Técnicas de rastreamento em operações de busca e salvamento

Um dos grandes desafios em Operações de Busca e Salvamento Terrestre (Search and Rescue Operations – SAR Ops), é localizar a vítima na vastidão das áreas de mata, floresta ou montanha.

Situação que é agravada na hipótese de a pessoa perdida continuar a se deslocar, na tentativa de realizar um auto-resgate, de maneira a que possa, por seus próprios meios, encontrar uma saída para algum local que lhe permita retornar à civilização.

Algumas técnicas podem servir de importantes ferramentas para se alcançar este objetivo, de localizar a vítima.

Nesta coluna, serão analisadas três destas técnicas que podem ser empregadas nestes tipos de missões de resgate.

1 – RASTREAMENTO HUMANO (tracking)

O rastreamento humano aqui considerado, é aquele no qual uma pessoa (integrante da equipe de resgate), busca evidências (sinais e rastros) da passagem de outra pessoa (a vítima), que tenham sido deixados pela pessoa perdida ao se locomover.

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RASTREAR, portanto, neste contexto, significa seguir sinais ou rastros deixados por alguém ou alguma coisa (no caso, pela pessoa que está perdida). E é utilizado para detectar a direção de movimento (direção do caminho) que está sendo percorrido. Envolve não apenas a detecção, mas também a interpretação destas evidências.

A arte do rastreamento tem suas origens nos primórdios da humanidade. Período em que os integrantes dos grupos da antiguidade tiveram necessidade de obter alimentos, por meio da caça. Especialmente porque a agricultura ainda não estava desenvolvida.

Como os animais selvagens raramente permanecem em locais onde se deparam com a presença humana, foi necessário aprender como localizar estas presas.

Estas técnicas alcançaram tanta importância, que também começaram a ser utilizadas em cenários de guerras, com a finalidade de rastrear, localizar, e eliminar inimigos.

E mesmo agora, no século XXI, estas técnicas continuam a ser importantes, e também estão sendo utilizadas em outros setores. Como na proteção de fronteiras (evitando o ingresso ilegal de pessoas no país), observação de animais em ambientes naturais, e para equipes de busca e salvamento de pessoas perdidas em áreas remotas.

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2 – RASTREAMENTO CANINO

O rastreamento canino (cinotécnico) envolve o emprego de cães treinados para localizar o paradeiro da vítima.

Na busca com cães, o guia do cão deve estar atento ao comportamento do cão (para identificar se o cão está apresentando alguma resposta de ter encontrado algum vestígio/odor). Ou seja, quem rastreia é o cão, e o condutor (handler) deve interpretar o comportamento do cão.

Esta interação entre o condutor e o cão, é absolutamente fundamental para o êxito do rastreamento canino. É o conhecido binômio cão-condutor.

Este rastreamento canino pode ser executado de três formas diferentes (desde que os cães estejam treinados para cada uma delas):

VENTEIO (cone do odor) : esta técnica implica em que o cão esteja capacitado a detectar vapores/odores/células liberados pelo corpo de uma pessoa (não necessariamente da vítima). Fazendo uma analogia, é algo semelhante como as ondas/marolas feitas na água pela passagem de uma embarcação. Os vestígios, no caso, seriam as “ondas/marolas.”

O cão trabalha solto da guia, e inicia a busca fazendo a varredura de uma área ampla e, ao detectar algum vapor/odor/célula, vai estreitando/afunilando a amplitude do setor de busca, até localizar o ponto de emissão destas partículas. Daí vem a denominação cone do odor, como ilustrado pela figura abaixo.

A raça labrador é bastante utilizada para este tipo de busca.

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RASTREIO : neste caso, o cão busca especificamente os vapores/odores/células liberados pelo corpo de uma pessoa específica (vítima). Coloca-se algum pertence da pessoa em um saco, e depois se insere o focinho do cão no saco. Para que o cão possa ser direcionado para a busca daquelas partículas específicas.

