés, água extremamente gelada. Armei a barraca rapidamente e me aqueci, estava a 2.600m, em cima da morena ainda, ou seja, gelo por baixo do cascalho. Nem curti o visual porque começou a fazer frio e queria descansar pois foi um dia longo, 20km em mais de 12 horas de atividade.

Dia 5: 09/09/2018

Muito frio durante à noite. Acordei cedo e desarmei logo a barraca para não ser visto e evitar problemas. Fazia frio, estava em um vale profundo onde o sol demorava para surgir, do outro lado do glaciar eu via o Petit Mont Collon e a borda do glaciar, tinha dado uma grande volta no Mont Collon. Saí sem comer, subi até o Plans de Bertol (2.670 m) onde há interseção de uma trilha que desce o Arolla, nesse ponto parei para fazer o desjejum pouco antes das 9 da manhã. Eventualmente alguns pequenos grupos passavam por mim subindo o Bertol, porém vindos da parte baixa do Glaciar de Arolla.

A trilha bifurcava várias vezes mas no mesmo sentido, eram pequenas variantes. Observava atentamente as pessoas na minha frente para segui-las e evitar perda de tempo. A certa altura, deveria cruzar a neve, o grupo que estava na minha frente não colocou crampon, fiz o mesmo pois a inclinação era suave, a neve estava dura e o trecho era curto. Fui seguindo por entre as pedras evitando a neve, a cabana do Bertol ficava no alto, porém eu não passaria por ela para ganhar tempo. Próximo ao col, tem uma sequência de escadas na rocha, utilizei a cadeirinha improvisada para fazer minha segurança na subida.

Pouco antes de subir, perguntei a um guia que havia descido se seria necessário escalar, ele respondeu que não e perguntou se estava sozinho e se iria cruzar os glaciares pela tarde pois é muito perigoso devido aos crevasses. Já imaginava que seria difícil, dei mais uma olhada nas imagens de satélite e decidi continuar sempre considerando a possibilidade de retornar ou abandonar a rota.

O trecho final do col é difícil de passar com mochila grande e crampon, é uma pequena escalada vertical. Lá em cima (3.275 m) a vastidão do Glaciar du Mont Miné que desce para o lado esquerdo e 45º à minha direita ao fundo o Tête Blanche (3.710 m), ponto mais alto da travessia. Avaliei bastante o trecho e não vi perigo, haviam poucas pequenas fendas e tinha a possibilidade de passar colado no Dents de Bertol. A única dúvida seria a descida do glaciar Stockji que parecia ter algumas fendas grandes.

Haviam pegadas na neve em direção ao Tête Blanche, mesmo assim consultei o GPS várias vezes por causa das muitas variantes e caminhos para outros picos. O tempo estava quente e eu suava, mas quando parava começava a sentir frio. Estava me sentindo bem, parava a cada meia hora para descansar, na parte final da subida, não conseguia andar por mais de 10 minutos, foi sofrido. O surgimento do Matterhorn à medida que subia era um estímulo, primeira vez na vida que via essa montanha tão famosa.

Estava vencendo um desnível de mais de 400m sem perceber por causa da imensidão da neve que me fez perder a noção de profundidade. Cheguei bem cansado na base do Tête Blanche, dali em diante seria só descida. Mas tinha a obrigação de fazer o cume, estava a 200 metros dele com um desnível de apenas 50 metros. Deixei a mochila e subi, foi a melhor decisão pois a vista era indescritível, vários picos e glaciares a perder de vista.

Foto: Orlandinho Barros

Comecei a descida às 16h, o destino era o final do glaciar, era possível ver o ponto de pernoite, mas tinham muitas fendas grandes no caminho até lá. Fui seguindo as pegadas que zigue-zagueavam muito, ora subia, ora ia muito para a direita, sempre passando nas bordas das fendas gigantes. Ninguém nas imediações, essa parte da travessia é deserta, tinham poucas pegadas. Descobri porque não encontrei informações sobre essa travessia – não a fazem mais por causa do risco de acidente nas grandes fendas do glaciar Stockji.

Esse trecho do glaciar tem 1km de largura e 2 km de comprimento, eu fiz 3 km descendo por causa dos desvios. A inclinação era suave, porém as fendas eram assustadoras, muito profundas. A passagem sempre cruzava o comecinho de várias fendas onde a neve faz pontes. Em algumas, a neve estava fofa e eu caí em 5, o que me causou pânico, mas com calma, consegui “desenterrar” a perna de todas.

Demorei três horas para descer com segurança até a borda inferior do glaciar, nem olhava o GPS, só queria sair dali. Na borda, um precipício de 200m sem trilha. Consultei o GPS, havia passado 400 metros da saída do glaciar. Retornei subindo pela borda, passei pelo ponto de pernoite às 19:50 ainda com claridade. Imaginei que seria uma noite gelada acampar ali, a bota estava encharcada e a meia também, segui até encontrar uma fonte de água próxima a um local plano para acampar.

