Dia 4 no Tour du Mont Blanc: Rifugio Elizabetta (2.195 m) a Courmayeur (1.224 m)

Depois de uma noite difícil com o coleguinha roncando e muito calor, acordei empolgada para trilhar meu primeiro dia na Itália e seria um dia relativamente curto mesmo com opções de trilhas mais altas. Me arrumei e desci empolgada para ver aquela vista mágica do Refúgio Elisabetta, mas ela não estava lá!

No lugar da vista linda tinham nuvens e nuvens e nuvens. E elas estavam molhadas formando uma indecisão entre garoa e chuva.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

É… Seria pedir demais que no meio de 11 dias de trilha, nenhum deles tivesse o clima ruim. Porém, estava tudo bem! Esse era um dos dias com menores expectativas não haveria nenhum col especial e não havia nenhuma imagem que eu havia visto de uma vista que fosse mais marcante que as já tradicionais dos Alpes. E então após tomar o café da manhã, vesti o kit completo de chuva (calça e jaquetas impermeáveis) e parti junto à Chloe e ao Paul rumo a Courmayeur que está para a Itália como Chamonix está para a França nos Alpes.

A trilha começava com uma descida em zigue-zague para terminar de descer do col do dia anterior até que entrássemos no Vale Veni e então a trilha segue em linha reta passando por lindos lagos. O tempo continuava instável com as montanhas brincando de esconde-esconde com as nuvens e a chuva sem decidir se ficava ou não. Uma das coisas mais lindas sobre os Alpes é que as montanhas são tão próximas umas das outras que, mesmo com muitas nuvens, ainda é possível avistar um pouco do que está ao seu redor.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Como este dia não seria tão pesado, decidimos sair rapidamente do caminho para ver o Lago Miage (2.038 m) . Todos os mapas, guias e até o meu GPS identificavam o lago como uma porção expressiva de azul no meio de todas as montanhas. Não poderíamos deixar de ir até lá e não foi difícil. A partir da bifurcação que decidiríamos sobre a variante, em menos de trinta minutos já estávamos no lago.

Uma das maiores decepções da minha vida montanhística. Enquanto nos mapas, era muito claro identificar dois grandes lagos, unidos por uma passagem de água, que haviam se formado pelo degelo do Glaciar Miage, tudo que víamos agora era uma pequena poça no fundo de um grande buraco que deveria marcar o que um dia já foi um destes grandes lagos. Lá atrás e, visivelmente, menor do que já foi um dia, o glaciar. Uma grande prova de como os climas e a natureza estão sim mudando por ações dos homens. Tentei tirar algumas fotos que demonstrasse a situação do não lago e já voltei para a trilha.

Apesar do céu completamente fechado, já havia algum tempo que não chovia e decidimos arriscar assim mesmo o caminho que vai pelo alto da montanha. Neste dia, as opções eram invertidas, ou seja, o caminho regular era pelo alto e a variante, pelo vale. Começamos a subida pesada do dia que não seria de um desnível tão grande (aproximadamente 500 metros), porém, sempre muito íngreme.

Nesse trecho foi interessante cruzar com algumas marcações da UTMB (Ultra Trail du Mont Blanc), que algumas de suas provas já estavam acontecendo junto com a nossa trilha. Muito legal ver todo o cuidado deles de como fazerem as marcações com fitas em pequenas varetas ou colocas nas árvores. Sempre com muito cuidado com a preservação até de cada folhinha, o que é muito diferente de várias provas que já vi na nossa brasileira Mantiqueira onde semanas depois ainda era possível ver silver tape colado nas pedras, troncos etc.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

O tempo continuava firme com suas nuvens e sem chuva e ganhando um pouco de altitude nós cruzamos com um casebre de um vaqueiro e todas as suas vaquinhas. Dessa vez elas estavam literalmente em nosso caminho e eu tentei fazer amizade com elas, mas nem os bezerrinhos gostaram muito da nossa aproximação.

Muitas pessoas têm medos das vacas pelo caminho, mas vale lembrar que muito animais têm, na verdade, medo dos humanos. Antes de continuarmos a trilha, ainda tivemos a chance de ver dois touros duelando. Vai ficar a dúvida se era uma real disputa ou se apenas estavam brincando de lutinha.

Voltou a chover, mas agora não tinha mais jeito e seguiríamos o dia pelo caminho mais alto. Continuamos subindo até que um pouco para a direita da trilha avistamos uma parte que ainda tinha gelo do inverno e fomos lá brincar e tirar algumas fotos.

