Dia 7 no Tour du Mont Blanc: De La Fouly (1.610 m) a Champex (1.466 m)

Depois de uma dupla de dias tão difíceis, viria o “dia mais fácil do Tour du Mont Blanc“. Ao menos era assim que as pessoas falavam… O dia fácil! Não sei exatamente o que quer dizer fácil porque ainda seriam mais de 15 km de trilhas e um aclive de mais de 500 metros focado só no final… Decidi então criar a graduação dos dias do Tour du Mont Blanc de 1 a 6 sendo:

  • 1 o menos difícil
  • 6 o “quase morrendo” (porque nada ali poderia ser classificado como “fácil”
Tour du Mont Blanc

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Aproveitei que seria o único dia 1 da aventura para não me preocupar em acordar tão cedo depois de uma noite quentinha no quarto privativo. Ao acordar me deparei com o que eu estava perdendo no dia anterior: as lindas montanhas nevadas que circundam La Fouly. A vista era realmente mágica com o sol que havia aparecido. Estava fresquinho, mas bem mais tranquilo que no dia anterior. Arrumei a bagunça que estava no meu quarto desde a noite anterior e tomei o café da manhã com calma, quase indo devagar demais.

Foi a primeira vez que precisei usar o meu kit de primeiros socorros/remédios já que no dia anterior eu tinha sofrido muito com dor muscular e eu tinha acordado um tanto dolorida de forma geral. Foi apenas um analgésico muscular simples. Montar esse kit foi um grande desafio feio a diversas mãos onde eu tentei junto a amigos e médicos pensar em todas as possibilidades de dores, doenças e acidentes que pudessem acontecer. O kit era formado por tudo que eu precisasse para me virar nessas situações e o principal: detalhes de como agir, o que tomar, quanto etc. Não adianta ter o kit mais completo se não souber realmente usar o que esta ali. E o que é o Kit completo? Cada um tem o seu! Vale construir ele com a ajuda de amigos, familiares e, principalmente, médicos de confiança. Mesmo assim eu acabei esquecendo de um item no kit: um cicatrizante oral/labial. No dia anterior, o vento e o frio cortaram o meu lábio e ele só viria a sarar de volta no Brasil com o remédio.

Fui então encontrar as meninas no refúgio delas no centro para seguirmos a trilha juntas. Seguiria apenas com a Chloe e a Danielle hoje porque a Lannie havia ficado em um refúgio um pouco mais para frente. O Tour du Mont Blanc é realmente repleto de opções para cada pernoite, só é importante avaliar qual dia se quer andar mais ou menos.

Apesar de um vilarejo no “vale”, La Fouly não está tão baixa como os outros pontos que dormimos e pela primeira vez, nossa trilha começa por uma descida no começo do dia. São aproximadamente 600 metros de declive distribuídos por quase 10 km. Pela primeira vez, o Tour du Mont Blanc estava falando em inclinações suaves e podíamos tentar nos recuperar andando pelos vilarejos. A trilha do dia começava entrando para uma florestinha até que fechada e nós ficávamos buscando as montanhas por entre as árvores. Lá embaixo, víamos correr um rio.

Tour du Mont Blanc

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Estava tudo muito tranquilo, até que as montanhas decidiram me dar um pouco de aventura. Em determinado momento na trilha na encosta da montanha ao lado do riozinho, paramos para fazer xixi cada uma um pouco à frente da outra. Tirei minha mochila, apoiei ela no chão… Quando a gravidade resolveu fazer serviço e a mochila começou a rolar ribanceira abaixo. Ainda bem que era um terreno bem fechado com muitas árvores que amorteceram a descida e o Zinho preso à mochila estava lá…

Há uns 15 metros abaixo. Seria fácil se não fosse um terreno absurdamente íngreme, sem trilha, monte de folhagens soltas no chão deixando-o bem fofinho. Não poderia seguir sem mochila e a única solução era buscar a mochila.

