Temos trabalho a fazer: vencendo o medo na escalada

Saruman, no livro e filme do Senhor dos Anéis, é um vilão. Sauron, um vilão ainda maior, quer que Saruman “construa um exército que seja digno de Mordor.” Os Orcs vão para Saruman querendo saber o que Sauron havia comandado. Depois, Saruman diz algo que eu achei bastante significativo.

Ele diz, “Temos trabalho a fazer”, significando que eles estão comandados a construir um exército e que há uma urgência em se comprometer com o trabalho de construí-lo.

Nós tendemos a ter uma percepção negativa do trabalho. Não é algo que queremos fazer, e sim algo que temos que fazer. A fala de Saruman é significativa para mim porque ela enfatiza a importância do trabalho e o fato de que nós precisamos trabalhar.

Karl Marx foi o primeiro a entender que, sendo humano, além de precisarmos de comida, abrigo e sexo, também precisamos de trabalho significativo.

Foto: www.dpmclimbing.com

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Precisamos de comida, abrigo e sexo para sobreviver, mas também precisamos do trabalho para crescer. Como então nós abordamos o trabalho como uma oportunidade de crescimento em vez de apenas algo que temos que fazer?

Nós somos movidos por encontrar significado. Nós podemos escolher encontrar um significado tanto extrinsecamente como intrinsecamente.

A mente é habilidosa em se motivar extrinsecamente; resultados externos tais como ganhar muito dinheiro, escalar um grau específico, e ter um emprego importante que nos dê um status na sociedade.

A mente usa estes resultados finais para criar significado. Nós sentimos que temos uma vida significante porque nós realizamos estes resultados finais.

O coração é habilidoso em se motivar intrinsecamente, processos internos que nos ajudam a aprender, tais como nos dedicar a atividades, construir relacionamentos e aprendendo.

O coração usa estes processos para criar significado. Nós sentimos que temos uma vida significativa porque vivenciamos atividades, construimos relacionamentos e aprendemos.

Foto: Andy Mann

Foto: Andy Mann

Se nós tomarmos o caminho extrínseco nós ganhamos significado temporariamente, mas depois o perdemos quando os resultados finais mudarem. Nós podemos perder todo nosso dinheiro; o grau de dificuldade que conseguimos começa a cair conforme vamos ficando velhos; nosso status na sociedade muda quando nosso emprego muda. Se nós escolhermos o caminho intrínseco nós obtemos significado que não podemos perder.

Nós retemos o que aprendemos das atividades que vivenciamos e das relações que construímos.

Precisamos utilizar a mente e o coração para encontrar significado. A mente pode estabelecer metas extrínsecas e em seguida o coração pode estimular o processo intrínseco – aproveitar o processo- conforme vamos atingindo as metas. É preciso haver uma hierarquia de importância entre a mente e o coração para encontrar trabalho significativo: o coração é mais importante que a mente.

A motivação é uma parte importante neste processo. Somos motivados por obter algo, como uma recompensa. Nós queremos algo que faça valer a pena o trabalho que fazemos.

Foto: www.bulletproofmusician.com

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Há uma diferença entre “ o que for recompensado é feito” e “o que é recompensador é feito”. “o que for recompensado” é a tática da mente, que é focada em obter uma recompensa de resultados finais extrínsecos. “o que é recompensador” é a estratégia do coração, que é focada em obter uma recompensa de processos intrínsecos.

Se temos trabalho a fazer, como disse Saruman, então precisamos fazer um trabalho que seja primariamente intrinsecamente recompensador. O trabalho é estressante.

Se nós seguimos a motivação extrínseca da mente nós não iríamos trabalhar. Nós iríamos simplesmente achar formas de ganhar dinheiro fácil para podermos ter conforto. Para motivar a motivação intrínseca devemos querer estar no estresse que vem com o trabalho.

Devemos entender que é através do trabalho que nós crescemos e encontramos significado.

O coração é a única parte de nós que pode sustentar nosso relacionamento e nos levar além do estresse do trabalho. Não podemos criar motivação intrínseca. Ela deve se originar organicamente; ela não pode ser forçada; ela deve seguir o coração.

Então como fazemos esse deslocamento da mente para o coração, extrínseco para intrínseco?

O escritor e professor alemão Rilke nos da uma pista ao responder uma pergunta de um aluno. O aluno estava confuso e se perguntava se ele deveria se tornar um escritor. “Só escreva se você tiver que escrever”.

O trabalho que fazemos deve ser algo que temos que fazer, porque é algo que precisa de expressão através de nós. Este tipo de trabalho faz com que cresçamos como seres humanos porque é significativo.

Não podemos sair do processo pelo pensamento; cada um de nós precisa escutar nosso coração.

Dica Prática: Escute e sinta

Prestar atenção para como o seu coração te direciona por te dar uma compreensão de seu trabalho. O que você faz sem ser recompensado?

Há livros que você lê, atividades que você faz e assuntos que você conversa sobre sem alguém te forçar ou recompensar.

Estas são pistas para seu trabalho intrínseco.

Não transforme isto em um processo de coleta de dados. Se você pode explicar logicamente o trabalho que você deve fazer, então ele não está vindo do coração.

Você não consegue explicar o porquê o seu coração te direciona como ele faz.

Você precisa apenas escutar e sentir.

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Tradução do original em inglês: Gabriel Veloso

Arno Ilgner distinguiu-se como um escalador pioneiro nos anos 1970 e 80, quando as principais ascenções foram as primeiras fortes e perigosas. Essas façanhas pessoais são a base para Ilgner desenvolver o programa de treinamento físico e mental – Rock Warrior Way ®. Em 1995, após uma pesquisa aprofundada da literatura e prática de treinamento mental e as grandes tradições guerreiras, Ilgner formalizado seus métodos, fundou o Instituto Desiderata, e começou a ensinar seu programa de tempo integral. Desde então, ele tem ajudado centenas de estudantes aguçar a sua consciência, o foco de atenção, e entender seus desafios de atletismo (e de vida) dentro de uma filosofia coerente, baseada em aprendizado de tomada de risco inteligente. Ilgner considera a alegria e satisfação no esforço – a “viagem” – intimamente ligada à realização bem sucedida das metas.

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