Dia 2 no Tour du Mont Blanc: De Les Contamines (1.167 m) a Ref. Croix du Bonhomme (2.443 m)

Todos os roteiros tradicionais indicam que o local de pernoite do segundo dia é o vilarejo de Les Chapieux ou fazer a variante e seguir para dormir em um refúgio no meio das montanhas chamado Mottets, porém a minha estratégia foi fazer diferente. Além do plano de tentar fazer o máximo de variantes, eu também queria dormir o máximo possível em refúgios que ficassem nas montanhas e então escolhi que este dia seria mais curto e eu dormiria no refúgio Croix du Bonhomme que fica na montanha logo antes da bifurcação para a variante. Mal sabia eu, tantos meses antes, que essa decisão seria tão certeira.

Sabendo do meu dia mais curto (já havia feito 2 km a mais no dia anterior e pararia antes da bifurcação), não me preocupei em sair muito cedo. Tomei o meu café da manhã com calma. Café este que seria bem parecido com os que encontraria nos próximos dias com leite, café, chá, pães, manteiga, geleia, nutella e alguma fruta. Peguei meu piquenique e às 9:00 eu começava a caminhar empolgada com o tempo que havia se firmado desde o final da tarde e estava o clima que mais amo nas montanhas: sol, algumas nuvens e ventinho gelado.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Para terminar de sair de Les Contamines, segue-se pela margem do rio Bon-Nant e vale a parada na capela Notre-Dame de la Gorge para pedir forças, a parte fácil e ainda sem grandes desníveis do dia termina ali. A trilha propriamente dita do dia começa com o clássico formato para sair do vale que são as trilhas que lembram estradinhas por entre árvores e subida! Não dá para sair do vale sem uma subida né?

Essa é uma subida muito legal porque apesar de ser entre árvores, ainda é possível ver por entre elas as montanhas lindas e algumas quedas d’água aparecem para surpreender o dia. Foi aí que comecei a perceber que conforme os minutos passavam, o ventinho gelado e as nuvens no céu estavam desaparecendo. Já estava ficando quente e eu já estava com vontade de me refrescar.

A estradinha em subida deu um alívio e ficou menos inclinada quando saímos das árvores e me deparei com uma vista maravilhosa da Aiguilles de la Penaz. Eu estava frente a frente com exatamente uma das fotos que havia no guia que eu carregava e havia passado meses me perguntando se seria tão lindo quanto naquelas fotos, mas que engano! Era ainda mais lindo ao vivo. Conforme eu continuava minha jornada, a temperatura só aumentava.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Duas horas depois de começar a andar, cheguei ao Refugio de La Balme (1.706 m) e aproveitei para tirar fotos, comer alguma coisinha e aproveitar toda a água gelada que as bicas deles forneciam. Molhei cabeça, nuca, pescoço, braços… Enfim! Já estava MUITO quente e aquele dia seria só de subidas e eu nunca vou bem nas subidas. Dali em diante a trilha fica ainda mais legal porque é trilha mesmo (não mais estradinha) sendo um por vez passando pelo caminho, diferentes tipos de pedras e cada vez mais se aproximando do Pennaz e seu cume rochoso. A vista era mágica.

Esta foi a primeira parte que eu realmente não estive sozinha e até sobrava companhia. Como não há variantes no dia, as pessoas se cruzam mais e fazem aproximadamente os mesmos horários. Foi quando perceberam a presença do Zinho atracado à minha mochila, além do imobilizador do Abacatinho que qualquer um que cruzasse já reparava. Foi então que eu me tornei a brasileira-com-problema-no-joelho-que-leva-um-ursinho-sozinha, depois disso vira e mexe cruzava com alguém novo e eu ouvia “a brasileira com ursinho” ou “a brasileira com problema no joelho”. Ao menos eu me sentia segura, né? Se algo me acontecesse sentiriam falta.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Comecei a andar com uma dupla de australianas que fiquei feliz de poder ajuda-las porque uma delas estava com cólicas e eu tinha remédio suficiente no meu kit de primeiros socorros para poder compartilhar. Elas seguiram comigo até onde meu corpo deu o primeiro pedido de socorro de calor com a trilha ficando cada vez mais íngreme. Acho que conhecer meu próprio corpo me ajudou muito a manter os ritmos nas trilhas e eu sabia que além de subida, temperaturas altas prejudicam meu rendimento.