Tour du Mont Blanc

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Alguns metros à frente na trilha tinham menos árvores e decidi tentar me aproximar por ali. Desci um tanto que parecesse ser seguro para entrar à direita para chegar na mochila e acabei descendo mais que a altura dela. Com tantas árvores, era difícil enxergar a mochila na maior parte do tempo. As meninas ficavam cada uma em uma posição indicando se mais para cima/baixo ou direita/esquerda e lá fui eu tentando varar aquele “mato fofinho”. Realmente era complicado porque o pé afundava. Se não afundava, escorregava. A maior parte dos galhos ali estavam soltos e não serviam como segurança.

Devagarinho e passo a passo milimetricamente avaliados (fora algumas escorregadinhas), finalmente cheguei até a mochila! Fui continuando meus passinhos devagar para cima até que chegamos todos a salvo de volta na trilha. Tinham diversos galhos e matos presos na mochila. O Zinho realmente não parecia feliz.

Seguimos a trilha e as florestinhas fechadas deram espaço para mini vilarejos. Apesar de não serem vistas repletas de natureza, “apenas as montanhs nevadas suíças circundando, os vilarejos eram realmente especiais de tão pequeninos que eram e a cultura local que pudemos encontrar. Em um destes vilarejos, ganhamos um chocolate quente, enquanto no outro pudemos presenciar um tradicional “churrasco” suíço. Como era um domingo, acreditamos que todos do vilarejo estavam ali reunidos para cantar, dançar, rir, comer. Queríamos ter ficado um pouco mais, mas a trilha sempre chama e havíamos combinado de encontrar a Lannie no final do dia.

Pouco depois deste ultimo vilarejo, Issert (1.055 m), começamos a voltar a entrar em trilhas em florestas. Entravamos na Sentier des Champignons (Trilha dos Cogumelos). A trilha não era só repleta de cogumelos pela natureza, assim como diversas placas explicando um pouco sobre eles. Porém, o mais marcante desta trilha são as esculturas feitas em madeira de cogumelos (obviamente), mas também de esquilos, aves, etc. São muito divertidos! Em diversos pontos do Tour du Mont Blanc, pela proximidade aos vilarejos, cruzamos com pessoas que estão fazendo apenas um passeio curto de algumas horas, mas neste trecho foi um número maior. Como era domingo, encontramos muitas pessoas passeando por ali. Principalmente, famílias com crianças pequenas fazendo pic-nic em alguns dos diversos pontos de pic-nic da trilha. Parecia um grande parque natural.

Nessa parte começou a verdadeira subida do dia. Tudo bem que menos de 500 metros em 6-7 km não era muita coisa para quem já tinha passado pelos outros dias do Tour du Mont Blanc, mas isso ainda exige do físico e próximo de uma casa que nos mostrou uma linda vista, aproveitamos para comer algumas coisinhas já que não chegaríamos em Champex antes da hora do almoço e a subida exigia algumas energias a mais.

Seguindo em frente, foi próximo a área que algumas crianças se divertiam correndo e pulando em alguma brincadeira que deveria ser local, estava uma rocha sensacional com algumas vias de escalada… Como desejei minha sapatilha que havia ficado em Les Houches!!! Eu a Chloe, que também escala, ficamos ali nos divertindo tentando imaginar os moves de cada uma daquelas vias. Quem sabe não consigo fazer alguma escalada por Chamonix no final?

Essa trilha era realmente organizada e repleta de informações e sinalizações e percebemos sua facilidade de alcance para as famílias quando saímos diretamente nas ruas de Champex (1.466 m). A saída ainda não era direto no famoso lago da cidade e nem do nosso refúgio. Tivemos que continuar seguindo placas para chegar lá e a vista do lago foi de tirar o folego. Lago, montanhas, casinhas e o sol que faltou no dia anterior, não deixava por menos ao refletir nas águas. Patos, pedalinhos… Um lugar perfeito para descansar já que havíamos chego lá perto de 14:00.

Tour du Mont Blanc

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Antes de relaxar por ali, partimos para o nosso refúgio o Pension em Plain Air que parecia uma pousadinha com quartos com mais camas. Deixamos nossas coisas e fomos para o lago beliscar e beber algo, além de passear de pedalinho! Lá já encontramos a Lannie e decidimos dividir um vinho entre as garotas. Sempre divido o vinho com o Zinho, mas ele estava descansando depois das fortes aventuras do dia.

