Dia 9 no Tour du Mont Blanc: De Col de la Forclaz (1.526 m) a Tre-Le-Champ (1.417 m)

Mais um dia de acordar cedo. Mais um dia cheio com duas variantes e a última fronteira de países. O que já indica um col e, consequente, subida pesada. Fiz a rotina tradicional da manhã no Tour du Mont Blanc: Acordei, me arrumei, arrumei a mochila, tomei café da manhã, peguei a mochila, coloquei o piquenique nela, vesti a bota da sala de botas e é hora de deixar o Col de la Forclaz (1.526 m) para traz.

Depois de dois dias (quase 3) com muita companhia das outras três mulheres, estava gostoso voltar a caminhar só comigo mesma. Dessa vez as meninas já tinham comentado que não iriam tentar a primeira variante porque estavam muito cansadas do dia anterior. Sozinha, a mente vai longe e é possível ate encontrar respostas para as perguntas que a gente joga para o universo. O seria para dentro de si mesma? O dia anunciava que seria bonito com o sol no céu e algumas nuvens. Ainda precisaria esperar para ver se ficaria muito quente ou não já que o sol nem tinha nascido direito, mas as duas variantes já estavam garantidas.

O começo do dia foi bastante chato por voltar aqueles dois quilômetros finais do dia anterior. Voltar um trecho já feito não é muito legal, mas quando ele já foi ruim da primeira vez, fica ainda mais difícil. Cheguei ate o ponto da bifurcação onde eu deixei as meninas no dia anterior e pude sorrir. A vista já voltava a ficar linda com o glaciar lá longe e cruzar a pontezinha por cima das suas águas degeladas. Era depois deste ponto que vinha mais uma bifurcação: a trilha normal descia para Trient para depois subir em direção ao col enquanto a variante já iria começar uma subida.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Aproveitei o tempo bom e parti em direção à primeira variante do dia. Assim como todas subidas do Tour du Mont Blanc, essa também seria bastante íngreme. Ela começava por uma parte mais fechada coberta por árvores com o solo até mais úmido que o normal e eu ia subindo passinho a passinho para evitar qualquer acidente. Como eu estava sozinha, tomava todos os cuidados extras para que nenhum acidente acontecesse. Ou era apenas uma desculpa para ir bem devagar porque era muito íngreme. Seriam mais de 500 metros em pouco mais de dois quilômetros.

Em metade do caminho, mas não metade do aclive, o cenário se abriu e eu estava realmente perto de um glaciar maravilho. E a vontade de abandonar o Tour du Mont Blanc e simplesmente ir lá caminhar? E então começava um grande zigue-zague cada vez mais íngreme andando em paralelo ao glaciar. Chegar perto do glaciar realmente trazia um vento mais gelado e ajudava a subida a não ficar tão quente. Apesar de bem próximos, o glaciar de ontem, Glacier du Trient, não era o mesmo de hoje, o Glacier des Grands.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Foi então que percebi que esta variante não seria tão trivial quanto eu pensava. Não havia lido muito sobre ela e nem assistido a vídeo algum e por isso mal sabia eu que aquele seria um dia com partes técnicas que eu gosto tanto! Em uma quebrada para a direita começando a tomar um rumo contrário ao do início do dia (e muito mais alto), apareceu uma subida de pedra mais técnica e tão exposta que havia uma corrente presa à parede para dar mais segurança.

O primeiro ponto marcado no mapa do dia de hoje era o Refugio Les Grands e uma parte de mim tinha uma grande esperança de uma coca-cola geladinha quando chegasse lá. A ansiedade de chegar ficou ainda maior quando veio uma vontade gigante de fazer xixi. Apesar de eu não ter cruzado com nenhuma pessoa até o momento, a trilha era bastante aberta e eu estava com medo de alguém aparecer do nada, além de ser muito mais difícil e arriscado se abaixar em pontos mais técnicos e expostos. Não iriamos arriscar que a mochila rolasse de novo né?