Deixei as meninas seguirem à frente e parei para almoçar e tentar me refrescar com a água que eu tinha. O termômetro do GPS já marcava 32°C e eu estava sofrendo muito, quem sabe bem alimentada eu conseguiria melhorar um pouco o meu ritmo. Depois das cachoeiras no começo do dia e das bicas no refúgio, não havia mais nenhum ponto de água para se refrescar e então eu agradeci a mim mesma pela estratégia de levar sempre água a mais do que eu precisaria. O objetivo era ter sempre água e mantimentos para algumas horas extras caso eu tivesse algum acidente e precisasse esperar horas pelo resgate. Nesse momento, a água serviu como tentativa de melhorar a temperatura do meu corpo.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Essa estratégia funcionava momentaneamente porque o calor, que chegou a 38°C sem nenhuma brisa, estava realmente castigando. Foi um dos dias de trilhas mais difíceis que eu já havia enfrentado. A trilha cada vez mais íngreme, pedras soltas…. Chegar no primeiro Col do dia, o Bonhomme a 2.329 m, trouxe um grande sentimento de realização, sem contar a sensação dos ventos que ali sopravam e chegavam ao meu rosto.

Agradeci às montanhas por aliviar as temperaturas e tive a certeza de que chegaria bem ao destino final do dia. Enquanto eu recuperava um pouco das minhas energias, apareceu uma mulher com seu lindo cachorro de pelos dourados que chegou àquele Col ainda saltitante. Ele, com certeza, estava mais bem preparado que eu, mas nos nossos olhares, a felicidade tinha um mesmo formato.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Ainda faltava mais uma subida para chegar onde seriam o refúgio e bifurcação para a variante do dia seguinte e fiquei feliz por este ter sido um dia que eu tinha decidido encurtar porque, com o que meu corpo havia sofrido com o calor, seria pesado seguir até uma das outras opções de pernoite. Dali em diante, o caminho seguia ainda mais interessante com a trilha subindo e circundando uma montanha de pedras onde, mesmo sem novas placas, não haviam dificuldades na navegação e em pouco mais de uma hora, eu cheguei no Col de la Croix (2.483 m) onde eu vi por onde seria a variante do dia seguinte e o refúgio do dia 50 metros abaixo. Uma certa frustração de que no col com nome de cruz, não haver uma cruz representando ele, mas a vista não deixava meu coração sentir qualquer tristeza.

O refúgio Croix du Bonhomme havia sido escolhido a dedo nas minhas pesquisas. De todas as fotos que eu havia visto, esta casinha com as montanhas que estavam ao seu redor era um dos cenários que eu mais esperava chegar e todas as minhas expectativas foram superadas. Acho que eu nunca havia dormido em uma montanha com cenário tão lindo. Dali era possível vislumbrar diversos outros cumes muito próximos e até algumas das trilhas para chegar até eles.

Ainda eram 16:30 quando peguei uma taça de vinho, um pedaço de torta de maçã e sentei com o Zinho na varanda para apreciar as diferentes cores que o sol dava a cada uma dessas montanhas. Foi realmente um grande presente depois de um dia tão exaustivo, que ainda foi embalado pelas notas dedilhadas no violão pela Naty, uma croata que tentava realizar algumas trilhas na companhia de seu cãozinho e criava a trilha sonora com o instrumento que havia encontrado por ali no refúgio. Com o clima mais fresquinho, cheguei a considerar subir um dos cumes que estava ali próximo, mas achei melhor ficar apenas descansando na grama para não pegar muita fila no banho.

O refúgio é administrado pelo FFCAM (Clube Alpino Francês) e foi um dos quais eu tive que reservar por e-mail, além de uma semana antes ter que ligar para confirmar e o clima de montanha estava presente em cada pessoa ali. Os quartos eram de diversos tamanhos com beliches. No meu, por exemplo, eram apenas 2 beliches e 4 pessoas. O único problema ali era que haviam apenas 3 chuveiros para todas as mulheres do refúgio inteiro e a água quente não ficava disponível o dia inteiro – ela seria liberada as 18hs. Com isso, quando chegou perto do horário, já começava a formar uma fila na porta do banheiro.

Terminei meu lanchinho da tarde, entrei na fila, tomei um banho super gostoso sem ter que me preocupar em segurar a torneira e fui lá fora esperar o horário do jantar. O chuveiro era bastante parecido aos que estamos acostumados aqui no Brasil e, para liberar mais rápido, as mulheres se trocavam em outras duas áreas que haviam no banheiro parecidas com boxes.