Naquele barzinho na beira do lago, vi a oportunidade de provar o segundo prato suíço da lista: batata rosti. Eu sabia que ainda teria o jantar no refúgio, mas eu não poderia deixar passar essa oportunidade ainda mais com alguns dos meus ingredientes favoritos: queijo e ovo. A batata é um pouco diferente da que comemos no Brasil porque os ingredientes não entram como recheio, mas sim como cobertura. A capacidade dos suíços em fazerem maravilhas gratinadas é indescritível.

Tour du Mont Blanc

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Quando terminamos de beber e comer, por estarmos no vale circundados de montanhas, o sol já não batia mais direto e começou a esfriar. Decidimos abortar o pedalinho e voltamos para o refúgio, mas sem deixar de parar no mercadinho antes para repormos algumas das besteirinhas que comemos no meio da trilha. Eram incríveis as opções por ali e a parte de chocolates então…. Eu já estava indo com vários para o caixa quando lembrei que ainda teria que carregar tudo por 4 dias e levei apenas um. Esse foi o primeiro ponto na Suíça que realmente só aceitava francos suíços. Eu estava preparada e já havia levado algumas notas, mas precisei emprestar para as meninas. A maior parte dos lugares destinados ao público do Tour du Mont Blanc aceita euros, porém em uma conversão 1:1 enquanto a moeda suíça vale um pouco menos.

Chegamos no refúgio, tomamos banho cada uma de uma vez em um banheiro privativo. Coletivo porque eram diversos para todos os hóspedes), mas o banheiro era só seu naquele período quentinho e relaxante. Como tínhamos boas janelas e aquecedores no quarto, aproveitamos também para lavar roupas. Qual o santo a gente reza para pedir para que roupas sequem até o dia seguinte?

Eu não estava com fome para jantar, mas já estava pago então aproveitei assim mesmo. Primeiro veio uma saladinha repleta de folhas diversas. Ainda bem que eu estava sem fome, porque eu fresca não gostava de nenhum ali. As meninas adoraram. Depois veio um dos pratos com menos destaque do Tour du Mont Blanc (amei ainda mais ter comido a Rosti), era um penne como o que conhecemos aqui com um molho que parecia ao curry com pedaços de frango. Gostoso, mas não marcou a viagem. De sobremesa, algo que foi ideal para quem já tinha feito duas refeições e comido chocolates do mercadinho: uma salada de frutas.

Logo em seguida fomos dormir porque o dia seguinte era de grandes expectativas… Dia pesado com a variante mais técnica do Tour du Mont Blanc com o ponto mais alto oficialmente dentro do TMB, a variante que eu estava mais ansiosa!

Será que amanhã terá tempo bom para conseguir fazer a variante?


Leia os relatos anteriores Tour du Mont Blanc

  • Chegando no Tour du Mont Blanc: De cirurgia no joelho a Les Houches


7º dia em números (valores aproximados)

Distância total 15 km
Aclive 450 metros
Declive 570 metros
Cols 0
Variantes 0
Duração 5h00 (Paradas extras: Brincar na rocha)
Fronteiras 0

Gastos

Descrição Valor
Coca-Cola € 5,00
Hospedagem (com café da manhã e jantar) € 65,00
Jantar
Café da Manhã
Lanche especial (Rosti) € 15,00
Vinho dividido em quatro € 10,00
Total € 95,00
Total ACUMULADO € 612,00

Tradicional garota da cidade grande (São Paulo – SP) teve seu primeiro contato com trilhas em 2013 no Peru, mas só veio descobrir as belezas da sua vizinha Mantiqueira em 2015.

Apaixonou-se pelas montanhas e passou a se dedicar ao trekking e à escalada por diversos cantos do Brasil além de Peru, Chile, Venezuela, França, Itália e Suíça. Completou os 180 km do Tour du Mont Blanc sozinha após uma cirurgia no joelho.

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