Foto: Orlandinho Barros

Saindo do glaciar, a trilha segue por uma perigosa encosta de pedra e terra, qualquer tropeço seria fatal, em vários pontos tive que usar as mãos. Próximo das 20:30, já na penumbra, achei um local bom para acampar. Foi um dia muito difícil, mais de 12 horas de hiking em montanha e glaciares, apesar de tudo, não me sentia cansado.

Não fazia frio apesar de estar a 2.700 metros, pude curtir o visual dos glaciares, o Matterhorn bem a minha frente e o céu estrelado.

Dia 6: 10/09/2018

Certo de que o pior já tinha passado e que restaria apenas uma suave e curta descida até Zermatt, me mantive tranquilo ao despertar e arrumar as coisas, até esperei a barraca secar. Durante a noite o Matterhorn roncou muito, foram muitas avalanches barulhentas. Estava no vale do Glaciar Tiefmatten pertinho do Matterhorn. Teria apenas um trecho de morena até a civilização.

O sol demorou de aparecer, não fazia frio, a face Suíça do Matterhorn estava sombreada, porém muito bonita. Utilizei uma meia seca e pendurei a molhada na mochila para secar. Fui descendo a trilha que já não estava tão perigosa até a saída da encosta.

Foto: Orlandinho Barros

De repente, uma parede de 30 metros com água escorrendo e uma corda naval para dar “segurança”, demorei para aceitar que a passagem só podia ser feita com aquela corda. Desci com muito cuidado e entrei na morena. Uma infinidade de blocos de pedra que se estendia até onde a vista alcançava. O tracklog indicava subir bastante à esquerda para o refúgio Schonbiel e depois seguir por uma trilha alta até a Arbenbach falls.

Vários helicópteros pairavam sobre o vale, temi estarem me seguindo por ter dormido em local não permitido, pura viagem! Não passei no abrigo, segui umas discretas e inconstantes marcações na morena, foi um sobe-e-desce sem fim tendo o majestoso Matterhorn do lado direito, constantemente eu parava para contemplá-lo. Algumas vezes saía no alto de uma parede de gelo e tinha que retornar para dar a volta, isso se tornou cansativo. Às 11:00 cheguei no final da morena, nascente do rio (2.250 m) quando parei para descansar um pouco.

Observando a nascente do rio na parede da morena, reparei que caiam pedaços de gelo, então comecei a filmar na vã esperança de flagrar um grande desmoronamento. De repente, toneladas de gelo despencaram fazendo um grande estrondo, e eu filmei TUDO! Que presente maravilhoso essa cena, fiquei extasiado.

Não podia demorar muito porque tinha reservado um carro na cidade de VISP, distante hora e meia de trem a partir de Zermatt. Peguei um trecho de estrada de terra até a subida da Arbenbach falls, linda cachoeira do lado esquerdo do vale, naquele ponto retomei a trilha. Só descida margeando o rio, muitas placas sinalizando as várias trilhas. A partir da área urbanizada, a trilha vira um caminho largo e pavimentado com inclinação constante até Zermatt, isso me cansou muito e provocou uma dor na lombar, nada sério. Acho que foi a ansiedade de chegar, a euforia de ter concluído a travessia e não ter parado o suficiente para descansar.

Cheguei na praça principal da movimentada Zermatt às 15h e fui direto para a estação de trem comprar a passagem, foram 14 km de descida nesse dia. Viagem tranquila até VISP. Consegui dormir em Chamonix no hostel onde deixei minha outra mochila. Dia seguinte já dormi nas Dolomitas.

Foto: Orlandinho Barros

Uma aventura bem estudada e uma excelente estratégia traçada, mesmo não tendo informações suficientes. Foram 90km de grande altimetria passando por 10 glaciares e mais 20km de trem. Da próxima vez, reservarei mais 2 ou 3 dias para fazer alguns picos em trekking de alta montanha. Penso também em dormir nos glaciares e levar bota impermeável.

A Houte Route é uma travessia clássica e difícil, nos abrigos, quando falava que ia fazê-la, as pessoas arregalavam os olhos e faziam muitas perguntas. Alguns guias me olharam durante o percurso com expressão de: – lá vai um maluco suicida!

Mas deu tudo certo, experiência, preparo físico, informação (mesmo que mínima) e equipamentos, é o quadripé do sucesso nas atividades outdoor.

Orlandinho Barros nasceu em 5/7/1965 na Bahia, é pai de duas filhas, formado em TI, morando em Salvador, atualmente dedicado ao trekking. É Explorador de trilhas desde sempre, fazendo quase todas as trilhas clássicas no Brasil em 11 estados, muitas sozinho. Fez 440 km da Appalachian Trail em 2017 em 25 dias. Abriu 305 km da Trilha inédita Brasil Central conectando Brasília a Alto Paraíso em 2016.

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