Para alívio da minha bexiga, mas não da minha sede, o Refugio Les Grands (2.113 m) finalmente chegou. Acho que é meio estranho chama-lo de refúgio porque era uma casinha incrivelmente menor que os reais refúgios, parecia abandonada e nem sei se realmente havia espaço para camas ali dentro. Primeiro pensei usar as paredes para poder ir ao “banheiro”, ate que percebi que do lado de fora, alguns metros à frente tinha um banheiro rústico e, com toda a privacidade que ele me deu, esvaziei a bexiga. A Coca-Cola ficou faltando.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Continuei meus passos para perceber que o caminho começava a fazer uma curva para a esquerda contornando aquela montanha que eu havia subido uma parte. Quanto mais eu voltada naquele sentido, mais a vista mágica de montanhas ia aparecendo. Compensando a vista do glaciar que eu estava deixando para trás.

Essa curva foi se tornando cada vez mais técnica com trechos de escalaminhada, muitas vezes amparado por correntes, assim como trechos apenas com pequenas pedras no chão e uma delas marcando o sentido que eu deveria ir “curva à esquerda”. Sempre com um precipício ao lado, mas eu estava me divertindo com tantas pedras. A curva ia seguindo por uma leve descida que me fez perder, aproximadamente, 70 metros.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Ao terminar a curva, a trilha ficou um pouco mais fria para mim porque o sol não estava batendo nela, além de diversos trechos com água escorrendo pelas paredes que também resfriavam. Comecei a ver lá embaixo (aproximadamente 250 metros abaixo) o pessoal que estava fazendo a trilha normal e eu ainda iria ganhar mais 150 metros. O aclive entre as duas rotas é bastante parecido, porém, apesar da rota normal ser mais curta, o ganho de altitude na variante é mais concentrado, parecendo mais pesado.

Eu estava realmente completando o primeiro trecho de toda a trilha onde eu fiquei 100% sozinha. Acho que é uma variante pouco feita então não cruzei com ninguém. O sol já estava batendo na trilha, eu toda orgulhosa de mim mesma, e comecei a avistar a próxima casinha. É interessante que sempre que eu avisto casinhas ao longe, não importa quão bom esteja o meu passo, elas parecem nunca chegar.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Finalmente cheguei ao Col de Balme (2.191 m) que é a fronteira entre a Suíça e a França. Era minha última fronteira e, quando eu acordei, tinha pensado que esse seria o início do caminho de volta a Les Houches, o final. Porém, não houve espaço para o meu coração pensar nisso. Ali do outro lado do Col, na vista do “outro vale bonito para onde eu iria descer”, estava o Mont Blanc. Finalmente !!!! Só consegui avistar ele quando realmente pisei no centro do col e, em um dia de céu tão limpo que o sol batia nos cumes bancos e prejudicava as fotos, o Mont Blanc apareceu inteiro para mim. Ele realmente havia se guardado como um presente para o final desta aventura e não havia momento melhor para ele se apresentar para mim.

Depois de uma intensa sessão de fotos e namoro daquela vista que eu não queria largar, fui tomar minha coca-cola no refúgio que tem junto ao col. Novamente, não sei se eles tem camas ali, mas parecia mal cuidado e apenas uma senhora rabugenta servindo as bebidas. Cruzei com as meninas nas mesas e almoçamos juntas. Elas se sentiram descansadas e toparam fazer comigo a rota mais pesada. Dessa vez, a rota mais pesada é a normal e não a variante. A variante já iria direto descer para o vale passando, primeiro, pelo vilarejo de Le Tour. Esse já é o vale com comum com onde esta Chamonix então já é uma área repleta de possibilidades de trilhas curtas além de opções de bondinhos/teleféricos.

Partimos então para a rota mais pesada que, a princípio, nos enganou. Ela seguiu por um caminho relativamente plano com leve aclive se afastando um pouco do Mont Blanc até que descemos por quase 200 metros e então perdemos o lindo monte branco de nossa vista. A descida tornou-se divertida quando cruzamos com um rebanho de ovelhas e brincamos com os seus “Méh”. Começamos então mais uma subida íngreme onde ganhamos os 200 metros de volta em pouco menos de um quilômetro, mas o esforço foi mais do que recompensado.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Ao chegar no cumedo Aiguille des Posettes (2.201 m), esse era realmente um dos raros cumes do TMB, a vista do Mont Blanc era ainda mais especial que no Col e vibramos todas juntas naquele momento com uma super sessão de fotos de amigas e nos tornamos o Team Osprey já que todas usavam mochilas da mesma marca. Também seria nosso último cume todas juntas porque a Chloe já iria terminar o seu Tour du Mont Blanc quando chegássemos no vilarejo.