Aproveitei que ainda estava claro e em um dia fresco com ventos que, finalmente, apareceram para lavar as minhas roupas. Foram dois dias de trilhas com a mesma muda de roupas que finalmente foram lavadas em um tanque específico que eles disponibilizam. Espero que sequem até amanhã.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

De forma geral, as noites são passadas nos vales e, com isso, fica difícil ter nascer e pôr do sol bonitos, mas nesta noite foi diferente. Como o refúgio fica em um dos pontos mais altos do Tour du Mont Blanc (o ponto mais alto é em uma das variantes a 2.665 m), foi possível assistir um pôr do sol muito mágico e especial entre as montanhas. Depois de um dia tão quente, a brisa da altitude e o sol começar a se despedir fizeram a temperatura cair e então pude apreciar aquele espetáculo da natureza no meu clima favorito, o friozinho. É muito difícil descrever o que o sol, as montanhas e as suas cores desenhavam à minha vista. Cada silhueta de montanha tomava cores entre laranja, vermelho, roxo e azulado. Azulado? Sim! A Noite que chegava viria ainda mais especial com uma lua sorrindo e, com isso, seria azul e não preta.

Chegara a hora do jantar e eu fui para dentro do refúgio, cruzei com meus três franceses favoritos tentando apertar a todos da mesa deles para que eu pudesse ficar lá, mas já havia uma mesa indicada com meu nome. Dessa vez eu jantaria com um grupo de 5 israelenses (começo a acreditar que 1/3 das pessoas que fazem o Tour du Mont Blanc são desse país) e eu, que nunca havia conhecido ninguém de lá, aproveito para aprender um pouco sobre a cultura e costumes. Além deles, depois se juntou a nós, um francês que fazia poesias sobre as montanhas. Pena que eu não falava francês e não queria ficar abusando dele para traduzir. Eram tão lindas!

Na companhia desse grupo singular, chegou uma deliciosa sopa… Acho que era de legumes. Não perguntei, só sei que era uma delícia e nós ficamos repetindo até que acabasse a travessa e esquecendo que ainda haveria o prato principal. Quando este chegou, percebi o quanto eu estava perto da fronteira entre dois países. Polenta! Polenta não era italiana? Amanhã vamos dormir na Itália, deve ser isso. Veio uma travessa gigantesca de polenta cremosa acompanhada de uma outra travessa com carne cozinha que estava até desmanchando de tão macia.

Foi fácil encontrar espaço para comer bastante desse prato franco-italiano, só que eu não sabia que esse jantar teria, na verdade quatro pratos. Antes da sobremesa, eu iria descobrir o que alguns chamam de “pre-sobremesa”, que é quando trazem um prato de queijos. Degustamos 3 tipos de queijos produzidos ali na região e eu comecei a me preocupar onde eu iria colocar a sobremesa dentro de mim. Pela primeira vez, eu agradeci que uma sobremesa não fosse super deliciosa. Era um bolo de chocolate caseiro como aqueles de café da tarde na casa da vovó, era gostoso mas não me deu vontade de repetir. Não sei se caberia.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Peguei o meu casaco e fui rolando de tanto comer lá para fora curtir um pouco mais das estrelas e a super lua que iluminava a silhueta das montanhas.

Por mais que eu quisesse ficar horas ali batendo papo com a via láctea, o dia seguinte seria bastante pesado com mais uma variante e precisei ir para minha cama. Não foi fácil conseguir dormir com a ansiedade do dia que cruzaria uma fronteira de países pelo meio das montanhas.


Leia os relatos anteriores

  • Chegando no Tour du Mont Blanc: De cirurgia no joelho a Les Houches


2º dia em números (valores aproximados)

Distância total 13 km
Aclive 1.500 metros
Declive 50 metros
Cols Col du Bonhome e Col de La Croix du Bonhome
Variantes 1
Duração 8 horas (Paradas: infinitas pelo calor de até 38°C)

Gastos

Descrição Valor
Piquenique € 10,00
Acomodação € 23,00
Jantar € 17,00
Café da Manhã € 10,00
Gasto extra no Almoço € 0,00
Vinho + pedaço de torta € 10,00
Total € 70,00
Total ACUMULADO € 130,00

Tradicional garota da cidade grande (São Paulo – SP) teve seu primeiro contato com trilhas em 2013 no Peru, mas só veio descobrir as belezas da sua vizinha Mantiqueira em 2015.

Apaixonou-se pelas montanhas e passou a se dedicar ao trekking e à escalada por diversos cantos do Brasil além de Peru, Chile, Venezuela, França, Itália e Suíça. Completou os 180 km do Tour du Mont Blanc sozinha após uma cirurgia no joelho.

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