Para uma pessoa que nunca viu realmente nevar e tinha cruzado com pequenos trechos congelados na patagônia, alguns metros quadrados já pareciam um grande parque de diversões. Continuamos a subida até que alcançamos o Arete Mont Favre (2.435 m), ponto mais alto desse dia e acho que se o dia estivesse bonito, teria uma vista fenomenal de montanhas e o vale. Foi então que começou a descida e eu entendi porque todos indicam que em dias feios você deve preferir a opção de trilha que segue direto pelo vale. A descida era bastante íngreme e, com a chuva, se tornou bastante escorregadia. Isso ficou ainda mais perigoso considerando que um dos lados da trilha era um grande penhasco. Cheguei a escorregar duas vezes e ainda bem que, com a ajuda dos bastões, consegui me manter longe do penhasco. A roupa por outro lado, tinha lama nos pés, pernas, bunda, costas, braços, enfim! Quase toda a parte de trás do meu corpo tinha lama.

Continuando o caminho, a trilha ficou um pouco menos íngreme antes de chegarmos ao refúgio Maison Vieille (1.956 m) onde, no inverno, é possível chegar direto da cidade de teleférico. Parece que aqui seria uma vista muito bonita. Talvez até pudesse avistar o Mont Blanc, mas não nesse dia repleto de nuvens e chuva. Era próximo do horário do almoço e entramos dentro do lindo refúgio para tentar nos aquecer um pouco. Os aromas dos diversos pratos ali servidos eram sensacionais, porém a previsão era que em mais ou menos duas horas já estivéssemos em Courmayeur e então decidimos comer algo rápido e partir.

Dali a pouco, já foi fácil avistar a cidade, porém, uma das piores descidas ainda estaria para chegar. O trecho final é extremamente íngreme e conta até com partes de escadas. Todo cuidado era pouco para quem já tinha capotado na lama no dia. Ainda bem que já havia parado de chover e esta parte não estava escorregadia. Em uma dessas escadas cruzei com o querido trio de franceses que eu não havia cruzado o dia inteiro. Foi legal ter a nossa conversa-mimica mesmo que rapidamente porque hoje não dormiríamos no mesmo lugar.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Cheguei na cidade e antes de começar a tentar achar o meu hotel, busquei por outra coisa mais importante: um gelatto. Quase dez anos antes, eu havia feito minha primeira viagem de avião direto para um mochilão na Europa e uma das recordações mais felizes eram os gelattos. Ao pisar de novo na Itália, era uma das coisas que eu mais estava ansiosa por e não tem deles no meio da montanha. Segui rumo ao centro e la estava ela, uma gelatteria! Fui atravessando a rua quando o Vlad aparece em frente a gelatteria.

Eu não tinha notícias dele desde o final da tarde anterior quando eu segui para o refúgio Elisabetta e ele iria em busca de um lugar que fosse permitido acampar. Ele ficou sem entender um pouco porque eu parecia ter 5 anos com um “sorvete”, mas ajudou com as fotos com o gelatto e um vestígio de montanha que ainda aparecia por entre as nuvens. Esta seria a última vez que nos veríamos no Tour du Mont Blanc, mas sempre trocamos figurinhas sobre escaladas em rocha. Esse menino vai longe.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Nesse tempo reencontrei com a Chloe e o Paul que eu havia deixado um pouco para trás na descida. Isso sempre acontece nas minhas companhias de trilha…. Eu fico para trás na subida e desço extremamente rápido. Eles me acompanharam até o meu hotel e combinamos de jantar mais tarde pelo centro. Essa noite seria realmente diferente porque eu não estava em um refúgio. No centro de Courmayeur, não tinham refúgios e os mais próximos eram em torno de 2h antes ou 2h depois do centro.

Achei melhor não deixar nenhum dia muito curto ou muito longo e assumi que dormiria no centro mesmo. Em muitos guias, indicam fazer o que eles chamam de “dia zero” em Courmayeur, que seria um dia de descanso no meio do caminho. Como eu cheguei na cidade ainda cedo, pouco depois das 14h, uma tarde de descanso já seria suficiente.

