Por que a técnica deve ser privilegiada em relação à força na escalada?

Responda rápido: qual é melhor um escalador treinar: técnica ou força? Apesar de muitos responderem que é a técnica, grande parte dos atletas privilegiam o ganho de força. Não que seja errado, mas muitas vezes em algum projeto, ou mesmo campeonato, é a técnica que faz a diferença. Muito do estilo implementado pelos route setters em campeonatos internacionais, privilegiam a solução de linhas acrobáticas utilizando o equilíbrio e o trabalho de pés.

Para aprender novas técnicas corporais, todo atleta passa por três fases de aprendizagem antes de ser capaz de utilizar qualquer técnica nova de forma eficiente e intuitiva. Exatamente por isso que muitos atletas, junto a treinadores não atualizados, acabam focando muito mais a preparação de seus atletas na parte física. Apesar da força ser um fator decisivo em muitas situações, a técnica é que fará com que qualquer escalador economizar energia e recuperar a lucidez em uma situação adversa. Atualmente, os principais técnicos de atletas de competições e de escaladores de alto rendimento, enxergam a escalada como um xadrez mental, ou até mesmo a filosofia de cubo mágico (também conhecido como Cubo de Rubik).

Por ser a aquisição de novas técnicas corporais um processo lento, confuso e muitas vezes frustrante, exige disciplina e determinação de ambos os lados (treinador e atleta) para gastar ao menos vários dias em torno de polimento de técnicas corporais. Infelizmente, o processo de treinamento de técnicas não tem como ser encurtado, muito menos evitado. O resultado negativo desta negligência é uma espécie de bloqueio que parece enfrentar os escaladores em momento chave. Algo “sobrenatural” parece o puxar para baixo. Este “sobrenatural” é a falta de técnica.

Todos já testemunharam um escalador muito forte, geralmente o herói local de qualquer localidade, quando visita um outro lugar que exige um outro estilo, parece que “enterraram uma criptonita” na via. Um exemplo: escalador especializado em negativos em vias de aderência e vice-versa. Importante lembrar que possuir limitações técnicas não é vergonha para ninguém. A escalada, como qualquer esporte, é uma caminhada por vários anos de aprendizado contínuo e uma busca infinita pela excelência.

tecnica em escalada

Exemplo de drop-knee

Portanto, faz parte da prática de um escalador mais inteligente, frequentar sempre que possível lugares inéditos a ele. Para assim conquistar o repertório de movimento e adquirir conhecimento de vários tipos de técnica. O processo de aprendizagem de qualquer técnica passa por frequentemente buscar soluções originais e criativas. Assim a cada solução original, este tipo de técnica aprendida pode ser repetida frequentemente. Um exemplo cristalino é o uso de drop-knee, ou para quem gosta do idioma francês o lolot, que poucas pessoas sequer conheciam a técnica até pouco tempo. Mas a partir do momento que um escalador a utilizou, passou a ser usada constantemente.

Ou seja, quanto mais situações diferentes, em ambientes diferentes, enfrentar o escalador, melhor será sua técnica com o tempo. Isso porque a principal qualidade de um bom escalador, que é o que diferencia um escalador de alto nível de um outro que acha que é de alto nível (mas a realidade mostra que não é) é possuir a mente aberta. Mente aberta para sempre estar curioso a respeito de maneiras de solucionar o problema, possuir vontade de aprender novas técnicas.

Curvas de aprendizagem

tecnica em escalada

Curva de aprendizagem

Para entender a importância do aprendizado, que está muito ligado ao cérebro e menos aos músculos, é necessário ter em mente o conceito de “curva de aprendizagem”. O conceito de curva de aprendizagem é antigo e tem origem na Psicologia. As experiências realizadas por Hermann Ebbinghaus, primeiro autor na psicologia a desenvolver testes de inteligência, foram publicadas em 1885. As experiências que Ebbinghaus realizou na Psicologia Experimental foram mais tarde expandidas à esfera da Economia.

Quase 50 anos depois o engenheiro aeronáutico Theodore Wright, em 1936, relacionou pela primeira vez a produtividade com a produção acumulada verificando que existia um padrão de aprendizagem e que o tempo para produzir uma unidade adicional de produto diminuía. A partir disso, os conceitos de curva de aprendizagem foram usados para analisar processos industriais e econômicos. Desde então passou a ser comum associar a utilização da Curva de Aprendizagem no ambiente trabalho à ideia de falta de experiência.

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Mas o que um processo científico de psicologia tem a ver com a escalada? A resposta é que tem muito a ver sim! Pois a cada nova técnica de escalada aprendida, devemos termo em mente que o grau de aprendizagem no início de qualquer coisa nova é bem lento. À medida que a pessoa se familiariza com o assunto, a velocidade do aprendizado aumenta. Claro que tudo depende da disposição do atleta em aprender. Esta disposição é o que no início do texto foi classificado como “ter a mente aberta”. Portanto, para escalar melhor, em vez de escalar mais forte, todo escalador (a) deve estar disposto a tentar até desenvolver sua nova habilidade.

O que somos capazes de realizar em qualquer esporte, depende do grau de empenho e prática de uma determinada habilidade. Portanto, chegar a ser um escalador de fato competente, especialmente em todo tipo de rocha, é um projeto que deve ser encarado como de longo prazo. Pois para isso é necessário desenvolver um leque de padrões corporais que leva, em média, algo como 10 anos. No meio deste processo, haverá a zona de conforto (caracterizada por aquele que somente escala no mesmo lugar, ou no mesmo tipo de rocha) que deve ser evitada sempre que possível.

Mas lembre-se que o tempo de prática de cada pessoa contribuiu para apenas um terço dos resultados obtidos nas mesmas atividades. Claro que existe a inegável importância dos treinos para se tornar um especialista em qualquer coisa. Diversificar os treinos, buscando sempre aprender algo novo, incorporando-o ao repertório de conhecimento que já existe é o segredo para o sucesso.

Inteligência emocional

Para aprender a aceitar o constante aprendizado, é necessário, como citado acima, ter uma aceitação de “volta ao início”. Muitos, por possuírem uma vaidade elevada, se recusam a voltar a estágios de aprendizes. Este tipo de comportamento pode ser visto todos os dias em ginásios de escalada, assim como locais populares de prática de qualquer esporte.

Muito deste tipo de comportamento é creditado à inteligência emocional, um conceito relacionado com a chamada “inteligência social”. O conceito bem recente da psicologia e apresentada pelo psicólogo norte-americano Daniel Goleman. Um indivíduo “emocionalmente inteligente” é aquele que consegue identificar as suas próprias emoções com mais facilidade. De acordo com o psicólogo, o indivíduo com grande inteligência emocional possui a capacidade de se automotivar e seguir em frente mesmo diante de frustrações e desilusões.

Foto: Jon Cardwell

Portanto, é fundamental para qualquer escalador, observar como é a sua própria inteligência emocional, especialmente quando está escalando. Observar as próprias ações quando sente certas emoções. A partir disso, começar a analisar como isso afeta sua vida.

Desta maneira, aprender a controlar a vaidade excessiva, abrir a mente para o constante aprendizado, é o que fará qualquer escalador deixar de apostar na força bruta e privilegiar a técnica.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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