Veio então a última parte do dia que era uma descida de quase 800 metros em quase quatro quilômetros. Era bastante íngreme, mas, mesmo assim, eu tinha um ritmo bem mais forte que o das meninas. Deixei elas irem um pouco na frente enquanto eu tirava mais fotos, mas depois acabei passando na frente delas até porque a descida seguia para dentro de uma trilha fechada com árvores e a vista do Mont Blanc já tinha nos abandonado. Esperei em uma trifurcação que era um ponto que eu estava bastante preocupada porque eu havia visto o relato de uma brasileira que havia feito o Tour du Mont Blanc pouco antes e ela havia dito que havia placa errada e ela tinha se perdido. Não sei se ela estava muito cansada, mas não precisam se preocupar porque não há nenhuma placa errada e a navegação, mesmo na trifurcação é bem simples.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Terminamos a descida as quatro juntas e ao chegar em Tre-Le-Champ (1.417m) as arvores se abriram e fomos presentadas com uma linda vista do maciço do Mont Blanc ainda sem nuvens. Apesar da vista linda, foi uma chegada bastante emotiva porque era a despedida da Chloe. Ela havia sido minha primeira parceira de Tour du Mont Blanc e eu não dividiria com ela o meu final, mas eu estava podendo dividir o final dela! Conhecemos os pais dela que tinham vindo de carro busca-la e dividimos todos um vinho para celebrar esse momento.

O refúgio La Boerne é o principal no vilarejo e foi ficando cheio com as pessoas chegando e corremos para tomar banho. Era um banheiro privativo e bem pequeno que eu tive a sorte de pegar a água quente, mas depois ouvi algumas pessoas tendo problemas. Fora isso, o refúgio era ótimo e até tinha uma grande laje com vista para as grandes montanhas brancas onde coloquei minha camiseta e meias para secar depois de lava-las.

Chegou a hora do jantar e a facilidade do acesso na proximidade de Chamonix, trouxe tantas pessoas novas para a mesa. Muitos fazendo trechos curtos e tantos outros começando a trilha no sentido contrário. O jantar começou com uma tradicional salada de folhas e tomate, acho que estou me dando melhor com os tomates. Foi acompanhada de frangos em molho que eu nunca sei identificar do que é, mas que era tão gostoso que eu colocava até em cima do arroz que acompanhava. Dessa vez veio a pre-sobremesa mais completa do Tour du Mont Blanc com diversos tipos de queijo em pedaços grandes que permitiam repetir. Para fechar, a sobremesa era um iogurte com calda de frutas que, a princípio, eu achei que seria sem graça, mas foi tão saboroso que eu repetiria se tivesse essa opção.

Subi para o meu quarto para dormir com uma certa melancolia no coração. Ainda sem entender muito bem se era da comida deliciosa sendo digerida ou a sensação de que estava acabando.


Leia os relatos anteriores Tour du Mont Blanc

  • Chegando no Tour du Mont Blanc: De cirurgia no joelho a Les Houches


8º dia em números (valores aproximados)

Distância total 18 km
Aclive 900 metros
Declive 1.070 metros
Cols 1 (Col de Balme)
Variantes 1
Duração 9h00 (Paradas extras: namorar o Mont Blanc)
Fronteiras 1
Cume Aiguille des Posettes
Variantes 2

Gastos

Descrição Valor
Sorvete
Hospedagem (Dormitório + Café da Manha + Jantar ) € 44,00
Vinho € 5,00
Café da Manhã
Lanche € 5,00
Piquenique € 10,00
Total € 64,00
Total ACUMULADO € 760,00

Tradicional garota da cidade grande (São Paulo – SP) teve seu primeiro contato com trilhas em 2013 no Peru, mas só veio descobrir as belezas da sua vizinha Mantiqueira em 2015.

Apaixonou-se pelas montanhas e passou a se dedicar ao trekking e à escalada por diversos cantos do Brasil além de Peru, Chile, Venezuela, França, Itália e Suíça. Completou os 180 km do Tour du Mont Blanc sozinha após uma cirurgia no joelho.

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