No meio de tanto planejamento, este hotel não havia sido escolhido a dedo, ele foi escolhido por ser o menos caro. Mesmo com mais de quatro meses de antecedência, na data que eu precisava dormir na cidade, os hotéis estavam muito lotados e eu acabei escolhendo o com “menor” valor na época. Isso aconteceu por uma falha de planejamento meu: eu não havia pesquisado se haveria algum grande evento acontecendo no mesmo período que eu estaria naquelas montanhas/cidades. Entre as diferentes provas do UTMB, havia a CCC que seria uma espécie de meia-ultra que tinha sua largada exatamente em Courmayeur e exatamente no mesmo momento que eu também deixaria a cidade. Por isso os hotéis estavam tão cheios!

Como eu tirei uma tarde de descanso, ter as mordomias de hotel não seria algo ruim e ao chegar no Romantic Hotel Villa Novecento, eu tive uma grata surpresa! Com pena da minha situação de lama dos pés à cabeça, eles me deram um upgrade de quarto para um com um pouco mais de tamanho e uma linda vista das montanhas.

Como a jacuzzi só estaria liberada a partir das 17:00, aproveitei o banho e lavei todas as minhas roupas. Não foi um trabalho fácil considerando a lama naquelas peças impermeáveis. Coloquei o meu biquíni, o roupão, e desci para a Jacuzzi. Dica importante: não importa para onde você esteja viajando ou qual o clima do ano, leve sempre uma roupa de banho!

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Foi o pacote perfeito para uma tarde de descanso. A jacuzzi ficava em uma área zen do hotel com luz mais baixa, velas, aromas, frutinhas… É! Entendi porque ele tinha o “Romantic” no nome e decidi voltar ali quando fosse velhinha com meu marido. Quebrei um pouco o ar romântico do lugar ao usar a sauna seca para secar as minhas roupas agora cheirosinhas e parti para a água quentinha. Como eu não havia almoçado direito no dia, aproveitei para comer a última fatia de queijo da super fazenda do dia anterior. Relaxei lá até meus dedos ficarem enrugados e chegar perto da hora de jantar.

Chloe e Paul passaram no meu hotel na hora marcada e, primeiro, fizemos um passeio pelo centro. Era realmente uma cidade turística e cara, muito cara. Era o máximo ver lojas das marcas de montanha que eu só ouço falar, mas por outro lado, deveria ser o lugar onde elas estavam mais caras. Ali lembrava um pouco Campos do Jordão-SP e talvez tenha sido uma de suas inspirações, mas o original realmente merece um olhar especial. Como aquelas casinhas tinham todas tantas florzinhas nas suas janelas?

Seguimos para uma pizzaria e eu matei as saudades dos meus treinos com uma pizza do sabor do meu tradicional lanchinho pré-janta-de-montanha: queijos e parma. Estava realmente saborosa, mas mesmo a individual era imensa e eu não consegui terminar sozinha. O Paul acabou pedaços meus e da Chloe e mesmo assim sobrou um pouco.

Voltei para o quarto mais aconchegante que eu já havia ficado e aproveitei para ter uma longa e gostosa noite de sono. Cama confortável e gigante, cobertor gostoso (nada do liner que como saco de dormir impede de se esparramar aberta pela cama), escurinho, nenhuma pessoa entrando no quarto e nenhum chato roncando… Eu realmente precisava de uma boa noite de sono para o que me esperaria no dia seguinte. Mal sabia eu que seria ainda pior.


Leia os relatos anteriores

  • Chegando no Tour du Mont Blanc: De cirurgia no joelho a Les Houches


4º dia em números (valores aproximados)

Distância total 18 km
Aclive 540 metros
Declive 1.400 metros
Cols 0
Variantes 1
Duração 6:00 (Parada extra: brincar no gelo)
Fronteiras 1
Extra Lac du Miage

Gastos

Descrição Valor
Gelatto € 3,00
Acomodação € 80,00
Jantar € 10,00
Café da Manhã € 20,00
Gasto extra no Almoço
Vinho + queijo
Total € 113,00
Total ACUMULADO € 319,00

Tradicional garota da cidade grande (São Paulo – SP) teve seu primeiro contato com trilhas em 2013 no Peru, mas só veio descobrir as belezas da sua vizinha Mantiqueira em 2015.

Apaixonou-se pelas montanhas e passou a se dedicar ao trekking e à escalada por diversos cantos do Brasil além de Peru, Chile, Venezuela, França, Itália e Suíça. Completou os 180 km do Tour du Mont Blanc sozinha após uma cirurgia no joelho.

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