O cão, nesta modalidade, trabalha preso a uma guia, que é conduzida pelo condutor.

Estes cães são mais raros de serem encontrados devidamente adestrados. A raça bloodhound é reconhecida como uma das melhores para esta finalidade.

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RASTREIO VISUAL : é utilizado em operações policiais/militares, na última fase de engajamento, para neutralização do foragido. O rastreador humano, durante o rastreamento, direciona o cão para o local onde a pessoa perseguida está.

Ou seja, na verdade, neste cenário, é o integrante da equipe de rastreamento (o rastreador) que se encarrega de fazer o rastreamento. E, quando verifica que o contato com a pessoa perseguida está próximo, sinaliza para o condutor do cão. Que, então, quando o alvo da perseguição já pode ser visualmente localizado, posiciona o cão e o direciona para o engajamento contra o perseguido.

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RASTREAMENTO ELETRÔNICO : o rastreamento eletrônico, como o próprio nome indica, é feito por meio de mecanismos que se baseiam em sinais eletrônicos, no mais das vezes por meio de sinais de GPS (Global Positioning System).rastreamento6

Um destes sistemas é o denominado APRS (Automatic Position Reporting System), bastante utilizado por radioamadores, que combinam as frequências de rádio com o sistema de GPS.

O Grupo de Resgate em Montanha de Joinville (GRM), conta com três destes aparelhos de APRS. Os membros do GRM da equipe de COMUNICAÇÃO, adquiriram estes aparelhos para serem usados em missões de busca e salvamento. Estes equipamentos são levados pelas equipes de buscas, que são monitoradas (visualizando a posição no monitor de um computador) em tempo real pelo Comando de Operações.

Ao que se sabe (salvo engano), o GRM é, atualmente, o único grupo de resgate em montanha que vem utilizado esse tipo de equipamento.

rastreamento7Outros mecanismos semelhantes também estão disponíveis no mercado para uso em geral dos interessados, como o famoso SPOT. Um artefato simples, leve e eficiente de emitir um chamado de socorro, ao mesmo tempo em que a posição geográfica do sinal também é emitida.

Apesar de para os brasileiros o SPOT não ser tão barato (dificilmente vai ser encontrado por menos de R$ 500,00), é uma boa alternativa para quem se aventura em áreas remotas, e quer se sentir mais seguro.

Claro que o SPOT apenas enviará uma mensagem para um endereço designado, com a respectiva posição geográfica indicando a localização da pessoa. A realização do resgate, entretanto, pode ainda ser bastante demorada e dificultosa.

CONCLUSÃO

Estas são apenas algumas das técnicas que podem ser utilizadas em operações de busca e salvamento, com o objetivo de se localizar a pessoa perdida. Nunca esquecendo que, a localização da vítima é apenas uma etapa da missão, pois a vítima ainda precisará receber atenção médica, ser evacuada do local, e levada para uma área segura. Só então o resgate estará encerrado.

É inevitável, sem dúvida, que acidentes aconteçam em áreas remotas, da mesma forma que acontecem em áreas urbanas. A grande diferença é a dificuldade de realização de resgates em regiões naturais, de floresta ou montanha.

Por isso a importância de serem tomadas precauções para evitar que estes acidentes aconteçam. Preparando-se adequadamente para as incursões nestes ambientes naturais, equipando-se corretamente, indo com outras pessoas ou guias que conheçam o local e os riscos, verificando qual é a previsão do tempo, e fazendo a avaliação momento após momento dos riscos que vão se apresentando.

Confira os livros:

Manual de Rastreamento Humano em Operações de Busca e Salvamento Terrestre

A influência do comportamento da vítima nas operações de busca e salvamento

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Sobre o Autor

Sergio Netto

Sergio Netto

Sérgio de Oliveira Netto é Diretor Operacional do Grupo de Resgate em Montanha (GRM) em Joinville – SC

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